domingo, 2 de agosto de 2020

"A Nota Perfeita" em análise

Com as grandes estreias de Verão todas adiadas, esta estação está a ficar marcada por apostas menos ricas nos Cinemas, ou então por reposições que buscam um maior sucesso de bilheteira. É neste cenário triste, até porque as pessoas continuam com medo de estar em espaços fechados, que chega um filme pequeno que talvez seja capaz de se safar, face à situação vivida. A Nota Perfeita, realizado por Nisha Ganatra, noutra qualquer altura podia até passar despercebido. No entanto, neste momento pode ser o suficiente para chamar o público, pois é o típico filme que nos faz sentir bem. No ano passado, por exemplo, também mais ou menos nesta altura, estreou Blinded By The Light (2019), que também era capaz de nos trazer este sentimento. Só que no ano passado não estávamos a precisar tanto de um filme assim como estamos agora. 


A Nota Perfeita segue Maggie Sherwoode (interpretada por Dakota Johnson), que é a assistente pessoal de Grace Davis (Tracee Ellis Ross), uma verdadeira estrela da Pop, com uma longa carreira de êxitos. Maggie vive uma vida feliz, mas anseia por mais. Por isso, às escondidas da chefe, começa a produzir as suas músicas, alterando os ritmos, de modo a favorecer a voz da cantora. O sonho de Maggie parece difícil de atingir: como pode uma simples assistente tornar-se produtora? No entanto, pela sua vida passa um jovem cantor, David Cliff (Kelvin Harrison Jr.), que Maggie decide ajudar, para que este consiga alcançar o sucesso. Esta é uma história onde os caminhos se cruzam, com o destino virado sempre para o sucesso e a ambição. 

Referir o Blinded By The Light pode parecer despropositado, mas a sensação que tive enquanto via este filme foi a mesma, até porque os protagonistas não diferem muito: ambos querem soltar-se da vida que têm e ambos são verdadeiras enciclopédias musicais. Aqui, mais do que nesse, a quantidade de conhecimentos despejados pode parecer absurda, pois temos a protagonista constantemente a mostrar o seu interesse por vários cantores, sempre com muitas informações que não são necessárias para o rumo da história e que são exageradas na construção da personagem, pois metade do que é dito seria suficiente para percebermos o quão “culta” ela é nessa área, sem que se tornasse aborrecido – o que, infelizmente, a determinado momento acontece, porque começamos a ficar cansados de tantas referências. 


O argumento, ainda que não apresente nada de novo, consegue dar a volta ao espectador, sem que este suspeite de alguns momentos “chave”. Há alguns truques na manga que são apenas revelados perto do final. Pessoalmente, deixaram-se surpreendida e a pensar em como não me tinha ocorrido tal coisa. Por isso, no que toca às relações interpessoais, o argumento consegue reservar-se ao máximo, de modo a criar algumas sequências inesperadas, numa história que de outro modo seria básica e previsível. É verdade que acaba por ter alguns clichés, mas estes são bem recebidos, pois não são imediatamente apresentados, sendo guardados até ao fim, quase como uma última cartada. 

Num filme em que o tema é a Música, é inevitável referir a banda sonora, que passa por alguns grandes clássicos (Aretha Franklin é a grande inspiração da protagonista) e apresenta também novas músicas originais, cantadas por Tracee Ellis Ross. Claro está, depois são apresentados muitos outros artistas, seja através da tal enciclopédia musical ou de imagens, como posters e capas de vinil que aparecem constantemente em cena, de modo a deixar o espectador mais envolvido naquele “mundo” musical – o que resulta, pois no final até conseguimos recordar músicas que não fazem parte da banda sonora, mas que apenas são mencionadas (ou seja, a simples referência causa em nós um certo impacto). 


No que toca ao elenco, não temos grandes surpresas, mas, mesmo assim, quero destacar a sensação fresca que Dakota Johnson consegue transmitir, assim como o tom de diva que Tracee Ellis Ross encara com uma grande facilidade. No caso da personagem de Dakota, esta é muito dinâmica, o que faz com que a própria atriz também tenha de apresentar uma maior leveza e rapidez. Neste sentido, a sua caracterização também contribui para a tal sensação de frescura, sempre com roupas muito leves, um estilo quase hippie, cabelo atado de maneiras sempre diferentes e desleixadas… Sentimos que a personagem está em constante movimento, quase como se se levantasse, penteasse, vestisse e estivesse sempre pronta para mais um dia de trabalho. Tudo sempre com muita naturalidade.

Acredito que este vai ser um filme que vou acabar por esquecer daqui a uns meses, no entanto fez-me sentir realmente bem enquanto o estava a ver, devido à sua grande energia e positividade. Tem muita alegria, músicas que ficam na cabeça e personagens interessantes, com histórias diferentes. É um filme feliz para nos levar ao regresso aos cinemas, por isso só falta saber se o público está disposto a tal. A partir do dia 6 de Agosto saberemos isso!

6/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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