segunda-feira, 3 de agosto de 2020

"Cursed" - Temporada em análise

No passado dia 17 de Julho chegou à Netflix uma nova série: Cursed, uma adaptação da obra homónima escrita por Thomas Wheeler e ilustrada por Frank Miller. Aqui somos transportados para as famosas lendas relacionadas com a Távola Redonda, mas temos um grande twist: desta vez, a espada Excalibur escolhe uma mulher. A ideia, aliás, também aparece nas próprias lendas, ainda que não aparente ser muito popular. Nimue, conhecida como a Dama do Lago, é a protagonista desta história, que deu origem a uma série composta por dez episódios (cada um com cerca de uma hora de duração). 


Em Cursed, Nimue é interpretada pela já acarinhada presença habitual da Netflix Katherine Langford (a Hannah Baker de Por Treze Razões), que traz uma imagem fresca a esta personagem das lendas. Nimue aparece-nos como pertencente aos Fey, uma espécie mágica que está em minoria perante os Paladins Vermelhos, um grupo de puristas que quer a extinção dos Fey. Depois de a aldeia de Nimue ser atacada por estes, esta quer cumprir o último desejo da sua mãe: entregar uma poderosa espada a Merlin, um homem que desconhece, mas cujo nome imediatamente associa ao poderoso feiticeiro. Ao mesmo tempo, conhecemos Merlin (interpretado por Gustaf Skarsgård), que em nada se assemelha à imagem passada pelo senso comum: pelo contrário, este encontra-se com uma depressão, com os seus poderes a cessarem cada vez mais. 

Por certo aqui as personagens não se assemelham à sua imagem popular. Podemos começar por Merlin, que foi totalmente desconstruído, aparecendo como alguém fraco, que só desperta depois de um acontecimento trágico. A própria Nimue também é alterada, de modo a tornar-se a verdadeira heroína da história – pelo menos, suponho que essa seria a intenção. Mas, inevitavelmente, as maiores alterações dos registos históricos surgem de modo a modernizar a narrativa, tornando-a mais diversa em termos de elenco. A diversidade surge também na busca por caras novas, surgindo assim um grupo novo de atores que anteriormente já tinham participado em algumas produções da Netflix, ainda que com papéis secundários. É o caso de Lily Newmark (que interpreta Pym, a amiga de Nimue) – que participou em Sex Education –, Shalom Brune-Franklin (que interpreta Morgana), Devon Terrell (que dá vida a Artur) e de Daniel Sharman (o “vilão” The Weeping Monk), que, apesar de já ter tido o seu trabalho reconhecido noutras séries, surge aqui como uma novidade para muita gente, tendo já sido considerado uma das celebridades mais populares das últimas semanas no IMDb


Percebe-se desde cedo que Cursed quer entregar um conteúdo original, novo, refrescante. No entanto, infelizmente, ao querer tanto entregar algo assim acaba por perder o foco num bom argumento, que é maioritariamente composto por diálogos demasiado básicos, momentos silenciosos (constrangedores mesmo) e plot holes. Em algumas sequências dei por mim a pensar se determinados diálogos eram necessários, se não estariam desde logo implícitos nas reações das personagens. Infelizmente, também percebi que não existem assim tantos diálogos eficazes; as personagens parecem muitas vezes dizer o óbvio, quase como uma tentativa de preencher o vazio, que tantas vezes se apodera da cena. E nestes momentos de silêncio nota-se que os próprios atores não sabem o que fazer, abanando a cabeça e os olhos como se não tivessem indicações suficientes. Isto é uma pena, porque chega a parecer que estão a representar mal, o que é de estranhar, pois alguns já sabemos serem bons atores. Dito isto, parece que o grande problema é a escrita, rendida ao básico, apenas com o objetivo de cumprir o desfecho final, mesmo que isso signifique deixar uma grande quantidade de pontas por atar pelo caminho.

De modo a tentar localizar melhor o espectador durante algumas mudanças de tempo e espaço, surgem animações, quase a dividir os capítulos. São pequenas passagens que se assemelham aos créditos iniciais da série, um tanto abstratas, mas com a capacidade de facilmente demonstrarem o que as personagens estão a fazer. Durante os primeiros episódios surgem com alguma frequência, até porque ainda temos Nimue e Merlin distantes um do outro e esta é uma maneira de os deixar “em contacto”. Só que depois parecem ser esquecidas, o que é uma pena, pois até estava uma ideia bem conseguida. Durante os últimos episódios estas “separações” de capítulos são inexistentes, até quando se justificavam – por exemplo, nas conexões entre os Fey e os Paladins Vermelhos, em que simplesmente temos cortes de cena. 


No que toca à sua visualidade, Cursed lembrou-me bastante The Witcher, outra série da Netflix que também vai ao encontro da fantasia. Temos uma sensação medieval no ar quando estamos perante os cenários das pequenas aldeias, e também o sentimos quando a banda sonora desperta. No entanto, gostava que esse lado medieval estivesse também refletido na caracterização de todas as personagens, que, assim como o argumento, parecem estar simples, resultando num mau espelho do século que se pretendia representar. 

Esta nova aposta da Netflix trazia ideias atuais. Com muita pena minha parece perder-se no objetivo da modernização, apresentando um argumento muitas vezes vazio em conteúdo, onde se nota que a intenção é apenas destacar a protagonista feminina, que, na minha opinião, nem teve o melhor casting, sendo incapaz de se tornar num ícone, como tantas vezes acontece – veja-se no caso de The Witcher, a facilidade com que Anya Chalotra conseguiu tornar a Yennefer uma referência no mundo geek. Acredito que havia aqui muito conteúdo que podia (e devia) ter sido melhor desenvolvido, para que houvesse um resultado com a possibilidade de chegar a várias gerações.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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