quinta-feira, 27 de agosto de 2020

"O Fim do Mundo" em análise

O realizador de Até Ver a Luz (2013), Basil da Cunha, está de regresso com uma viagem aos bairros de lata nos arredores de Lisboa. No seu novo filme, O Fim do Mundo, que vai ser apresentado em antestreia na Competição Nacional do IndieLisboa’20 (festival que arrancou esta semana), acompanhamos Spira, um jovem que regressa ao seu bairro na Reboleira, depois de ter passado oito anos numa casa de correção. No entanto, Spira encontra o seu bairro diferente do modo como o tinha deixado: muitas das casas estão prestes a ser destruídas e a sua geração parece não conseguir encontrar um futuro fora dali. 


Antes de mais, o argumento apresenta-nos um dos muitos bairros da Reboleira e as pessoas que nele habitam. Temos um retrato genuíno da vida de quem lá mora, em casas frágeis, algumas até com ordem para destruição por parte da Câmara. Mesmo assim, os moradores não querem sair dali. Ou se querem, não conseguem, por falta de oportunidades. Vivem uma vida que muitas vezes só lucra através da venda de drogas, passando muitas vezes os dias nos cafés a beber, também sem grandes esforços para conseguir arranjar empregos, como acontece com Kikas, rival de Spira que não o recebe bem quando este regressa. Não temos aqui brilhantes nem fantasias, mas sim uma mostra do que poderíamos encontrar se, por acaso, passássemos por algum destes bairros. No entanto, o argumento realça também os confrontos existentes no próprio bairro e não apenas com o exterior. E se nos minutos iniciais podíamos ter esperanças de que esta ia ser uma história de conforto, com um jovem a regressar a casa, com a lição bem aprendida, a realidade que temos aqui é dura, levando a vinganças constantes, devido à incapacidade de viver em união e em paz.

Aqui os atores misturam-se com os moradores, acentuando a paixão do realizador por aquele lugar e a sua intenção de fazer uma longa-metragem verdadeira, com as gentes que lá moram. Talvez por isso, também nós, enquanto espectadores, sentimo-nos facilmente a passar por um daqueles locais, tal é a envolvência do filme. Mas isso não faz com que simpatizemos com as personagens apresentadas, mas entendemos algumas das suas atitudes, especialmente quando estes lutam para manter as suas posses (seja a impedir a demolição de uma casa ou na busca por uma sanita e uma torradeira debaixo dos destroços daquilo que anteriormente foi uma casa). Trata-se de uma questão de orgulho, mas também de humanidade e enquanto espectadores sentimos uma certa raiva ao ver pessoas serem privadas de manter os seus bens essenciais. Na verdade, esta é também uma visão triste e um tanto pessimista das coisas, pois não há rastos de esperança em lado nenhum, apenas uma vontade de libertar todo o ódio, sem muitas vezes pensar nas consequências. 

No que toca às personagens, a balança equilibra-se entro sexos, com os homens sempre fervorosos e as mulheres a manterem-se mais coerentes no que toca a ações. Spira e a madrasta são quem melhor representa isso, com ela sempre a tentar confortá-lo e a tentar mostrar que este devia tentar melhorar a sua vida e deixar de ir por maus caminhos; o mesmo acontece com o seu rival Kikas e a namorada, que também tenta convencê-lo a deixar de beber, ato que o deixa constantemente bêbedo, levando a consequências graves. É quase como se aqui o diabinho no ombro vencesse sempre.


O Fim do Mundo vive muito à base do momento, assim como uma paixão. As personagens estão sempre a arder e prontas para espalhar as chamas, nunca pensando no caos que poderão deixar para trás. É o resultado do amor de Basil da Cunha por bairros como este aqui representado e a sua vontade de os dar a conhecer, para que os espectadores pensem na realidade destes quase não-lugares que não estão muito longe dos grandes centros urbanos, neste caso a capital lisboeta. Dito isto, é um filme que se torna provocador, no sentido de não querer apresentar-se com efeitos, mas sim de ter a intenção de abrir os olhos a quem o vê e, quiçá, levar a uma transformação no modo como olhamos para os bairros de lata e para quem neles mora.

6/10

O Fim do Mundo tem sessões marcadas no IndieLisboa’20 nos dias 29 de Agosto (18:30h) e 2 de Setembro (18:45h). Para mais informações, podem clicar aqui. Fora do festival, chega a algumas salas de cinema nacionais em Setembro.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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