quarta-feira, 12 de agosto de 2020

"Grease" (1978) a rebobinar

Há filmes que marcam gerações. É o caso de Grease, realizado por Randal Kleiser e baseado no musical de Jim Jacobs e Warren Casey, o clássico que tanta gente marcou quando estreou no final da década de setenta. Apareceu para criar ícones no Cinema e para deixar o público a cantarolar, numa experiência leve, alegre e colorida. A verdade é que, nos dias de hoje, Grease (ou Brilhantina cá em Portugal, mas sejamos sinceros: quem é que trata este filme pelo seu nome traduzido?) continua a ter muita fama. As novas gerações conhecem as músicas, mesmos sem terem visto o filme, até porque os temas “Summer Nights” e “You’re the One That I Want” ainda continuam a tocar com uma certa frequência, especialmente na rádio. Acredito, porém, que essas novas gerações conhecem Grease pela sua imagem, mas muitos nunca o viram. Grease é, por si só, uma marca, um estilo, não apenas um filme. Mas, atualmente, seria impossível fazer um filme destes sem receber críticas negativas, pois a história que apresenta nem sempre é a mais correta, podendo ser mal vista aos olhos de hoje – não lhe tirando, claro, o mérito.


Grease é composto por dois pontos de vista diferentes, que a determinado momento se unem. Se por um lado seguimos a doce e ingénua Sandy (interpretada por Olivia Newton-John), depois temos também Danny, o rapaz popular que é constantemente influenciado pelo grupo de amigos. Estes dois conhecem-se na praia e apaixonam-se. Temos o típico amor de Verão, que acaba pouco depois… Só que ambos andam na mesma escola e não tardam a reencontrar-se, tentando novamente dar asas à paixão. 

Antes de mais, tenho de dar destaque à sequência de créditos iniciais, ao som de “Grease” de Frankie Valli, com uma animação que apresenta as personagens em modo de caricatura, servindo de introdução às personalidades e estilos de vida de cada um. Por exemplo, começamos logo com Danny a encher o cabelo de gel (que até forma o título) e a pentear-se, o que vai ser muito frequente ao longo do filme. Também aqui temos uma ideia do estilo visual e sonoro, sempre com muito rock-n-roll e referências cinematográficas à mistura, nem que seja simplesmente através de posters nas paredes, na decoração dos cenários. 


Aqui vive-se muito o presente, no qual as personagens parecem agir instantaneamente e sem pensar em grandes consequências. Há uma grande dinâmica, especialmente porque ninguém quer ser gozado pelo grupo em que se insere. Veja-se quando Sandy e Danny se reencontram e este faz de conta que não está interessado nela, ainda que visivelmente mentindo, apenas para não ser alvo de chacota pelo grupo, simplesmente porque aos olhos dos amigos ela é uma “betinha”. As personagens parecem não medir o peso das suas ações, especialmente os rapazes T-Birds e a antagonista Rizzo (interpretada por Stockard Channing) – que, a meu ver, rouba todas as atenções quando entra em cena. Existe sempre um tom de rebeldia a vir ao de cima, que combina na perfeição com os ritmos dos anos cinquenta que são transmitidos. 

Quando anteriormente referi que este filme dificilmente seria bem recebido se apenas fosse lançado hoje (o que felizmente não acontece, claro) queria dizer que a história nem sempre é muito coerente, pelo menos num sentido correto. Isto porque Grease é um romance, mas, se analisarmos bem os namoros existentes, vemos que de romance tem pouco… Sandy é extremamente ingénua, mas está apaixonada. Por sua vez, Danny também está apaixonado, mas tem uma personalidade diferente, é facilmente influenciado e tem atitudes menos corretas, a começar logo pelo momento em que reencontra a rapariga. No entanto, é até antes dos créditos iniciais que vemos uma Sandy a virar-lhe a cara num beijo e este a insistir com ela, apenas para mais tarde termos uma sequência quase de assédio, em que este salta para cima dela no Drive-In. (In)felizmente, estas cenas têm um grande impacto em Sandy. Vemos a personagem a mudar o seu estilo por completo. Por um lado, sentimos que se está a soltar e a ganhar maior confiança em si mesma, mas é inevitável pensarmos que também só o faz para agradar a Danny, para ser o estilo de rapariga que o deixa com chills, mesmo não se sentindo confortável. Claro está que é também a mudança de Sandy que leva a um dos momentos mais icónicos deste musical, que é a atuação de “You’re the One That I Want”, em que vemos Danny completamente rendido a ela, quase como se ela fosse soberana e tivesse um total controlo dele. Mesmo assim, há aqui uma sensação agridoce, porque enquanto espectadores acabamos por não conseguir entender o que Sandy está a sentir.


Não me interpretem mal, porque eu adoro este Grease, mas às vezes sinto que está demasiado contextualizado, vivendo da sua fama e não totalmente daquilo que é. É o tipíco filme das décadas de setenta e oitenta, em que as personagens se tornavam reais para quem os via, um modelo a seguir, capazes de influenciar estilos (especialmente de roupa). Assim como Footloose - A Música Está do Teu Lado (1984), por exemplo, que também seguiu esta onda, ainda que alguns anos mais tarde. Aliás, ambos têm muitas semelhanças, ainda que temas diferentes (sem esquecer as corridas, seja de carro ou de trator). Não deixam de ser filmes alegres, dinâmicos, divertidos de se ver e, claro, com grandes bandas sonoras. Mas é preciso que não os vejamos com maus olhos!
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

1 comentário:

  1. Estou mesmo velho.
    Vi no Cinema Tivoli que já não existe há um ror de anos.

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