terça-feira, 26 de maio de 2020

"Emma." em análise

Emma., comédia satírica baseada na obra-prima de Jane Austen, era, certamente, uma das estreias mais aguardadas deste ano, mas acabou por ter um lançamento diretamente online, na Amazon. O filme realizado por Autumn de Wilde traz uma nova visão sobre o livro em que se baseia, entregando um toque que tem tanto de fresco como de clássico. No entanto, mais do que o argumento, quem se destaca é Anya Taylor-Joy, numa interpretação estrondosa e caricata. 


A trama tem lugar na Inglaterra dos anos oitenta e apresenta-nos Emma Woodhouse, que nada mais é do que uma rapariga rica, inteligente e um tanto egoísta, no que toca às relações das suas amigas, que, ao contrário dela, encontraram o amor. Emma é rebelde e inquieta; parece não estar bem naquele espaço, desenquadrada de tudo o que a rodeia e com um sentido de humor sublime, que nem sempre é positivo. Será que a rapariga conseguirá viver um clima de romance e ter um final feliz? 

Bem, a famosa comédia romântica de Jane Austen é um nome de grande impacto na Literatura e transportá-la para o Cinema requer uma certa capacidade de a compreender e de não deixar de lado as mensagens que tenta transmitir. Neste sentido, o ponto fulcral do filme é o modo como transmite as dificuldades vividas pelas mulheres nesta Inglaterra contextualizada temporalmente. Emma é uma figura um tanto distinta das outras mulheres representadas, pois ao contrário delas não tem problemas financeiros, tornando-se num caso particular. Daí a sua falta de preocupação em casar, pois está a viver bem, é mimada e rica. Não é um retrato das mulheres do séc. XVIII, o que torna a comédia mais excêntrica, ao apresentar alguém que é diferente. 


Claro está que Emma torna-se no centro de todas as atenções, não só pelas suas atitudes um tanto escandalosas, trazidas através de um argumento que pretende enaltecer a sua personalidade forte, mas acima de tudo porque Anya Taylor-Joy é quem mais brilha num elenco que de resto simplesmente não se consegue destacar. Emma é o centro e as restantes personagens são muitas vezes ofuscadas, ao ponto de ser até difícil falar das outras performances. Estão todos ali para acenar à rainha, basicamente. 

No que toca à sua visualidade, Emma. consegue captar aquele sentimento meio artificial da obra de Austen, não apenas através do argumento e prestações, mas também no que toca aos cenários e até movimentos de câmara, que focam as reações das personagens de modo a captar as suas feições que mostram que nem tudo o que transmitem é o que pensam, contendo até grandes momentos de falsidade. 


Autumn de Wilde teve a capacidade de realizar uma adaptação bem feita desta obra literária, mas ainda assim tenho de admitir que não a vejo a sobreviver à passagem do tempo, pois parece-me ser uma daquelas longa-metragens que vemos uma vez e não queremos ver tão depressa, ainda que tenha um tom cómico e leve que nos leva a passar um bom tempo enquanto a vemos. Simplesmente acho que não nos deixa com vontade de repetir a experiência. Ou, pelo menos, foi isso que senti…

7/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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