segunda-feira, 27 de julho de 2020

"Ofélia" em análise

Desconfio sempre um bocado quando os filmes ficam guardados em gavetas durante mais de um ano antes de terem um lançamento nos cinemas. Infelizmente, isso acontece muitas vezes. Está a acontecer agora e é esse o motivo pelo qual muitos dos filmes a chegar agora aos cinemas datam de 2018 ou 2019. É o caso de Ofélia (2018), realizado por Claire McCarthy, que só chegou na semana passada ao grande ecrã, numa tentativa de atrair pessoas às salas. Mas será que vale a pena pagar o preço do bilhete para o ver? 


Ofélia traz-nos um objetivo que é bastante habitual: contar uma história popular, mas por outros olhos. Neste caso, temos a de Hamlet, pelos olhos da sua amada Ofélia, o que pode nem sempre corresponder à obra de Shakespeare. Temos uma versão mais fresca e livre, mais feminina, sem grandes compromissos. Acima de tudo, temos a tal narrativa que se inicia com a tão usada afirmação: “vocês ainda não conhecem a minha história” – quantas vezes ouvimos isto por ano? 

Um dos grandes destaques desta longa-metragem é sem dúvida alguma o elenco, é o que chama logo à atenção. Protagonizado por Daisy Ridley e George MacKay e também com Naomie Watts e Clive Owen. Daisy Ridley surge aqui num género distante dos filmes de Star Wars que a tornaram popular, apresentando uma personagem corajosa, que é, principalmente, marcada por uma beleza conseguida através das suas feições serenas. Não sendo uma prestação memorável – o argumento não dá para mais, verdade seja dita –, tem momentos em que consegue brilhar, nomeadamente um em que tem de fingir estar maluca, e os seus risinhos complementam a mentira. Ao contrário, George MacKay parece não ter muito tempo para brilhar, pois a sua personagem está em constantes saídas de cena. Um dos seus melhores momentos é durante uma peça, em que este surge quase como um apresentador. Já Naomi Watts fica com mais trabalho que todos os outros, pois interpreta não apenas uma, mas duas personagens: duas gémeas, que a determinado momento têm um interesse amoroso em comum (interpretado por Clive Owen). No entanto, são duas personagens distintas no que toca a personalidades, tendo a atriz de assumir, em alguns momentos, uma faceta mais feroz e, noutros, uma mais calma, condescendente. O elenco contribui para que o filme se torne agradável de se ver a uma primeira vez, mas não deixa com vontade de ver uma segunda.


O argumento é apresentado de modo linear, o que levanta muitas questões em relação a algumas sequências, em que as personagens parecem simplesmente “aparecer” e “desaparecer”, sendo tudo facilitado para elas. Por exemplo, quando Ofélia consegue escapar do seu destino trágico. Inevitavelmente, o espectador questiona-se... Como assim? Porque é tudo tão fácil para ela? De resto, existem muitos outros momentos que são pouco coerentes, não por esquecerem a obra de Shakespeare – e isso não me parece um problema, pois desde início estava claro de que esta era uma outra história, com outra visão –, mas sim por parecer querer focar-se somente na personagem principal, não dando espaço para que compreendamos todos os que a rodeiam, ou para que haja sequer outros desenvolvimentos, o que no final prejudica o modo como o espectador recebe o terceiro ato, com um certo desinteresse.

A banda sonora consegue complementar a narrativa através dos seus versos: “Doubt thou the stars are fire / Doubt thou the sun doth move / Doubt truth to be a liar / But never doubt I love”. Vamos tendo pistas... Porém, a composição torna-se repetitiva, pois prolonga-se durante a maioria da duração do filme, sempre com os mesmos versos, o mesmo ritmo. 


Não posso dizer que desgostei de Ofélia. Na verdade, o tempo até pareceu voar enquanto o estava a ver, pois estava curiosa com a sua história. Infelizmente, parece é ir buscar muitos dos habituais clichés do Cinema, quando se quer contar uma história de um ponto de vista novo. E não se destaca ao fazê-lo, sendo apenas mais um daqueles filmes que vimos uma vez e rapidamente esquecemos, mesmo que até tenhamos gostado de o ver. Não traz nada de novo, mas há falta de melhor em cartaz, por isso, dadas as circunstâncias, fica a recomendação.

6/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

1 comentário:

  1. É uma pena que não traga uma visão nova. Porque acredito que, mesmo abordando lugares comuns, é possível inovar

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