terça-feira, 14 de julho de 2020

"Patrick" em análise

A adesão aos cinemas está a começar a ganhar uma maior força, depois de um longo período longe do grande ecrã. No entanto, parece-me que a maioria dos filmes em exibição são aqueles que já estavam guardados nas gavetas das distribuidoras há algum tempo, até porque os grandes nomes que tinham lançamento marcado para esta altura acabaram por ser adiados. É neste clima de fracos cartazes e de receio por parte do público de ir às salas, mesmo consciente de todas as normas de segurança tomadas pelos cinemas, que chega Patrick, uma produção nacional que, infelizmente, também já podia ter estreado há mais tempo, mas que só chega agora. 


Patrick é escrito e realizado por Gonçalo Waddington, que, por si só, é um nome de peso por ser uma pessoa carismática, especialmente depois de ter interpretado o maior “super-herói” português, o Capitão Falcão, já há quase dez anos. Desta vez estreia-se na realização de uma longa-metragem, onde junta um elenco com alguns nomes ressonantes, como Alba Baptista (a atriz portuguesa que tem feito furor lá fora com a estreia da série Warrior Nun da Netflix), Adriano Carvalho e Carla Maciel. A estes nomes junta-se Hugo Fernandes, que interpreta o protagonista. 

A trama apresenta-nos um jovem chamado Patrick. Rapidamente percebemos que a sua vida segue uma doutrina quase hedonista, mas é complicada, até porque este comanda um site de pornografia, por ele filmada, muitas vezes envolvendo parceiras drogadas. Patrick mora com o seu namorado, mais velho, numa casa luxuosa. É quando planeia uma festa que é apanhado pela polícia e vê o rumo da sua vida a mudar por completo. Acontece que Patrick é Mário, um rapaz que há mais de uma década tinha sido raptado em Portugal. É culpado, mas também é vítima. Incapaz de conciliar as suas vidas distintas, Patrick (ou Mário) acaba por entrar em conflito consigo mesmo, e com todos os que o rodeiam. 


O argumento é construído de modo a que esqueçamos o que vimos no início do filme. Isto porque à medida que vamos avançando na narrativa parece que estamos a conhecer uma segunda personalidade de Patrick, que se distancia da pessoa que vimos em delírio num bar nos minutos de abertura. Começamos com um ritmo frenético que vai acalmando aos poucos, como se Mário começasse a elevar-se a Patrick. Sentimos que a personagem cresce quando chega a Portugal e regressa ao seio familiar que há tantos anos tinha abandonado. No entanto, há sinais presentes que nos deixam confusos, inquietos. Não sabemos o que pensar, se as atitudes de Patrick e daqueles que o rodeiam são sinceras. 

Hugo Fernandes é o grande destaque deste filme. Entrega-nos um protagonista com uma personalidade fria, ao qual já pouca coisa consegue afetar. O modo como representa quando Patrick tem de receber a notícia de que vai regressar a Portugal é quase incompreensível para o público. Sente-se o nascer do conflito quando se desenterra a personalidade de Mário, que há muito já tinha morrido em Patrick. Hugo Fernandes deixa-nos a desconfiar dos sentimentos da sua personagem, motivo pelo qual ao longo do filme não sabemos o que achar dele. Terá alguma coisa mudado? Claro que o argumento tem um grande poder neste efeito, mas a representação é fundamental para nos convencer. 


Este é um filme que nos deixa desconfortáveis pelo simples facto de não conseguirmos compreender o seu protagonista, que parece viver uma depressão devida ao que passou durante a sua infância e regressar à sua terra natal desperta nele sensações que já tinha esquecido, o que se torna fundamental para atingir o seu objetivo final, que para o espectador seria quase impensável durante o segundo ato. 

Para mim, Patrick foi uma excelente aposta neste momento. A sua história pode não ser totalmente original, mas foi realizado de um modo inteligente, que consegue surpreender o público, apesar de muitas vezes os sinais conducentes ao seu final estarem presentes – assim como Mário estava presente em Patrick mas tinha sido esquecido. É um filme a não perder, que chega às salas de cinema no dia 23 de Julho.

8/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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