terça-feira, 11 de agosto de 2020

"O Jardim Secreto" em análise

Há várias histórias que sentimos que já tiveram demasiadas adaptações cinematográficas e que parecem estar constantemente a ser retomadas, para criar ainda mais adaptações, que nem sempre acrescentam algo de novo ao que já tinha sido apresentado. É o caso do conto intemporal O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett, que já passou pelo grande e pequeno ecrã (na adaptação televisiva, em 1987, contou com Colin Firth no elenco, que volta novamente agora em 2020) e que regressa, mais uma vez, com uma nova adaptação, realizada por Marc Munden e do produtor de Harry Potter e Paddington, David Heyman. 


A trama segue a jovem Mary Lennox (interpretada pela estreante Dixie Egerickx), que depois de ficar órfã é enviada da Índia para a mansão do seu tio em Inglaterra. Sozinha naquele novo lugar, e intrigada pelos segredos da sua família, Mary começa a explorar e descobre que tem um primo, Colin, incapaz de andar e que vive fechado no seu quarto (mais precisamente, deitado na sua cama). Para além disso, decide descobrir também as redondezas da casa, encontrando um rapaz solitário, Dickon, e um cão rafeiro, que a conduz a um jardim secreto e mágico. Mary e Dickon encontram no jardim um refúgio e não tardam a querer apresentá-lo a Colin, para que este possa, finalmente, começar a viver. O que não sabem é que aquele jardim tem o poder de mudar as vidas de todos os que moram ali naquela mansão. 

Para começar, é importante, desde já, realçar que este não é um filme para crianças, ao contrário daquilo que a sensação juvenil e primaveril mostra logo a uma primeira vista, dando quase a entender que seria indicado para uma faixa etária mais nova. Na verdade, este é um conto onde acontecem várias tragédias, ainda que não explícitas visualmente, e no qual temos os protagonistas a viver autênticos dramas familiares, tendo de lidar de perto com a morte, rejeição e adaptação a um novo lugar, onde não se conhece ninguém. Acabamos por ter aqui pouco de “infantil”, para além da inocência dos protagonistas, que, claro está, são crianças e reagem como tal, motivo pelo qual também os adultos vão sentir que estão a ver um filme que não foi para eles direcionado.


A ideia de viver agarrado ao passado é aqui apresentada com uma grande força, com algumas das personagens a não serem capazes de ultrapassar ou de compreender acontecimentos que lhes aconteceram e que tiveram grande impacto nas suas vidas. É o caso de Archibald Craven (o tio de Mary), interpretado por Colin Firth, que vive nas sombras da morte da sua mulher (irmã gémea da mãe de Mary), afastando-se de todos, inclusive do filho, que, por sua vez, também não superou a morte da mãe. No caso da criança, a norma de viver agarrado ao passado aparece até simbolizada pela cama, que este não abandona, sendo que só começa a viver o presente quando pisa os relvados do jardim pela primeira vez e começa a interagir com a prima, que o compreende por ter vivido uma situação idêntica. 

Notavelmente, temos um excesso de melodrama nesta história, com tantas mortes e um lado trágico sempre a querer aparecer. Alguns acontecimentos parecem ter apenas o objetivo de despertar o lado emocional do espectador, parecendo em demasia, como é o caso do grande incêndio na mansão. A determinado momento, a tragédia começa a pesar mais do que a felicidade na balança, pois os dramas da família surgem tão abruptamente que nem dão tempo para apreciar a magia do jardim secreto, que é o local onde as personagens conseguem ser felizes – mesmo nos momentos em que não há tragédias, pouco vemos do jardim, pois a jovem Mary está constantemente a ser chamada para a mansão cada vez que lá chega. 


A banda sonora, infelizmente, nem sempre consegue acompanhar o que está a acontecer, parecendo demasiado alegre e fantasista mesmo nos momentos mais tristes. No entanto, a sua melodia com violinos e flautas consegue entregar o tom de magia que era prometido com o jardim, servindo de complemento nos momentos em que as personagens se encontram no exterior, já que o jardim por si só tem muito pouca magia, com efeitos visuais simples que não conseguem representar bem a ideia que se pretendia e que as personagens por várias vezes descrevem. 

O elenco traz dois grandes nomes do Cinema (Colin Firth e Julie Walters), mas estes têm muito pouco tempo de antena, sendo apenas personagens secundárias. No caso de Colin Firth (representado no cartaz), quase só o vemos nos minutos finais. Assim sendo, quem brilha são os atores jovens do elenco – Dixie Egerickx, Amir Wilson e Edan Hayhurst –, que, não sendo caras conhecidas pelo grande publico, conseguem entregar performances interessantes, desempenhando bem os seus papéis.


Este foi um filme que demorou dois anos a sair da gaveta (sim, pois está terminado há dois anos), mas que não tem muito para oferecer, sendo apenas mais uma adaptação deste conto e dificilmente uma das melhores. Apesar de ter um elenco jovem com a capacidade de carregar o filme às costas, perde muito pelo facto de ser apenas só mais uma adaptação, não acrescentando nada de novo. De qualquer modo, será uma longa-metragem que podem ver nos cinemas a partir desta quinta-feira, dia 13 de Agosto. E se as imagens divulgadas despertarem o vosso interesse, não posso deixar de o recomendar, mas com a nota de que tem pouco para surpreender.

5/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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