sábado, 25 de julho de 2020

Redescobrindo Midgar em "Final Fantasy VII Remake"

Foram anos e anos de especulação e antecipação pelo remake deste jogo. E não é muito difícil de entender o porquê: em 1997, Final Fantasy VII revolucionou por inteiro toda uma geração, seja por ter sido, para muitos, uma introdução à PS1, ou a JRPG (não eram tão comuns surgirem jogos deste género fora do Japão, mesmo os que surgiram foram poucos e não foram grandes sucessos de vendas), ou por, simplesmente, ter uma narrativa icónica, marcando assim muitos. Surgiu ainda, durante alguns anos, uma série de jogos e filmes em roda do jogo, expandindo o seu universo: jogos como Crisis Core e o filme Advent Children funcionam como prequela e sequela, respetivamente, ao jogo original, por exemplo, e ambos são igualmente amados pelos fãs. E, ao surgir tanto conteúdo novo, começou então a expectativa de que um remake do jogo original para consolas mais modernas estivesse em desenvolvimento. Foram várias as vezes que a Square Enix “mimou” os fãs com clipes remasterizados do jogo, seja para demonstrações de gráficos ou apenas para fins comerciais, mas nunca veio nada ao de cima. Provavelmente pelo receio de criar o mesmo jogo, que já significava muito para milhares, e arruinar-lhes as memórias de algo que já recordam para a vida. 


No entanto, a espera terminou, e surgiram finalmente notícias de que o remake estaria em produção, e uma estrondosa ovação ouviu-se pelo auditório todo que o presenciou em primeira mão – e pelas pessoas em casa a assistir à transmissão em direto também. Mas ainda se teve de esperar alguns anos para que, finalmente, este fosse lançado, e, até lá, houve várias controvérsias ao longo da produção: notícias de que o jogo seria dividido em formato episódico ou por partes começaram a preocupar fãs, a achar que a Square estava apenas com vontade de fazer dinheiro com uma propriedade que sabia ser rentável; Tetsuya Nomura, criador de Kingdom Hearts, seria o realizador e escritor do jogo, o que, para muitos, era uma má opção, especialmente pelo histórico que este tem no que diz respeito a Final Fantasy (mesmo tendo sido o designer do jogo original); mas nada, nem uma pandemia, conseguiu impedir o jogo de ser lançado no passado dia 10 de Abril. 

Da minha parte, este foi o primeiro jogo Final Fantasy que passei do início ao fim. Claro que conheço na totalidade a história do jogo original (o que seria muito difícil para um gamer não saber, honestamente), e tinha visto inúmeras vezes o filme Advent Children em criança, mesmo sem o contexto do jogo na altura (e gostava na mesma, especialmente da batalha final com “One Winged Angel” a tocar aos berros). Já tinha tido oportunidade de jogar o original: aliás, eu tenho-o na prateleira há coisa de dois anos, mas acabei por nunca ter coragem de pegar nele. E, com a oportunidade de poder jogar o remake, decidi encomendá-lo e jogá-lo, mesmo sem ter jogado o original – o que não é (completamente) necessário. 


O jogo começa da melhor maneira possível, mostrando ao máximo as capacidades gráficas e visuais que se podiam esperar. A reimaginação, frame a frame, da cena inicial do jogo original foi completamente amplificada e restaurada, tornando Midgard ainda mais fascinante, e a música de Nobuo Uematso ajuda a elevar o ambiente industrial, mas fantástico, da cidade, onde somos imediatamente apresentados ao protagonista e ao vasto elenco de personagens que já muitos adoram. E, assim, começa a famosa jornada das conhecidas personagens, mas nem tudo é igual àquilo que se antecipava...

Este jogo corresponde a cinco horas do original, mas estende-as para trinta/quarenta horas. O que se esperar disso? Tem alguns “enche chouriços” que às vezes se gostava de dar skip, mas, infelizmente, é preciso progredir para continuar a história. Claro que há ainda side missions, já que o jogo é basicamente um mundo aberto – apesar de algumas limitações – mas penso que alguém que está a jogar pela primeira vez esteja mais preocupado em continuar a história do que a fazer missões opcionais. No meu caso, posso ter feito algumas missões opcionais, mas tentei ao máximo apenas fazer a história, e deixar as coisas a mais para uma possível revisita ao jogo. 


O jogo está dividido em dezoito capítulos, mas facilmente se podiam cortar uns quatro que têm elementos semi-históricos completamente desnecessários. O que estes podem ter é diálogos e interações entre personagens que ajudam a fazer-nos adorar ainda mais estas personagens que já adoramos há mais de duas décadas. Acrescenta-lhes uma nova camada como personagens. Muitos dos membros da Avalanche, por exemplo, que tinham um papel muito mínimo no original, passaram a ter mais interações com Cloud, conhecemo-las melhor, têm mais desenvolvimento, e isso leva a momentos mais memoráveis aqui que no original, onde não se sentia qualquer emoção. 

Assim dizendo, todas as personagens têm um desenvolvimento bastante fluído, e percebe-se muito bem onde todos eles querem chegar. E torna-se ainda mais difícil para o jogador conseguir dizer qual a sua personagem favorita: seja o deprimente Cloud, que evolui bastante ao longo da narrativa, afeiçoando-se mais às pessoas a sua volta e deixando de ser tão frio, a Barret, que tem bastantes momentos meta (como cantar o tema de vitória das batalhas já famoso do Final Fantasy), todos têm os seus momentos para brilhar. Até personagens como Wedge têm mais que fazer no jogo, mesmo que no caso desta seja mais para comic relief. Jessie é outra personagem do original que não teve quase tempo nenhum no outro jogo e aqui está o tempo quase todo a tentar encantar Cloud, algo que nós, como jogadores, já associamos com as personagens de Tifa e Aerith, o duo dinâmico que ainda hoje carrega um longo debate às costas de qual das duas é a melhor para o Cloud. 


Há também outras personagens novas que aparecem ao longo do jogo, mas é certo que nenhuma delas será recordada quando houver conversas sobre ele. Algo que notei nelas foi até a falta de detalhe em muitas das suas animações em comparações com as personagens principais. Estas mais parecem desenhadas como básicos NPCs, especialmente nos seus movimentos de diálogo, o que era um pouco distrativo. Isso já é algo que não acontece, felizmente, nos cenários, que estão muito bem detalhados e polidos. 

E depois há também personagens que vão aparecendo completamente fora do contexto da narrativa original, sendo que esta é a parte mais controversa no que diz respeito a este jogo. A sua narrativa acaba por se tornar um pouco meta, tendo personagens chamadas Arbiters of Fate, ou Whispers, que simplesmente foram colocados no jogo como desculpa para levar a história numa direção completamente diferente. Para quem ainda não jogou, eu não direi nada do que acontece para não estragar potenciais surpresas, mas estas aparições foram o suficiente para acordar muitos fãs de longa data que, ainda agora, continuam a fazer teorias sobre o que o final do jogo realmente significava para com a sua continuação ou até para a narrativa do jogo original, com medo que a sua história fosse completamente destruída. Tudo o que se queria era um remake do que já se gostava, mas a Square decidiu ir um passo além, e redefinir o conceito de remake. Um passo bastante corajoso e arriscado da parte deles, mas falta saber se valeu a pena. 


O sistema de batalha foi completamente modificado, deixando de ser o tradicional turn base combat que Final Fantasy era conhecido por ter, parecendo-se agora algo mais parecido com um hack and slash, mas não tão simples quanto isso. Há vários tipos de combate que se tem de ter noção, seja com arma de curto ou longo alcance, seja com murros e pontapés, ou seja, até com magia, há inúmeras combinações de como combater. E isto é algo que consome algum tempo dos jogadores que têm de aprender algumas bases já introduzidas em jogos anteriores (como as fraquezas dos elementos ou como usar Materia). Isto torna as lutas muito mais dinâmicas e não tão “monótonas” como na velha fórmula (não que esta tenha algo de mal, visto que é um formato ainda hoje utilizado em outros jogos, como Pokemon), e muitas vezes são tão rápidas, especialmente quando já dominadas as várias maneiras de combate, que mais parece um flash a sair do ecrã com o título logo a seguir a confirmar que a batalha foi concluída. Mas, para compensar a falta de turnos, foi implementado um gauge que aumenta conforme o dano causado aos oponentes, e este permite até fazer summons de bestas que acabam por ajudar em Boss Fights (ou seja, nem sempre se pode fazer o dito summon), ou até parece coisas mais simples, como usar uma Potion. Por isso, este acaba por ser mais estratégico do que parece à primeira vista, e torna os combates sempre diferentes, especialmente quando o jogo vai trocando a nossa party, tornando as coisas super empolgantes. 

Este jogo, ocupando mais de 90GB na consola, não é só apenas um espetáculo deslumbrante para os olhos. Nele vem também uma coletânea constituída por vários temas músicas clássicos compostos por Nobuo Uematso, o lendário compositor da maior parte dos jogos da série, que ainda voltou para compor alguns temas novos para este jogo. A abordagem bit dos temas foi obviamente deixada para traz e agora surgem em formato orquestral, redefinindo-as ainda mais. Muitas até têm vários ritmos diferentes das mesmas composições que vão alterando rapidamente consoante o que se está a passar no jogo, dando assim um feel mais inquietante ou confortante dependendo do momento do jogo. E a banda sonora do jogo continua tão bela como outrora. Claro que não é a mesma coisa que ouvir os temas clássicos da PS1, mas este update é muito bem vindo. 


Final Fantasy VII Remake acabou por ser um jogo bastante viciante, especialmente numa altura em que foi preciso ficar trancado em casa. Foi um jogo que, assim que comecei a jogar, não consegui largar em troca de outros até conseguir concluí-lo. Foi um jogo que, assim que concluí, tive vontade de voltar a jogar logo de seguida, reviver muitas experiências e momentos que tive com personagens específicas que comecei a adorar ver à minha frente. A batalha final em si deixou-me com o sangue a ferver, e ainda agora quero pegar no comando só para poder fazer outra vez, seja qual for a dificuldade – e já é bastante, especialmente para um newcomer como eu. Pode ter bastantes problemas narrativos por causa dos chouriços a mais e alguns problemas técnicos no que diz respeito às animações de algumas personagens que não tiveram tempo suficiente para serem polidas ao máximo, mas, tudo isso à parte, continua a ser uma das experiências mais memoráveis de jogos que tive este ano. Valeu a pena o hype, e só espero que esta série (se assim lhe posso chamar) vá num bom caminho, e não se comece a descarrilar como outras certas séries… *cof cof* Kingdom Hearts e Final Fantasy XIII *cof cof*

P.S.: não cometam o mesmo erro que eu... Não escolham as escadas! (poucos entenderão)
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

1 comentário:

  1. Adorei o jogo, mas foi como jogar um jogo novo.
    Nada tira a nostalgia do clássico.
    Parabens pela review

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