domingo, 10 de maio de 2020

Os esquecidos "Zone of The Enders"

Aqueles que aqui estão atentos às críticas de jogos do blogue, já devem ter percebido que procuramos variar naquilo que temos nas prateleiras: já viajámos para Silent Hill, e também fomos à cidade ao lado, Raccoon City. E ainda fomos à época da Guerra Fria em Metal Gear Solid 3. Desta vez entrámos a bordo de Jehuty e fomos a Marte, e jogámos os dois clássicos da PlayStation 2: Zone of the Enders

ZoE, como também é conhecido, é uma série de jogos produzida por Hideo Kojima, alguém que nós já demonstrámos ser enormes fãs, pela maneira como este é capaz de tornar algo tão simples, como andar às voltas das mesmas divisões de uma casa, muito mais do que apenas algo que soa ridículo e aborrecido. Sim, isso também inclui Death Stranding, que, na nossa opinião, não é nada aborrecido, mas extremamente imersivo, mas esse deixaremos para outro artigo. 

Continuando, esta série tornou-se um bocado obscura, mesmo tendo o nome de Kojima no meio. Até mesmo na altura do seu lançamento ninguém reconhecia o nome, e o que o fez ser vendido não foi o facto de ser um jogo de robôs gigantes a lutar, mas sim porque trazia o demo do extremamente aguardado Metal Gear Solid 2 (e isso foi repetido no lançamento em HD para a PS3 e Xbox 360, ambos contendo o demo de Metal Gear Rising Revengeance). E, aproveitando a quarentena, e o facto de já termos os dois jogos na prateleira da PS2 há bastante tempo, decidimos pegar no velho dualshock e passá-los. Como são dois jogos no mesmo artigo, tentarei não estender muito os argumentos ou explicações de elementos.


Zone of the Enders (2001)

Este jogo foi um dos primeiros que a Konami lançaria este ano para a PlayStation, sendo que este ficaria na sombra de jogos como o tal Metal Gear Solid 2 e Silent Hill 2. Tendo saído ainda cedo no ciclo da PlayStation 2, o jogo acabou por ser apenas mais uma experiência gráfica do que propriamente longa, pois é um jogo que facilmente se passa em menos de cinco horas numa run simples. 

Tem gráficos muito bons, mais até no próprio jogo do que nas cutscenes, em que as personagens parecem um bocado awkward. A voice acting também não ajuda, principalmente na personagem principal. Admito, eu gosto de Evangelion, e, por mais que digam que o Shinji é uma personagem chata por ser tão deprimida (com o qual eu não concordo), Leo acaba por ser ainda pior. Em contraste, adorei a personagem de Viola, que foi a única a ser explorada ao longo do jogo, enquanto Leo apenas mostrou algum desenvolvimento a cerca de meia hora antes do fim, um pouco antes do boss final. 

A história é quase inexistente durante o jogo todo. Há, claro, uma narrativa, mas não é muito explorada. Há uma prequela ao jogo em formato anime que saiu antes, e aconselho a ver pois há muitos elementos que convinha ter em mente para se entender o que se está a passar, pois o jogo só se centra em Leo, uma criança que acidentalmente acaba dentro de um Orbital Frame chamado Jehuty, um robô de guerra, e tem de arranjar maneira de o levar ao exército para que este possa ser enviado para Marte, de maneira a pôr fim à guerra. E assim, o jogo foca-se mais em arranjar coisas para Leo superar alguns obstáculos, e isso faz com que tenha imenso – demasiado – backtracking, o que me deixou um pouco stressado, especialmente quando preferia avançar na história invés de voltar a lutar, nos mesmos locais, com os mesmos Orbital Frames com que já tinha lutado antes – sim, estes regressam sempre que abandonamos uma área e, mais tarde, voltamos para lá. Cerca de 75% do jogo funciona desta maneira, e não funcionam nada a seu favor. 


Mas a jogabilidade funciona com certeza. Controlar Jehuty, apesar de atualmente parecer um bocado clunky, não foi grande problema, e usá-lo em combates foi extremamente intuitivo, e rápido também, por acaso, o que torna as batalhas mais dinâmicas. Mas claro, a jogabilidade torna-se aborrecida quando tudo começa a prosseguir da mesma maneira repetidamente. Os Boss foram a única coisa que tornam as batalhas mais interessantes e menos repetitivas devido a diferentes padrões a seguir de batalha, mas também não foram muito problemáticas. 

Concluindo, o jogo parece ter muitos altos e baixos. Tem muito lado positivo, mas tem igualmente algo a puxar para trás. O que o torna certamente memorável são os momentos em que Leo e ADA (a IA dentro de Jehuty) interagem, ou eles com Viola, especialmente nos seus momentos finais. Os design de Yoji Shinkawa estão, como habitual, no ponto, e os gráficos da PS2 ajudam a mostrá-los (já nos últimos anos da PS1 isso foi visto com Metal Gear Solid). A banda sonora é também muito boa, especialmente o tema inicial do jogo. Mas os 75% de backtracking num jogo de um pouco menos de cinco horas puxam tudo para trás, tornando-o um bocado enervante e tedioso. Este ainda acaba num cliffhanger enorme, que deixou um sabor um bocado amargo enquanto os créditos passavam. Sabia que havia uma sequela ao jogo, mas, na altura em que isto saiu, a ambiguidade no final deve ter sido gigantesca, pois ainda não tinha sido anunciada nenhuma sequela ao mesmo, algo que apenas ocorreu dois anos mais tarde. 


Zone of the Enders – The 2nd Runner (2003)

Quando a produção deste novo jogo começou, Kojima formou uma nova equipa de maneira a conseguir uma nova abordagem, tentando, ao mesmo tempo, aperfeiçoar aquilo que tinha sido conseguido com o primeiro, inclusive aquilo que muitos criticaram (o que inclui muitas que referi acima). E foi mesmo isso que conseguiram. 

Não só tornaram a história mais linear, como também mudaram a personagem principal, sendo que desta vez seguimos Dingo invés de Leo. No entanto, voltamos a pilotar Jehuty, que tinha sido escondido durante vários anos após os acontecimentos do primeiro jogo. Dingo pertencia ao grupo terrorista que conhecemos no primeiro jogo, mas tinha saído pois começou a discordar com tudo o que aquele grupo defendia, distanciando-se assim da guerra, para depois ela mesma ir ter com ele, e arranjar assim motivação para lutar por si e por Marte.

A ação também deixou de ser tão repetitiva como era no anterior. Sendo mais linear, estamos sempre a mudar de espaço, e, muitas vezes, aparecem novos bosses para derrubar, enquanto no anterior eram pelo menos dois. Finalmente foi-se capaz de lutar, também, contra Anubis, o Orbital Frame considerado um gémeo de Jehuty, tendo capacidades semelhantes um e o outro. A dinâmica do jogo também se tornou muito mais rápida, e sente-se maior liberdade no comando. Como aqui já se evolui de uma maneira mais gradual que não implica andar para a frente e para trás, já não se vê tanta ansiedade para continuar a forçar a seguir em frente, e tem-se mais motivação em experimentar armas novas que vão surgindo conforme se progride. 


A história também se tornou mais constante do que algo que mais parecia superficial. Há mais personagens, e o jogo logo de início fez com que nos preocupássemos com elas, inclusive com a personagem principal, com o qual sentimos mais empatia do que com aquela que costumava apenas chorar ou reclamar. Também se percebe muito melhor os acontecimentos do jogo, sem ter de recorrer a um anime que havia saído anteriormente (o que existe, por acaso, um anime que se passa entre ambos os jogos). E ainda, depois daquele enorme tease na batalha final do primeiro jogo – o que me deixou com um sabor amargo por não poder ter feito nada naquele momento senão deixar-me ir – foi finalmente explorado aqui, e de uma forma bastante satisfatória. 

A nível gráfico, para além de melhorarem os gráficos, também alteraram a maneira de apresentar cutscenes: invés de mostrarem cenas feitas em CGI, aproveitaram para fazê-las em formato anime, o que o torna menos distrativo em comparação com as animações awkward do primeiro jogo. Estas às vezes também aparecem complementadas com as cenas CGI do próprio jogo, e, nesses momentos, faz lembrar as conversas CODEC de Metal Gear Solid, pois basicamente tudo o que se vê com cabeças e bocas a mexer, algo de que sou nada contra, mas, tendo em conta as capacidades técnicas que já havia na altura, talvez pareça um bocado preguiçoso. 

Este jogo, com alguma pena, também é um bocado curto, passando-o em cinco ou seis horas, mas a sua linearidade e constante ação rápida e alternativa, tanto destruindo bosses como nas várias boss battles, a ligação entre as personagens e com o jogador, tornam uma experiência totalmente superior à conseguida pela primeira vez, o que me faz querer que este seja um dos muitos jogos excelentes que a PlayStation 2 tinha para oferecer, mas teve pouca procura, o que mostra a valorização e procura que estes jogos têm agora. E, já agora, Beyond The Bonds é cinco estrelas, o que me fez ver a intro do jogo sempre que colocava o disco.


Infelizmente, apesar de ter havido várias tentativas de fazer um terceiro jogo, os planos, por agora, já não existem, e, tendo em conta como a Konami tem tratado as suas propriedades, não me espanta que nunca mais vejamos algum jogo de Zone of the Enders. Têm havido rumores de que a Sony queria comprar várias propriedades da Konami, entre elas Castlevania, Metal Gear e Silent Hill, e espero que Zone of the Enders possa ser uma delas. 

Entretanto, para os interessados em pegar nestes jogos – algo que aconselho vivamente – e não tiver como jogar os originais de PS2, há duas coletâneas HD com ambos os jogos, uma para PS3 e outra para Xbox 360 (sendo retrocompativel com a Xbox One) – a nível gráfico não são ambos nada demais, tendo a mesma fama que o remaster HD de Silent Hill, que é considerado um dos piores remasters de sempre –, e um remaster 4K de The 2nd Runner para PS4.

P.S: sabemos que há ainda um jogo para o Gameboy Advance, mas como não é tão comum aparecer, ainda não nos foi possível jogar.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

Sem comentários:

Publicar um comentário