terça-feira, 18 de agosto de 2020

Primeiras impressões de "Lovecraft Country" (Episódio 1 - "Sundown")

Estreou ontem, em exclusivo na HBO Portugal, a aguardada série Lovecraft Country, que conta com Misha Green, Jordan Peele, J. J. Abrams, Bill Carraro, Yann Demange (que realizou o primeiro capítulo), Daniel Sackheim e David Knoller como produtores executivos. A série, composta por dez episódios, segue o veterano e aficionado por pulp-fiction Atticus Freeman (interpretado por Jonathan Majors), que viaja para a sua cidade natal à procura do seu pai desaparecido. Mas não começa esta busca sozinho: conta com a ajuda do seu tio George (Courtney B. Vance) e da sua amiga de infância, Letitia (Jurnee Smollett). O trio parte para “Ardham”, em Massachusetts, local onde acreditam que o vão encontrar, por associação à falecida mãe de Atticus. No entanto, esta será uma viaja turbulenta, com vários perigos à espreita, e nem sempre são monstros – ou, pelo menos, não aqueles que imaginaríamos. 


O tema do racismo surge aqui como ponto fulcral no argumento e este primeiro episódio deixou isso claro, ao apresentar os protagonistas constantemente em situações de alerta. Atticus, negro e veterano de guerra, é, por exemplo, constantemente afastado, criticado e gozado, mesmo depois de ter servido o seu pais, “no qual não é bem recebido”. Mas não só através das palavras a injustiça é apresentada, passando também por ações (com destaque para a sequência na bomba de gasolina, em que um grupo de jovens imita macacos à frente de Atticus e Letitia) e referências reais ao modo como as pessoas viviam. Isto passa pelas sinalizações (por exemplo, no autocarro, com indicações de que os negros deviam ir no fundo, longe dos brancos) e cenários, muitas vezes a imitar fotografias antigas, como é o caso da entrada de um cinema, com a fotografia original de Gordon Parks, ou da fila à frente de um cartaz a dizer “world’s highest standard of living – there’s no way like the american way”. 

Percebe-se que houve muito estudo de informação na construção dos cenários, mas não menos cuidadas foram as referências no argumento, que quer e consegue estabelecer-se na década retratada e no modo de vida que as personagens pretendem apresentar. Aqui posso destacar o “livro” do tio George, com locais seguros para negros e toda a “pesquisa” feita por este, passando pela visita a alguns locais, que nem sempre vão fazer parte desse guia. Na sequência do diner, o racismo acentua-se ainda mais, primeiramente com a reação do empregado e depois com um diálogo deliciosamente bem construído: 

Tic: Uncle George?
George: Hmm? 
Tic: Remind me why the White House is white. 
George: War of 1812. British soldiers put the executive branch to torch, and later, when the slaves rebuilt it, they had to paint the walls white to cover up the burn marks. 

De seguida Tic desvia um azulejo do chão e, de repente, temos Letitia a gritar: Get your ass up! Need to get the fuck outta here now! Pois nesse exato momento já a polícia está a persegui-los, a disparar. Este momento acaba por levar a uma grande sequência de ação, com perseguições de carros, durante a qual sentimos o coração a tremer pelos protagonistas. Infelizmente, o pior ainda está por chegar, numa demonstração de como eram as famosas “sundown towns”, em que os negros eram obrigados a afastar-se antes do pôr-do-sol. Tudo isto leva a momentos de tensão, que conduzem a um desfecho de episódio quase impossível de imaginar, mas que vai ao encontro do nome da série, tendo a presença de algumas das criações de H.P. Lovecraft. 


Inevitavelmente, depois de tanta adrenalina representativa do racismo nos Estados Unidos nos anos cinquenta (e atualmente?), os monstros de Lovecraft surgem quase como um factor de união. O normal seria lutá-los em conjunto. No entanto, novamente temos a fachada da supremacia branca a achar-se com maior direito à sobrevivência, levando novamente a momentos de terror, com os protagonistas a serem duplamente ameaçados, pelas criaturas horrendas sobrenaturais e por aqueles que insistem que estes não merecem viver, apenas pelo tom de pele. 

Esta é uma daquelas séries que nos deixam imediatamente agarrados, também porque tem soberbas prestações por parte do elenco principal, que consegue mostrar todos os sentimentos através do olhar e que entrega uma força especial às relações interpessoais. Jonathan Majors, Jurnee Smollett e Courtney B. Vance tornam-se completamente naquelas personagens, vivem o que elas estão a viver e transportam o espectador para aquela aventura, quase como se as personagens fossem reais. Também as interações que estabelecem com outras personagens – entre as quais a irmã de Letitia, Ruby (interpretada por Wunmi Mosaku), a esposa de George, Hippolyta (Aunjanue Ellis), ou a sua filha Diana (Jada Harris) – tornam tudo muito genuíno, entregando a dose ideal de naturalidade à narrativa. 

Por fim, mas não menos importante, seria impossível não falar da banda sonora, com temas muito populares que aparecem sempre nos momentos adequados, animando o espectador, contribuindo ainda mais para que este se sinta envolvido, até porque reconhecerá as canções e sentirá os seus ritmos. Aqui destaco o momento da chegada de Letitia, no qual esta canta e encanta ao lado da irmã, ao som de “Whole Lotta Shakin Going On” de Jerry Lee Lewis. 


Este episódio piloto elevou a fasquia o máximo possível, levando o público para outros tempos, para a América dos anos cinquenta, mas com a mistura do imaginário de Lovecraft, sempre a levantar prontamente a questão: quem são os monstros aqui? Foi um episódio com muita dinâmica e capaz de surpreender através do inesperado. Nunca sabemos o que esperar, se os protagonistas vão ficar em segurança ou se há mais perigos à espreita. Há um equilíbrio inteligente entre momentos de ação e de atenção mais próxima às personagens, sendo que é aqui que os atores têm ainda uma maior capacidade de brilhar, através das emoções e do olhar. Não posso dizer que foi uma surpresa, porque já estava a contar que tivéssemos uma estreia assim tão boa. Resta saber se a série conseguirá sempre manter este ritmo.

O segundo episódio de Lovecraft Country chega à HBO Portugal na próxima segunda-feira, dia 23 de Agosto.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

2 comentários:

  1. Não estava a par, mas fiquei muito curiosa!

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  2. Excelente crítica. Série de época, bem construída a nível de cenários, representação, música, etc. O primeiro episódio colocou, de facto, a fasquia muito alta. Vamos ver se a mantém.

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