terça-feira, 4 de agosto de 2020

"Becky" em análise

Quando vi o poster de Becky, realizado por Jonathan Milott e Cary Murnion, nunca pensei que estaria perante algo tão vingativo e com sequências tão sangrentas provocadas por uma rapariga de catorze anos. Este é um filme que se encontra agora em exibição nos cinemas, mas que parece estar a passar ao lado de muita gente, pois tenho a certeza de que se os fãs de gore e terror conhecessem a sua sinopse iam ficar com uma vontade imediata de ir vê-lo. Apesar de o argumento já ter sido usado muitas vezes no cinema – por exemplo, em Vendeta (2017) –, aqui temos algo diferente: a protagonista é uma criança (uma adolescente, vá). 


Aqui acompanhamos Becky (interpretada por Lulu Wilson, cujo trabalho mais conhecido até ao momento foi em Annabelle 2 - A Criação do Mal), uma rapariga que mora sozinha com o pai. Depois da morte da sua mãe, por motivos de doença, Becky tem em si uma grande raiva e incompreensão pelo mundo. Esta raiva fica pronta a explodir quando o pai a leva para a casa de férias, onde tantos momentos felizes passou com a mãe, e convida a sua namorada e o filho. Becky não gosta da namorada do pai e imediatamente afasta-se, deixando o caminho aberto para que quatro criminosos que fugiram da prisão tivessem a possibilidade de invadir a casa e espalhar o caos, na presença do pai de Becky, da sua namorada e do filho desta. 

Becky começa pelo fim, apresentando a protagonista já depois de todos os acontecimentos que estamos prestes a testemunhar. Esta não parece muito preocupada, ocultando informações importantes à polícia. Percebemos logo que está a mentir, tal é o modo como Lulu Wilson pronuncia as palavras e arregala os olhos, com um certo desdém. Também logo ali ficamos com a noção de que a atriz vai entregar uma performance cheia de garra, o que, de facto, acontece: sempre com um tom sério, a puxar para o triste, com feições raivosas, pronta a disparar a qualquer momento. 


Acredito que o facto de neste filme termos uma jovem a matar homens adultos – ainda que por vingança e como modo de proteção – vai chocar muita gente, podendo até, à partida, trazer um impacto negativo à receção do filme. No entanto, é esta protagonista que faz a diferença. Até porque ao longo do argumento acontece-lhe tanta coisa má, que vemos tudo apenas como uma vingança, não parecendo desnecessário nunca. Damos por nós a torcer por Becky, a querer ver até onde esta consegue ir, até onde consegue continuar a proteger-se e que novas maneiras vai encontrar para ser capaz de o fazer. E esta consegue surpreender-nos.

Kevin James interpreta o vilão. É aquele que Becky tem de enfrentar, num combate final. Quando pensamos que a personagem já não tem forças para continuar, esta entrega uma das sequências mais bizarras que podíamos imaginar. Se por um lado temos Lulu Wilson a dar tudo por tudo neste papel, também Kevin James consegue entregar aqui uma personagem diferente e crua, ainda que não tenha tanto tempo de antena como a protagonista. 


A banda sonora também merece destaque, pois é eletrizante o suficiente para acentuar a dinâmica de tudo o que está a acontecer. Faz-se ouvir principalmente nos momentos mais sangrentos, acompanhando as vinganças de Becky com uma melodia que faz com que estas pareçam ainda mais agressivas. 

Becky foi, para mim, uma agradável surpresa, até porque não sabia minimamente o que esperar deste filme. É um filme agradável de se ver, para quem é fã do género – para os que não são, o melhor é mesmo deixar passar. Lulu Wilson entrega uma protagonista feroz, que mantém o espectador incentivado o suficiente para querer continuar a ver, sem saber o que esperar das próximas vinganças.

6/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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