quinta-feira, 23 de abril de 2020

Uma viagem com "Lawrence da Arábia" (1962)

Hoje escrevo sobre aquele a que gosto de chamar (carinhosamente, atenção) “um clássico do tempo das nossas avós”. E digo isto porque foi através de uma das minhas avós que fiquei a conhecer esta longa-metragem, há uns bons anos. Na altura, era eu pequena, admito que não liguei muito, essencialmente pela duração e pelo tema, que eu simplesmente não entendia. No entanto, como “clássico” que é, nada melhor do que revê-lo em graúda para ter um veredicto final. Assim foi, e agora consigo entender o porquê de a minha avó tanto gostar deste filme. Mesmo assim, sinto que qualquer coisa que aqui venha a escrever não lhe vai fazer justiça, entre tantas outras palavras de pessoas mais sábias do que eu que já o referiram em críticas.


Certamente já sabem a que filme me refiro, até porque está no título deste artigo. Mas acredito que não sou a única a caracterizá-lo da maneira que referi no primeiro parágrafo. Lawrence da Arábia, realizado por David Lean, conquistou muita gente quando foi lançado, em 1962, mas parece-me que o público feminino (essencialmente) também ficou conquistado pela beleza do protagonista, interpretado por Peter O'Toole. Ora, digo isto também porque ouvi a minha avó dizer, mas não lhe digam que vos contei! Recentemente, li um artigo de Peter Bradshaw, no The Guardian, que dizia o seguinte: “perhaps there were other actors as beautiful as Peter O'Toole in his 60s pomp but surely no one had such mesmeric eyes – the eyes of a seducer, a visionary or an anchorite, a sinner or a saint”. E, de facto, aquele olhar é um dos elementos atrativos de Lawrence da Arábia, mas, claro está, que o filme tem muito mais para oferecer do que o ator principal, que para além da sua beleza também se destacou por uma prestação poderosíssima no papel do protagonista, tendo até sido considerado um dos melhores atores da História do Cinema.

O argumento apresenta-nos a história do militar britânico T.E. Lawrence que, em 1916 (em plena I Guerra Mundial), recebe a missão, por parte do governo do seu país, de unificar as tribos árabes que vivem na zona que, atualmente, é conhecida como Arábia Saudita, levando-as a combater o exército turco. À partida uma missão quase impossível, mas Lawrence consegue ser respeitado pelos líderes de cada grupo árabe e inclusive torna-se num deles, seguindo os seus hábitos de vida. 


Este épico, baseado na autobiografia de T.E. Lawrence, The Seven Pillars of Wisdom, leva-nos para o deserto em longos percursos a camelo, onde nunca sabemos o que esperar. Muitas vezes, o que vai aparecendo soa quase a miragem, mas a realidade dura e crua daquele modo de vida nómada também é apresentada. Sentimos o calor do deserto através do suor das personagens, vemos a dor do inesperado quando existem areias movediças ou imprevistos que têm consequências no que toca a atingir um objetivo. O caminho é governado pela incerteza, nomeadamente na figura de Lawrence, que tem de se tornar herói antes de merecer o respeito dos outros.

Em termos de cinematografia, Lawrence da Arábia vence pela delicadeza de cada painel em formato de paisagem. Viajamos naquele grupo. Seguimos o seu percurso desde início e movemo-nos sentados entre as bossas dos camelos. A viagem é longa e demorada, mas isso torna-se essencial para a acompanharmos. Vemos as diferenças entre os cenários, que mostram o avanço do percurso. E sabe bem, porque damos por nós a sair do sofá e a viajar para outra ponta do mundo, como se entrássemos numa máquina do tempo.


Claro está, que o centro da história aqui apresentada é um conflito, mas são as relações interpessoais que nos conquistam o coração. Ver o modo como T.E. Lawrence se adapta aos povos que vai conhecendo, as amizades que vai criando e a dúvida que muitas vezes o comanda. É um filme em que somos permitidos a julgar certas atitudes, mas frequentemente acabamos por compreendê-las. 

Também a banda sonora composta por Maurice Jarre consegue ter em nós um certo impacto. Eu diria que mais nenhuma banda sonora seria capaz de se adaptar tão bem ao que o filme apresenta visualmente. Claro que pode parecer uma observação tonta, mas temos um sentimento de que esta composição consegue transmitir exatamente o que o argumento pretende. 


Curiosamente, este é um dos poucos filmes que apresenta a classificação máxima no Metascore. Entende-se porquê. É uma experiência única e inigualável nos dias de hoje. Ainda se fazem grandes filmes, mas já não são como este, que nos leva a viajar no tempo e espaço e que, para além disso, é repleto de interpretações notáveis e com um argumento onde as palavras têm grandes significados. Aqui o deixo, em formato de sugestão. Bem sei que para alguns será impensável ver um filme com quase quatro horas de duração, mas fica a minha promessa de que no final valerá a pena.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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