terça-feira, 28 de abril de 2020

"Retrato da Rapariga em Chamas" em análise

O novo filme de Céline Sciamma surpreendeu todos no ano passado em Cannes e veio para fazer história no cinema francês, ao definir a realizadora como um nome incontornável, depois de esta já ter surpreendido com Maria-Rapaz (2011) e Bando de Raparigas (2014) e ainda por ter escrito o argumento cuidado do filme de animação A Minha Vida de Courgette (2016). No entanto, Retrato da Rapariga em Chamas tem um toque especial e pessoal, não só de Sciamma como também de Adèle Haenel, a sua antiga companheira e presença recorrente nos seus filmes, que é uma das protagonistas. 


Marianne, interpretada por Noémie Merlant, é uma pintora contratada para pintar o retrato de Héloïse. No entanto, tem de o fazer sem que esta perceba, pois se soubesse recusaria posar, por saber que o destino da obra será um possível marido, num casamento planeado. Marianne torna-se numa dama de companhia que segue a sua senhora nos seus passeios, em longas caminhadas de silêncio, e que tem acesso à sua privacidade, de modo a conseguir cumprir a sua função.

Os olhares assumem um tom sedutor e no silêncio têm a capacidade de transmitir mais de mil palavras. A importância aqui de ver e ser visto é acentuada: destaco os momentos em que Marianne vê Héloïse com o objetivo de decorar as suas feições, para posteriormente desenhar o retrato e também quando Héloïse olha para Marianne enquanto desenha e “vê” os seus sentimentos e emoções, enquanto observa os traços que esta vai fazendo no papel. O olhar é sugerido como o início de uma paixão, que tal como a rapariga do título está em chamas, ardente e pronta para queimar tudo ao seu redor – num sentido metafórico. No entanto, a opressão surge com um problema, uma proibição da liberdade necessária para ir para além do olhar.

O argumento marca-se por períodos calados, onde só reinam as ações, mas também temos sequências onde as palavras têm grandes significados e são pronunciadas em tons poderosos, quase ecoando no vazio. Tudo soa a poesia, como se estas duas protagonistas fossem duas poetisas prontas a serem ouvidas, mas antes disso preferem ser vistas uma pela outra. 


Apesar de a maioria da duração do filme ser passada em silêncio, é de notar que ouvimos sempre sons ambientes. Por exemplo, quando as duas mulheres vão à praia, ouve-se o vento, e apesar de sabermos que está frio (através dos figurinos) imaginamos uma brisa quente – talvez por causa do calor que elas transmitem. Noutra cena, temos um grupo de mulheres a cantar, quase como uma saudação à liberdade, que é um dos temas do filme. 

A liberdade é acentuada, essencialmente, através das duas mulheres: enquanto uma vive enquanto pintora e não pretende casar, a outra vê-se obrigada a tal e antes tem de aprender a ser livre e a viver consigo mesma na solidão, o que a determinado momento percebemos que foi possível. O filme é também uma ode ao poder feminino, deixando clara uma mensagem de independência e de emancipação. 

Outro aspeto que não posso deixar de referir é a maneira como as pinturas são apresentadas, assim como o seu processo de elaboração. Vemos o traçar de cada traço do carvão e o deslizar dos pincéis, as misturas de tintas, quase como se de um vídeo de Bob Ross se tratasse – a única comparação, claro, está na forma relaxante com que ambos são transmitidos. 


Noémie Merlant e Adèle Haenel, a dupla de atrizes que veste a pele de Marianne e Héloïse, conseguem aqui tornar-se num ícone da comunidade LGBT e do Cinema em geral. Ambas trazem prestações sublimes, mesmo quando nem sempre é fácil transmitir os pensamentos das suas personagens. A química entre ambas funciona e transmite muito bem o argumento de Sciamma, que também destaca uma personagem secundária, Sophie (interpretada por Luàna Bajrami), uma espécie de criada, que a determinada altura partilha alguns segredos com as duas, que a acompanham numa jornada paralela ao rumo da história principal, mas que a influencia. 

Este é um filme que compreende as suas personagens e que acompanha os seus sentimentos através de movimentos de câmara suaves que fixam sempre os seus olhares. O final do filme, em que temos o clímax da prestação de Haenel, limita-se a observar de perto a protagonista, sem palavras, porque são desnecessárias quando o corpo fala por si só.

9/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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