sábado, 27 de junho de 2020

"Spirit - Espírito Selvagem" (2002), um grito de liberdade

Se há um filme que posso dizer que marcou a minha infância é Spirit - Espírito Selvagem (2002). Eu sei que foi por muita gente comparado a O Rei Leão (1994) da Disney e até considerado uma cópia por parte da Dreamworks. Curiosamente, admito que não sou tão fã dessa criação da companhia do Mickey Mouse, talvez porque em criança não o tive em VHS (ao contrário deste sobre o qual hoje escrevo), o que fez com que não o visse tantas vezes como vi outros – se falarmos da Disney, posso dizer que Hércules (1997), Mulan (1998) e Tarzan (1999) estão, certamente, com as fitas a ficar gastas de tantas vezes terem sido rebobinados. Ora, Spirit foi, para mim, perfeito naquela altura. Isto porque eu, como 90% das crianças (atenção, não é uma percentagem oficial, mas podia ser) tinha um fascínio enorme por cavalos, ao ponto de até estar sempre a desenhá-los, nem sempre tão bonitinhos como eu os via. E Spirit tinha precisamente isso: cavalos… E muitos! Claro está, depois de ver o filme, os cavalos nele representados passaram a ser a minha maior fonte de inspiração em desenhos que até hoje tenho guardados. 


Infelizmente, hoje lembrei-me de escrever sobre Spirit - Espiríto Selvagem, mas não por bons motivos. Kelly Asbury, um dos realizadores, faleceu esta sexta-feira, aos 60 anos, depois de uma longa batalha contra o cancro. No seu currículo enquanto realizador, não só está esta obra-prima com que se estreou na realização (depois de já ter feito parte da equipa de outras longa-metragens de animação) e que lhe rendeu uma nomeação aos Óscares, mas também Shrek 2 (2004), outro clássico da minha infância. Infelizmente, o seu último trabalho fica a ser Uglydolls, no ano passado, sobre o qual já escrevi aqui no blogue. Enfim, hoje, recordar Spirit – Espiríto Selvagem pareceu-me fazer sentido, quase como uma breve homenagem, mas deixo aqui em nota que, ao contrário do que costuma acontecer com os artigos de Rebobinar da Companhia Cinéfila, não estive a rever o filme, pelo que o que escreverei terá como base as minhas memórias e peço desde já desculpa por algum possível erro.

Voltando ao filme de hoje, gostava de pegar novamente na “comparação” entre este e O Rei Leão. Não que fosse preciso, mas tenho de dizer que nunca vi assim tantas semelhanças entre os dois e, por este motivo, lamento que as parecenças que algumas pessoas encontraram levaram Spirit a ser subestimado. Um é uma homenagem perfeita a Shakespeare, em que tudo é um drama capaz de levar os nossos sentimentos ao rubro, mas outro é um autêntico grito de liberdade, também carregado de sentimento e alma, e que começa a surpreender desde o primeiro minuto, quando vemos uma égua a parir, no meio de pardos verdejantes… 


Algo que sempre admirei em Spirit é o facto de termos acesso aos pensamentos do nosso protagonista através da voz-off, pela narração de César Mourão na versão nacional e pela de Matt Damon no original. Não temos animais a falar, o que geralmente acontece nos filmes deste género, e nem sentimos necessidade disso, pois as ações das personagens, por si só, já têm o poder de transmitir a maioria do que pensam. Claro está, as personagens humanas têm vozes próprias e adequadas ao estilo de cada um – a maior diferença está entre o Little Creek, um jovem índio, e o feroz Coronel –, mas, mesmo quando estes estão ausentes, há dinâmica suficiente para conquistar a nossa atenção, sem que esteja sempre alguém a falar. 

Por falar em dinâmica, tenho mesmo de referir os minutos iniciais do filme, em que percorremos o habitat de vários animais, à medida que acompanhamos o voo da águia amiga de Spirit e sinal de liberdade, com a sua capacidade de voar para onde quer, mas também de segurança – esta torna-se num porto seguro para o protagonista, que, mesmo quando se afasta do seu lar, consegue encontrar o seu rumo ao vê-la. É como sentir uma brisa de ar fresco, numa animação moderna para a altura, em que mesmo recorrendo ao desenho existe um determinado realismo na paisagem. Quando surgem os cavalos então… É de se ficar arrepiado! 


Para esta dinâmica também contribui a banda sonora, com músicas originais de Bryan Adams (e não piores cantadas por Olavo Billac, que fez um excelente trabalho na tradução portuguesa). Este acompanhamento musical traz uma enorme força à narrativa, pois as letras das músicas descrevem o que está a acontecer. Vejam-se os temas “I Will Always Return”, em que a letra apela a uma busca pelo desconhecido a par com um conhecimento do caminho de regresso a casa, ou “Get Off My Back”, quando o Coronel tenta montar o mustang, sem grande sucesso, adicionando uma grande adrenalina sonora ao visual. Depois, claro, há a famosa “Here I Am”, memorável não só no filme, mas por ter sido a única desta banda sonora a chegar às rádios – pelo menos por cá. 

Não menos importante é a composição de Hans Zimmer, que, para mim, não querendo cair no erro de parecer estar a ser influenciada por uma grande nostalgia, é uma das suas melhores composições de sempre. Interessante é mencionar que antes deste filme, Hans Zimmer também trabalhou na banda sonora de O Rei Leão, tornando-se mais um dos fatores de comparação entre ambos os filmes. Para mim, aqui é épica. Por exemplo, quando atinge o clímax no momento do salto em que o cavalo e o índio finalmente escapam das mãos do Coronel. 


Se tivesse de descrever este filme numa palavra, seria mesmo “liberdade”. Se tivesse de o descrever noutra, seria “viagem”. Isto porque o que aqui temos é uma viagem, que é também a vida e o crescimento. Acompanhar este cavalo nesta viagem não planeada e espontânea é vê-lo a crescer, a enfrentar os seus medos e a descobrir quem quer ser, sabendo que a qualquer momento terá a oportunidade de voltar ao seu lar, já com novas experiências vividas. É uma saída da zona de conforto.

Para terminar, claro que não posso deixar de sugerir este filme a quem nunca o viu. É uma obra-prima da animação que gosto de ver com alguma frequência, o que faz com que talvez seja o filme que mais vi ao longo da minha vida. Hoje quis apenas trazer algumas palavras sobre ele, em homenagem a Kelly Asbury.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

1 comentário:

  1. Uma bela homenagem, sem qualquer dúvida! Porque nada como falarmos sobre a obra de um determinado artista, permitindo que a sua memória e o seu lado sejam transmitidos por várias gerações.
    Tenho mesmo que rever este filme *-*

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