terça-feira, 7 de julho de 2020

"Hamilton" em análise

Muito mais cedo do que seria inicialmente esperado, chega agora o filme de um dos mais famosos musicais da Broadway e também aquele que tem marcado a nossa geração, apesar de representar um momento histórico e não a atualidade. Hamilton, o musical, foi criado por Lin-Manuel Miranda, baseado no livro biográfico do “pai-fundador” americano Alexander Hamilton, escrito pelo historiador Ron Chernow. A sua estreia, ainda fora da Broadway, foi em 2015 e, entretanto, tornou-se recordista de bilheteiras e popular ao redor do mundo, ao ponto de agora chegar ao Disney + (ainda não disponível em Portugal, infelizmente – chegará em Setembro, já não falta muito!) em formato de longa-metragem. Este filme esteve previamente com o lançamento marcado apenas para o final do próximo ano, mas acabou por ver a sua estreia muito antecipada, quase como uma prenda pela situação vivida, compensando, assim, todos aqueles que ainda se encontram em quarentena. 


Totalmente filmado em palco, este filme realizado por Thomas Kail tem a capacidade de nos dar a conhecer o espetáculo na sua forma integral. São quase três horas de duração em que quase sentimos que estamos no meio da plateia a assistir à peça, talvez até na primeira fila. Na verdade, através deste filme, com o recurso a vários close-ups, conseguimos ver as expressões dos atores, com grande pormenor, o que no próprio teatro talvez passasse despercebido, tendo em conta a distância entre palco e público. Neste sentido, por um lado gostaria que houvesse mais close-ups, mas por outro sinto que está ótimo assim, pois não se perde a envolvência cénica, com o palco a aparecer na maioria das vezes na sua totalidade, o que permite dar uma ideia de como este é decorado e como cada ator tem um papel fundamental no que toca à criação de um ambiente particular – neste caso, tudo compõe um cenário que nos leva a viajar para 1776 e daí em diante. 

No que toca aos close-ups, devo admitir que através desta façanha conseguimos perceber que o elenco de Hamilton é realmente muito bom (caso houvesse dúvidas). Ora, de outro modo seria difícil ver as lágrimas de Eliza (interpretada por Phillipa Soo) ou a baba a escorrer pelo canto da boca do Rei George (interpretado por Jonathan Groff, que nesta altura ainda fazia parte do elenco, antes da sua retirada em 2016, mesmo antes das filmagens deste filme).


Eu admito, gostei muito deste filme e, tendo em conta que o que nos mostra é o próprio espetáculo, é difícil encontrar algum aspeto negativo… Mas, infelizmente, para mim houve um: sabem quando estão a ver um jogo de futebol e as imagens simplesmente aparecem, mudam, focam num jogador ou noutro, sem parecer haver muitos objetivos pelo meio? O que senti com Hamilton é que a edição foi um pouco brusca, o que até entendo tendo em conta que o filme só devia ter chegado no próximo ano. Ainda assim, não considero isto muito mau, até porque funciona como os nossos olhos: num espetáculo destes também não estamos sempre a olhar para o mesmo e o nosso olhar também mexe quase automaticamente, não é verdade? 

Hamilton tem o poder incrível de dar a oportunidade de ver a peça de teatro a quem de outro modo não o poderia fazer, especialmente neste momento. A peça em si é cheia de emoção, significado e músicas que não nos largarão a cabeça tão rapidamente. O facto de ter sido tão aclamada já diz tudo. O filme, por sua vez, consegue transmiti-la da melhor maneira. Por isso, o único motivo pelo qual esta análise não traz uma classificação máxima é simples: é um filme, visto através de um ecrã. Para ser melhor, só mesmo se estivéssemos sentados no meio do público da plateia…

9/10 ⭐
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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