sexta-feira, 10 de abril de 2020

"O Senhor dos Anéis" (1978) de Ralph Bakshi

Quando se ouve falar em O Senhor dos Anéis, imediatamente pensa-se na trilogia de Peter Jackson, uma experiência cinematográfica nunca (nem depois) alcançada. Claro está que é a adaptação mais fiel da obra de J. R. R. Tolkien e totalmente merecedora de todo o sucesso que teve e continua a ter, no entanto, ao contrário do que muita gente pensa, não é a única (e está longe de ser). Há uns tempos, já demos a conhecer uma animação de O Hobbit, datada de 1977. Essa foi a primeira aventura de Bilbo fora das páginas do livro de Tolkien. E hoje falamos sobre a primeira vez que a Irmandade do Anel ganhou vida fora da nossa imaginação. 


O Senhor dos Anéis de Ralph Bakshi é um filme de 1978. Até ter feito esta adaptação, Bakshi era um animador que se expressava livremente. Inclusive, as suas animações falavam explicitamente de sexo, como acontece no seu primeiro filme, Fritz, o Gato de 1972. Conseguir os direitos de O Senhor dos Anéis não foi tarefa fácil e a ideia de animar uma história tão complexa parecia quase inatingível na altura, mas para Ralph Bakshi não era impossível, tendo em conta que este era um visionário, sempre um passo à frente. Curiosamente, no documentário Forjando um Caminho Pelas Trevas: A Visão de Ralph Bakshi de O Senhor dos Anéis, que aparece em formato de extras na edição de DVD nacional do filme, este é descrito como estando muito à frente da própria Disney – atualmente, a comparação parece até inusitada, tendo em conta que toda a gente conhece a Disney, mas talvez a maioria das pessoas nunca ouviu falar de Ralph Bakshi, nem dos seus filmes.

Logo no início desta longa-metragem, uma coisa chama a atenção: parece haver ali uma componente mais humana na animação. Posso dizer que ao início estranha-se, mas depois entranha-se! E o realismo presente em algumas sequências deve-se ao facto de esta adaptação ter sido inicialmente filmada em live-action – imaginem só: o primeiro live-action de O Senhor dos Anéis podia ter sido filmado em 1978! – para depois ser animado através da técnica de rotoscopia, que consiste nisso mesmo: “redesenhar” o que foi filmado. Assim sendo, é interessante ver as imagens do “behind the scenes” das filmagens, onde pessoas reais estão vestidas a rigor, como depois viriam a ser animadas. Para isto, claro, foi necessário um grande guarda-roupa e, escusado será dizer, uma enorme quantidade de figurantes para formar os grupos de orcs – que na animação aparecem sem feições definidas, com ar grotesco e sempre aos grupos, tornando-se quase numa mancha negra, apenas com olhos vermelhos.


Como complemento, em várias sequências, simplesmente solarizou-se as filmagens, de modo a que estas imediatamente parecessem animações. A mistura desta técnica com personagens realmente desenhadas resulta num conjunto peculiar, que, no entanto, apresenta uma emoção que, de outro modo, não seria possível mostrar na altura. É isso, as emoções das personagens são totalmente realistas, mesmo nas feições animadas e caricatas dos hobbits e dos membros da Irmandade do Anel que vão aparecendo. Tudo o que estes sentem é mostrado com rigor, como se de uma pessoa real se tratasse, com vários movimentos faciais naturais – covinhas nas bochechas, elevar das sobrancelhas, etc.

A história de Tolkien é aqui contada com precisão, mas houve algumas exclusões. Personagens que no final teriam pouco relevo na narrativa foram excluídas, de modo a evitar que o filme se prolongasse por demasiado tempo. Mesmo assim, conta com cerca de 130 minutos e falamos apenas de uma primeira parte, pois a segunda nunca chegou a ser produzida, sendo que não existe um final definido. Ainda assim, podemos contar com o filme de 1980, O Regresso do Rei, de Jules Bass e Arthur Rankin Jr. (realizadores de O Hobbit) para terminar a jornada na animação.


É curioso vermos este filme com a adaptação de Peter Jackson em mente, pois existem várias semelhanças notáveis. Momentos icónicos são apresentados da mesma maneira, assim como o início “explicativo”, que aparece com uma voz-off, ainda que neste seja uma história mais linear, que aproveita logo para dar a conhecer por inteiro a jornada de Bilbo Baggins e a história completa de Sméagol (Gollum, posteriormente).

Por curiosidade, no que toca à dobragem – infelizmente, não existe uma tradução portuguesa, porque apesar de ter sido lançado cá, certamente não teve sucesso – destaco a participação de John Hurt, o ator mais conhecido no elenco (o eterno Ollivander da saga Harry Potter), que dá voz a Aragorn, e de Anthony Daniels (o C-3PO de Star Wars), que representa Legolas. Também o realizador do filme deu voz a algumas personagens, mas não de tanta relevância.


Dificilmente sugeria este filme a alguém que ainda não tivesse entrado no mundo de Tolkien – lá nisso a adaptação de Peter Jackson consegue desempenhar melhor o trabalho de “introdução”–, mas não posso deixar de o sugerir a todos aqueles que já conhecem as histórias da Terra Média. É um filme encantador, diferente de qualquer outra animação que já tenham visto, precisamente por causa do modo como Ralph Bakshi arriscou contar esta história, com um estilo de animação quase experimental e com cenários reais. É uma maneira diferente de ver a grande jornada do Anel!
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes, escreve cartas e coleciona figuras e outras tralhas! No que toca à Sétima Arte, desde criança que fico encantada com as animações, mas os grandes clássicos também me conquistaram o coração. Forrest Gump, O Resgate do Soldado Ryan e Cinema Paraíso são alguns dos meus favoritos. E é impossível esquecer a trilogia de O Senhor dos Anéis!

2 comentários:

  1. Nunca fui fã do Senhor dos Anéis, ainda vi os dois primeiros mas como não gostei não vi mais nenhum, não conheço os filmes dos Hobbit... Não sei se foi da idade ou se não é mesmo a minha cena, um dia tenho que voltar a ver. =)
    Não conhecia esses filmes em desenho animado...
    MRS. MARGOT

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    1. Conheço muitas pessoas que não gostam de "O Senhor dos Anéis", em especial por os filmes serem muito longos! Deste lado, adoro e não me canso de ver e de tentar descobrir mais pechinchas como este filme de animação! 😛

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