quarta-feira, 19 de agosto de 2020

"O Rei de Staten Island" em análise

Sei que digo isto com alguma frequência, mas gosto quando tenho baixas (ou nenhumas) expectativas por um filme e acabo por ficar surpreendida. Desta vez, aconteceu-me isso com O Rei de Staten Island, realizado por Judd Apatow (realizador de, por exemplo, Virgem aos 40 Anos Um Azar do Caraças), cuja sinopse à partida não me tinha despertado muito interesse, mas com uma realização inteligente e prestações genuínas conseguiu manter-me agarrada durante as suas duas horas de duração. 


A trama apresenta-nos Scott (interpretado por Pete Davidson), um jovem de vinte e quatro anos que sonha ser tatuador, mas que pouco faz para o conseguir, sendo uma espécie de parasita, sem trabalho e com uma má vida, com vícios ilegais. O pai de Scott, bombeiro, morreu num incêndio e isso parece ter sido o ponto de viragem na vida de Scott, tendo, a partir desse momento, começado uma fase complicada, de trauma, que, sozinho, não consegue superar. Scott tem amigos que também têm maus vícios e ideias erradas de como sobreviver na sociedade. A única pessoa bem encaminha é a sua irmã (interpretada pela filha do realizador, Maude Apatow), que está nesse ano a começar os seus estudos na faculdade. Com a sua mudança de casa, Scott passa a viver apenas com a mãe, descarregando muitas vezes os seus problemas nesta e também em Ray, o novo namorado da mãe, que é bombeiro. 

Parece-me interessante, desde já, referir que este filme surge em homenagem ao pai de Pete Davidson, que era bombeiro e morreu num acidente durante a tragédia do 11 de Setembro. Davidson escreveu o argumento juntamente com Apatow e Dave Sirus e sente-se que temos ali um pouco da sua vida, ainda que com nomes diferentes, estando longe de ser biográfico. Inevitavelmente, parece que Pete Davidson é apenas ele, numa prestação que é real, não parecendo encenada, talvez pela proximidade do argumento às suas vivências. Ao longo do filme tudo vai soando natural, o que contribui para que o espectador sinta uma maior ligação com o protagonista e todos aqueles que o rodeiam. 


A tragédia presente no argumento está constantemente a ser referida, mas não é por isso que deixamos de ter momentos de alívio cómico. Sentimos que algumas personagens – nomeadamente os amigos e o interesse “amoroso” de Scott e também os dois filhos de Ray – estão presentes para pender a balança para o lado mais divertido, já que de resto temos uma grande tensão emocional a tomar conta do protagonista e a conduzi-lo para maus caminhos sem fim. Ainda assim, acredito que o filme vá desapontar muita gente, por não ser tão cómico como outros que Judd Apatow e também o próprio Pete já apresentaram. 

Com prestações competentes e um equilíbrio entre drama e comédia, o filme acaba por se revelar uma agradável surpresa. Infelizmente, é preciso mencionar um aspeto menos positivo: o argumento apresenta algumas falhas a nível de coerência. São pequenas falhas, mas se houvesse uma maior coerência podiam resultar numa mudança completa no rumo da trama. Percebe-se que existem algumas pontas soltas em vários momentos, que se fossem atadas poderiam provocar o protagonista. Infelizmente, também há um excesso de informação. Ou seja, muitas sequências são desnecessárias e apenas levam a um tempo de duração que se torna excessivo. Duas horas e quinze minutos é demasiado para apresentar esta história.


Por fim, destaco a banda sonora, com algumas músicas escolhidas a dedo por Pete Davidson. É o caso da última: “Puirsuit of Happiness” de Kid Cudi, que Davidson diz ter-lhe salvo a vida durante uma fase de depressão e de tentativas de suicídio. Nota-se que há muitas escolhas mais pessoais, mas estas conseguem acompanhar o ritmo da narrativa e entregar um resultado refrescante. 

O Rei de Staten Island é um filme que vemos sem expectativas, mas que traz elementos com os quais acabamos por ter alguma empatia, nomeadamente um protagonista diferente, com um humor negro, mas pelo qual, de um certo modo, torcemos para que a vida lhe corra bem, pois tem um certo carisma e entendemos os motivos pelos quais está numa má fase. Pete Davidson quase carrega o filme às costas, mas transmite uma sensação nova, num filme que também é “novo” na carreira de Apatow, que costuma arriscar-se mais noutros géneros. Apesar de algumas falhas, vale muito a pena ver.

7/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

1 comentário:

  1. Excelente crítica, Joana, com muito trabalho de pesquisa. Muitos parabéns. Na generalidade concordo com o que escreveste. Achei o filme enfadonhamente longo para contar uma história banal (o argumento ou a falta dele é uma de muitas falhas) com muitas cenas completamente desnecessárias. Não sabia que o pai do Pete era bombeiro e que a história é mais ou menos verídica. Estava à espera de mais comédia e menos drama. Na banda sonora gostei da canção One Headlight dos Wallflowers (a banda de Jacob Dylan). Não sendo uma preciosidade, as cenas cómicas dão para passar o tempo. P.S. Muito obrigado pelo convite.

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