quarta-feira, 6 de maio de 2020

"Os Willoughby" em análise

O último filme de animação que vi na Netflix deixou-me agradavelmente surpreendida. Foi Klaus (2019), a longa-metragem de Natal que ia buscar um estilo de desenho mais tradicional e que carregava uma história original, completamente distinto de todos os filmes que celebram aquela época festiva. Agora o que vi não tem nenhuma relação com esse, tirando o facto de também se ter estreado na plataforma. Refiro-me a Os Willoughby, lançado no passado dia 22 de Abril. 


Realizado por Kris Pearn e com Cory Evans e Rob Lodermeier como co-realizadores, o argumento do filme apresenta-nos uma família disfuncional, os Willoughbys. Os pais amam-se loucamente, numa relação de extremos e caricata. No entanto, esse amor não é passado para os filhos, que estes ignoram ou maltratam, considerando-os apenas um estorvo no seu romance monótono. Tim, o filho mais velho, é aquele que recebe as culpas por tudo o que de mal acontece na casa onde moram; Jane é a irmã sonhadora que quer sair dali, cantar e ter uma vida feliz para lá do arco-íris; depois temos ainda os gémeos Barnaby – ambos com o mesmo nome, numa demonstração do quão pouco os pais se interessam por eles –, capazes de criar as mais diversas engenhocas. Os irmãos criam um plano para se ver livres dos pais, tornando-se órfãos felizes. No entanto, o plano não sai bem como planeado… 

Assim como muitos filmes de animação, este introduz um narrador, neste caso um gato vadio, que avisa logo que esta não é uma história feliz, apresentando as crianças negligenciadas de um modo cru, com os pais a mostrarem sempre o seu desagrado – inevitavelmente, estes ganham logo o nosso ódio, que se mantém até ao final. Senti que quando o narrador disse que aquela não era uma família com um final feliz seria apenas uma artimanha para enganar o espectador. Quantas vezes já vimos vilões a tornarem-se bons e a merecer a nossa piedade? No entanto, aviso que este argumento marca pela diferença ao manter-se fiel ao que propõe. 


A história tem algumas semelhanças com A Família Addams ou até com contos de Dr. Seuss, na medida em que tem a capacidade de brincar com temas sérios e de apresentar os pais (os adultos!) como más influências e pessoas menos sérias. Assume-se um tom cómico, ainda que se viva uma tragédia naquela casa. O público sabe que o modo como os pais tratam as crianças não é o correto, no entanto a vontade de seguir o que lhes vai acontecer torna-se intrigante. A determinado momento, claro, seguimos um rumo mais feliz, com a chegada de uma ama que compreende o que está a acontecer e que se torna numa família, mostrando que esta não tem de ter uma relação de sangue, abordando também este tema. 

A animação é muito colorida e dinâmica, nomeadamente nas sequências da fábrica de doces e da viagem dos pais, em que estes parecem ver tudo a correr, sempre prontos a passar para a etapa seguinte. Na casa dos Willoughby começamos por ter um ambiente mais sombrio, com destaque para a sala do carvão, em tons acinzentados e suja. No entanto, à medida que a trama avança começamos também aí a ter uma nova iluminação.


Os Willoughby não é o filme de animação convencional em que se vive um conto de fadas. Na verdade, consegue até deixar algumas críticas explícitas, não só no que toca à violência nas famílias, mas também no papel da mulher nas sociedades modernas, através da personagem de Jane e da ama. É um filme que nos consegue agarrar com a sua história e que nos anima, apesar de ter alguns momentos mais graves que não devem ser recebidos como brincadeira.

7/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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