terça-feira, 28 de julho de 2020

"Capone" em análise

Chega esta semana aos cinemas Fonzo – perdão, Capone –, filme realizado por Josh Trank e protagonizado por Tom Hardy que reconta a história dos últimos anos da vida do mafioso Al Capone. Já vem tarde... Lá fora já foi lançado há uns tempos, diretamente online. Pelo menos por cá vamos ter direito a vê-lo no grande ecrã, mas o curto espaço de tempo que demorou a chegar é o suficiente para vir com uma carga de críticas negativas, que, honestamente, quase tiram o apetite. 


Capone leva-nos, como referi, para os últimos anos da vida de Al Capone, já depois de este ter sido libertado da prisão, encontrando-se num estado em que a sua saúde está longe de ser a melhor. Somos apresentados ao seu núcleo familiar, à sua vida, em que este, muitas vezes, tem de enfrentar os fantasmas do passado, num constante pesadelo que quer levá-lo de volta aos maus vícios. 

O protagonista é interpretado por Tom Hardy, que entrega uma performance repugnante – neste caso, num bom sentido –, incapaz de nos levar a criar alguma simpatia com Capone. O trabalho de maquilhagem também contribui para que tenhamos vibrações negativas quando a personagem entra em cena, com um aspeto pouco afável, quase em deterioração. No que toca a Tom Hardy, consegue, sem alguma dúvida, encaixar-se bem neste papel que tem de assumir. Infelizmente, o mesmo não acontece com mais nenhum dos outros atores do elenco, que parecem apenas sombras destinadas a limpar o seu vómito. Não há desenvolvimentos, o que, em determinada sequência, deveria ter sido tido em conta, pois não há impacto no espectador, pois este não se preocupa com ninguém – na verdade, nem com o protagonista, mas este mostrou mais do que motivos suficientes para afastar a nossa empatia. 

A minha referência ao antigo título do filme no início deste artigo não foi, de todo, despropositada. Acontece que, a meu ver, a mudança para Capone – que o próprio realizador queria rejeitar – sugere que este é um filme biográfico, o que não é bem verdade, pois a narrativa não é tradicional, não sugerindo como era a vida de Capone, mas mais o que este sentia, o que via e como reagia frente aos seus pesadelos, num jeito ficcional, quase sobrenatural. A determinado momento temos uma desconstrução da persona, esquecemos que o protagonista é Capone, pois poderia ser qualquer outra pessoa no seu estado de saúde. Se a uma primeira ideia poderíamos pensar que este ia ser mais um filme sobre gangsters, a verdade é que no final temos um lado mais humano e normal, que mostra que todos caminhamos para o mesmo. 


Apesar de ter algumas boas sequências, em que até posso destacar o efeito da banda sonora – por exemplo, durante um tiroteio –, que consegue enganar o espectador, quase levando este a questionar se o protagonista vai mesmo fazer algo, na sua maioria Capone assume um tom muito lento, que pode também levar o público a sentir um certo aborrecimento, mesmo com toda a força que Tom Hardy deposita naquela personagem (chegando até a alterar o tom de voz). Capone não é bem o que eu estava à espera (acredito que enganou muita gente) e o resultado esteve longe de me agradar, não me parecendo arriscar muito, apesar de conseguir entregar um género de narrativa menos habitual.

4/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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