domingo, 12 de julho de 2020

"O Que Arde" em análise

O nosso passado assombra-nos para sempre. Este bem podia ser o lema de O Que Arde, filme realizado pelo espanhol Oliver Laxe, que chega esta semana às salas de cinema. Aqui acompanhamos a história de um homem que depois de sofrer as consequências de um grande erro, vê-se impossibilitado de retomar a sua vida normal, pois é constantemente julgado e alvo de chacotas. A premissa é simples, mas a sua realização tem o poder de nos deixar envolvidos num filme que, para além da beleza da naturalidade com que se interage, é belo pela sua cinematografia envolvente. 


Começamos com uma sequência onde vários papeis são passados de mão em mão. Ouvimos vozes a questionar se aquele é o caso do piromaníaco. Percebe-se que é algo sério. Na sequência seguinte vemos um homem, que depois sabemos ser Amador, a viajar de autocarro. Associamos as ideias instantâneamente e sabemos que o caso referido é o dele. Suspeitamos, antes que nos seja sequer informado, que esteve preso. No entanto, quando regressa à sua terra natal, a mãe recebe-o como se não o visse apenas desde o dia anterior, perguntando-lhe só se tem fome. 

Temos uma naturalidade nos diálogos que quase torna o filme documental, como se Oliver Laxe estivesse simplesmente a acompanhar aquele homem no seu regresso à vida. Nada parece encenado, seja nas relações interpessoais ou com aquilo que os rodeia. Por exemplo, temos uma sequência em que uma vaca está presa num pantanal e outra em que duas cabras estão fechadas numa cozinha a alimentar-se com restos de comida. É-nos difícil imaginar que estas sequências tenham sido preparadas, pois surgem num modo tão real que simplesmente não pensamos que alguém colocou os animais naquelas posições. O mesmo acontece com a maneira como as próprias personagens interagem, como se não houvesse guiões, apenas um lado humano – tanto positivo como negativo, dependendo das situações – a vir ao de cima e a guiá-las. 


A trama é simples, mas deixa a sua mensagem bem clara. Repito, o nosso passado assombra-nos para sempre. E se numa primeira parte do filme isso até pode passar despercebido, na segunda parte temos as verdadeiras consequências de um passado de más escolhas. Enquanto espectadores, nos primeiros atos conhecemos as personagens, não aprofundadamente, mas o suficiente para termos a capacidade de os julgar (ou não) e de decidir se confiamos neles (ou não), o que será fundamental para aceitar o que o terceiro ano nos propõe. 

Infelizmente, este filme é de grandes contrastes, pois começamos com um pacing muito lento – atenção, não tenho nada contra ritmos lentos, até porque permitem apreciar melhor o desempenho dos atores e fixar mais no crescimento das personagens – e parece que a verdadeira “ação” só começa a desenrolar-se muito perto do final. Digo apenas “infelizmente” porque nesta primeira parte gostaria de ter tido um maior foco no protagonista, Amador, e na sua mãe, na vida de ambos, que apesar de interagirem algumas vezes aparecem como duas pessoas individuais na maioria das suas cenas. Isto porque na segunda parte passamos para uma ação em que estes simplesmente desaparecem da narrativa. Sendo a relação deles tão bela, acabei por sentir a sua falta no momento de maior tensão do filme. 


Quando Amador regressa à sua terra depois de ter estado preso, a sua mãe parece ser a única a recebê-lo com carinho. É o amor de mãe, sempre protetora com o filho. Sentimos que os vizinhos não são sinceros quando o recebem, falando sempre com algum esgar. Amador torna-se num eucalipto, num turista. Isto porque nenhum dos três é bem-vindo. Se no início do filme vemos os eucaliptos a serem destruídos, para evitar incêndios, Amador assume-se quase como um paralelo, mas humano. Ambos são vistos como culpados de incêndios, que, por sua vez, afastam os turistas, que alguns tanto querem atrair – Amador opõe-se a esta ideia, afirmando que os turistas não fazem falta naquela zona. Sabemos, de facto, que só iriam destruir a beleza natural a que Oliver Laxe dá tanta expressão, seja nas paisagens do pasto ou no encanto assustador do fogo a propagar-se, sem controlo. 

O Que Arde não nos apresenta muita ação. Na verdade, foca-se apenas no sofrimento de um homem a viver as consequências dos seus atos. O que torna o filme especial é o modo como compreende as suas personagens e cria as suas relações e também como apresenta a natureza, mostrando que o Homem nem sempre consegue controlá-la, por muito que tente. A realização de Laxe permite-nos observar e compreender o que se está a passar sem que tudo nos seja dito. Acabamos por desfrutar do filme pela sua simplicidade e pela maneira como os atores nem parecem atores, apenas pessoas a viver o seu dia-a-dia, especialmente Benedicta Sánchez, a atriz revelação de 85 anos, e Amador Arias, que interpreta o seu filho.

7/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

Sem comentários:

Publicar um comentário