sábado, 4 de julho de 2020

O regresso de "Dunkirk" (2017)

Tal como muitos sabem, um dos filmes que realmente despertou o meu fascínio pela indústria cinematográfica foi O Cavaleiro das Trevas, o filme que colocou o realizador Christopher Nolan claramente nas luzes da ribalta de Hollywood – se já não estava antes (tinha, claro, visto o Batman: O Início antes, mas não teve a mesma atenção que a sequela...). Por isso, é normal que tenha seguido a carreira do homem desde então, sempre com um grande entusiasmo de ver que nova grande experiência iria ele trazer para o grande ecrã... Até que chegou Dunkirk em 2017.


Na altura, eu já estava um pouco insatisfeito com o casting de Harry Styles no filme, por motivos bastante óbvios. Depois foram lançados os trailers, que nem sequer me cativaram o suficiente para ficar com o normal entusiasmo para um filme deste calibre. Para concluir, quando soube que o filme ia ter uns meros 106 minutos, só podia pensar que haveria algum tipo de engano, até que foi confirmado o contrário, deixando-me ainda mais com o pé atrás, visto que os filmes do Nolan normalmente têm mais de duas horas.

Ou seja, eu levei-me um bocado pelo “fanboyismo” dos Nolanistas, assim dizendo, mas tentei não me deixar levar por esses lados... Se foram decisões de Christopher Nolan, presumi que estava mais que sob o controlo e apenas esperei para ver o resultado final.


Quando estreou, vi o filme duas vezes: uma primeira vez em IMAX e uma segunda em 4DX, para poder usufruir de uma experiência de dois mundos diferentes. Quando vi em IMAX, fiquei uns minutos especado a olhar para o ecrã a pensar o que achei. Sentia que tinha gostado do filme, mas ao mesmo tempo não me sentia satisfeito. Como se estivesse à espera de algo mais que faltava, o que não podia ser porque já tem todas as cenas que precisa para nos deixar agarrados à cadeira, à espera que a sala explodisse de tanto barulho (quem foi ver o filme neste formato saberá do que falo). No dia seguinte decidi ir ver o filme mais uma vez, mas em formato 4DX, e saí do filme um pouco com a mesma impressão que tive na primeira vez que tive em IMAX, se bem que um bocado mais amarga, pois já não tinha a mesma escala épica.

Posso começar por dizer que o filme é perfeito a um nível técnico, sendo das melhores experiências IMAX que tive, o que me levou a revê-lo nesse formato mais tarde. Christopher Nolan mostra-se, mais uma vez, o mestre dessa tecnologia, e Hoyte Van Hoytema mostra-se mais uma vez capaz de conseguir acompanhar Nolan com uma cinematografia que nos deixa deslumbrados, especialmente em cenas aéreas, e o facto de ser tudo efeitos práticos deixa-nos ainda mais maravilhados com o espectáculo que nos é apresentado.


E, apesar de a qualidade da imagem parecer um pouco gasta por vezes, o filme recupera na edição sonora, pois nunca vi um filme com um volume sonoro tão alto quanto este na sala IMAX. Tal como mencionei acima, mais parecia que a sala iria explodir com tanta vibração no chão e nas cadeiras, e até se sentia nos próprios ossos tamanha vibração. Por momentos achei que iria sair da sala surdo.

A banda sonora de Hans Zimmer, desta vez, é muito minimalista e repetitiva. Sabendo das capacidades que o homem tem para compor uma banda sonora, fiquei um pouco desiludido com este seu trabalho. Sim, ela soa melhor no filme que no disco em casa ou no carro – tendo o CD, é-me fácil de dizer –, criando grande suspense e intensidade na atmosfera do filme, deixando-nos muitas vezes sem fôlego, mas ela pode tornar-se um pouco cansativa de ouvir por conter repetidamente os mesmo acordes, apesar de sempre num lento crescendo.


A nível de personagens, não há muito a dizer, porque a personagem deste filme é um todo: são os soldados e as pessoas que os vão ajudar. Não há nenhuma em especifico que se destaque, pois nenhuma tem um grande desenvolvimento no ecrã, mas isto é feito por um propósito, que é o facto de ninguém estar ali para fazer amizades e falar sobre a vida de uns dos outros. O próprio Christopher Nolan disse poucos meses antes do lançamento que o filme tem pouco diálogo porque iria retratar apenas a sobrevivência dos 400.000 soldados, e é exatamente isso que o filme nos deu, fazendo com que, graças a um dos mais simples argumentos do realizador, não tenha a mesma estrutura que um filme normal do género. Se os soldados estão preocupados em sobreviver e chegar a casa, é óbvio que não vão fazer uma lareira e falar das vidas deles ou a cantar “Kumbaya” como escuteiros de mãos dadas, mas sim a fugir, a esconderem-se, a mal dormirem com medo...

Mas, não é por não haver personagens desenvolvidas no filme que quer dizer que também não há boas interpretações. Muito pelo contrário. Todas as interpretações do filme, incluindo as dos novos atores que Nolan foi buscar com o propósito de fazer com que nos preocupemos com estranhos que nunca vimos, um risco muito grande para o realizador (sim, isto incluí o Harry Styles), estão quase 5 estrelas, sendo Mark Rylance o grande destaque.


O que pode deixar algumas pessoas desiludidas é a maneira como o filme foi editado. Como o filme segue três narrativas ao mesmo tempo que se passam num tempo e espaço diferentes, até finalmente se interligarem no fim, as pessoas podem ficar um pouco confusas até esse ponto, fazendo com que não consigam acompanhar os acontecimentos.

Por isso, o que é que eu acho que falta neste filme? Sinceramente, ainda não cheguei a essa conclusão. Já o vi e revi em casa também várias vezes, mas é-me difícil ver o filme sem fatores específicos que me ajudem a gostar mais do filme, como uma TV grande ou a possibilidade de o ver aos altos berros com o surround de uma soundbar ou qualquer coisa que amplifique o som e intensifique a experiência. Penso que sem esses fatores acaba por ser algo inteiramente banal e quase que como um filme silencioso mas sem a música de fundo por trás, sem o eco das balas a bater no metal ou o som dos motores dos aviões a passarem por cima de nós, que é algo que o complementa.


Este filme tem tudo o que se pode esperar de um filme de Christopher Nolan: uma excelente realização, boas interpretações, uma cinematografia de deixar boquiaberto, e uma banda sonora que sincroniza muito bem com os efeitos sonoros dos acontecimentos do filme que, apesar de cansativa, consegue aumentar o suspense e a tensão... Mas não consigo deixar de sentir que este filme não passa de uma experiência cinematográfica que deve ser apreciada no grande ecrã, mais especificamente em IMAX – o que até me levou a ir ver uma segunda vez nesse formato –, pois não o imagino a ser revisitado tanta vez como qualquer outro filme de Christopher Nolan em casa, especialmente devido às circunstâncias que acima referi – pelo menos no meu caso específico, pois aí posso realmente dizer que falta algo ao filme que não faltava na sala de cinema.

Felizmente, agora temos o regresso de Dunkirk ao grande ecrã, com uma reposição que antecede o lançamento de  Tenet, o novo filme de Christopher Nolan, com estreia marcada para 12 de Agosto. A Dunkirk juntar-se-ão também A Origem (2010) e Interstellar (2014). Para todos aqueles que não estão a par da carreira de Nolan, esta é uma excelente oportunidade para conhecer o seu trabalho enquanto realizador!
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

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