domingo, 5 de abril de 2020

"The Kid" (1921), o ponto de viragem de Charlot

O vagabundo Charlot vive bem presente nas nossas memórias. Uma das criações mais geniais de Charlie Chaplin, talvez até a sua personagem mais popular e carismática, uma autêntica imagem de marca que tem vindo a ultrapassar o peso da idade e que parece continuar a conseguir o mesmo efeito que antigamente. Charlot, de caminhar desleixado e cabelo despenteado, fez rir várias gerações, mas não só. Na verdade, o filme sobre o qual falamos hoje não apenas faz rir, pois também consegue emocionar o espectador. The Kid, um dos seus grandes clássicos, apresenta Charlot como uma espécie de “pai adotivo”. 


Considerado por muitos a sua “obra-prima”, The Kid destaca-se por trazer uma viragem definitiva na carreira de Charlie Chaplin, especialmente no que toca à realização. Conta-se que Chaplin tinha este filme em mente há muitos anos, mas o processo de filmagens fez-se em menos de um mês, talvez porque as ideias já estavam na sua mente há muito. Aqui deixamos de ter apenas comédia, como referi acima. Esta está presente, mas também dá lugar à tragédia, não pondo de lado uma crítica social bastante explícita. Este tom mais pesado viria a ser, a partir daqui, recorrente nas suas próximas longa-metragens, motivo pelo qual existem tantas semelhanças entre este tramp e o de Luzes da Cidade (1931) e de Tempos Modernos (1936), por exemplo. 

Chaplin entrega o seu coração a este filme com pouco menos de uma hora de duração. Pode ser considerado um “conto de fadas” moderno, mas tem um toque agridoce que o puxa sempre para a realidade, destacando a vida levemente triste de Charlot, um pobre vagabundo, ao mesmo tempo que apresenta esta criança “abandonada” (interpretado por Jackie Coogan), com a qual estabelece uma grande amizade, mesmo paternal. 


O modo como a história de The Kid é contada forma pequenos arcos, motivo pelo qual não é considerado por todos uma longa-metragem, mas antes um conjunto de curtas. Inicialmente temos o arco da mãe da criança (interpretada por Edna Purviance), que abandona o filho num ato de fraqueza; depois temos a descoberta por parte de Charlot; de seguida a vida de Charlot com a criança (em que esta até lhe faz o pequeno-almoço) e, por fim, um dos momentos que acentua a tal ideia de “conto de fadas”, em formato de sonho. 

O melodrama está constantemente presente no exagero das emoções das personagens e na criação dos próprios cenários. É um filme mudo e isso parece tornar-se essencial. No entanto, destaco um momento extremamente melodramático (e um dos frames mais interessantes) em que temos a mãe, entretanto uma mulher rica, sentada ao lado do filho que tinha abandonado, sem que ambos saibam que são familiares. 


The Kid certamente não é uma das maiores comédias de Chaplin (o género que o marcou), mas é um filme mais pessoal e de uma ternura imensa. É também o momento em que este deixou de fazer simplesmente comédia, tornando-se num verdadeiro artista, tanto na representação como na realização. É uma verdadeira obra-prima do Cinema, que quase cem anos depois ainda consegue sensibilizar qualquer um que a veja.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

4 comentários:

  1. As saudades que tinha de vir aqui! Espero que estejam bem :)

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  2. Como eu adorava ver o Charlie Chaplin...que boas memórias. Eu e a minha mãe riamos tanto com ele xD

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