sexta-feira, 24 de julho de 2020

"Darkness" ("Buio") em análise

Nesta sua 14ª edição, o MOTELX – a realizar-se entre os dias 7 e 14 de Setembro no Cinema São Jorge – promete apresentar uma variedade de filmes realizados por mulheres, especialmente tendo em mente que as realizadoras deste género têm pouco reconhecimento, infelizmente. Um dos filmes que fará parte da programação é Darkness (Buio, no nome original), de origem italiana e realizado por Emanuela Rossi. Darkness foi apresentado aos jornalistas depois da apresentação do programa deste ano, numa escolha que parece não ter sido despropositada: isto porque a trama desta longa-metragem transporta-nos para uma casa, onde três jovens raparigas vivem em cativeiro, proíbidas de sair à rua. 


Stella, Luce e Aria moram numa casa longe de tudo, escura e sem grandes modernices. Não têm telemóvel, não há internet e muito menos acesso a notícias. O único contacto que têm com o exterior são os relatos do pai, que afirma constantemente que lá fora se vive um pesadelo e que as pessoas lutam por comida. No entanto, rapidamente percebemos que pode não ser bem assim, pois a relação que este tem com as raparigas é de uma soberania extrema, mostrando indícios de abuso familiar. 

É quando Stella, a jovem mais velha, quebra as barreiras que a narrativa se torna mais interessante, estabelecendo um confronto entre testemunhos. As raparigas mais novas deixam de saber em quem confiar a determinado momento, deixando Stella numa situação de desconforto, mas de curiosidade em relação a vida que há muitos anos tinha perdido – é de notar que esta é a única das três protagonistas que tem conhecimento do que existe para além da casa, o que mostra há quanto tempo vivem em clausura. 


Em 2016, o filme 10 Cloverfield Lane apresentou um argumento parecido com este, onde também se declara que o mundo exterior está diferente, um caos. Em ambos os filmes, não sabemos o que pensar: estará mesmo um caos? Ou será isso apenas uma artimanha para manter os prisioneiros pacíficos, sem vontade de sair? Assim como nesse, em que a protagonista Michelle desconfiava dessas declarações, aqui temos Stella que vê, com os seus próprios olhos, que está tudo como se lembrava, normal. Ao mesmo tempo, porém, temos o pai da jovem a declarar que ela é louca, novamente sugerindo que esta pode não estar consciente do que faz ou vê. Darkness consegue, assim, provocar o espectador, levando este a suspeitar de algumas personagens e a confiar noutras. Só que, no final, também este pode sentir-se enganado, pois nem tudo o que parece é real. 

A atriz que interpreta Stella, Denise Tantucci, é o grande destaque do elenco, até porque é quem seguimos durante mais tempo, durante as suas saídas à rua. Esta tem de interagir com várias circunstâncias distintas, desde os momentos em que está em casa, num seio mais tradicional, aos outros em que sai e tem de se adaptar à atualidade que desconhece. As suas reações aparecem com grande naturalidade, numa excelente prestação. 


O modo como o argumento apresenta as diferenças entre passado e presente também é um fator interessante. Dentro da casa não há espaço para novas tecnologias, pois estas iam destruir a mentira. Isso é visível através das velas, pois não há luz elétrica, da banheira, e, acima de tudo, dos poucos programas que passam na televisão (há televisão, mas das antigas) – temos daquelas aulas de dança tão típicas dos anos oitenta, em que as pessoas usavam roupas de lycra, com cores berrantes. De modo a salientar esta diferença, a banda sonora assume um papel fundamental, alternando-se entre temas mais clássicos e grandes hits recentes e populares. 

O maior problema aqui é talvez a dificuldade em restringir os géneros, acabando por ter indícios de vários. Temos terror, thriller, sci-fi… E ainda uma pitada de fantasia, de conto de fadas, surgindo através de imagens que separam os capítulos, que parecem não ser bem encaixadas na totalidade do filme. Também o toque de sci-fi parece escusado, mas talvez apenas me tenha sentido provocada com esta decisão. 


Não sendo totalmente original, Buio apresenta a sua premissa com um toque refrescante, aliando-se também a uma cinematografia onde prevalecem as luzes néon e os contrastes entre tons claros e escuros da vida dentro e fora de casa. A naturalidade com que o elenco interage contribui para que o espectador se sinta mais envolvido pela narrativa, não sendo possível prever, à partida, o seu desfecho. É um filme que vale a pena ver, especialmente pela sua grande mensagem: as raparigas resistem.

7/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

Sem comentários:

Publicar um comentário