sexta-feira, 25 de setembro de 2020

"A Vida Extraordinária de David Copperfield" em análise

O filme sobre o qual hoje escrevo já chegou aos cinemas há algum tempo (no dia 17) e, para dizer a verdade, também foi nessa altura que o vi. Refiro-me a A Vida Extraordinária de David Copperfield e, atenção, isto não é sobre o famoso ilusionista (como já ouvi algumas pessoas dizer), mas é sim baseado na famosa obra de Charles Dickens, que se julga ser autobiográfica, aparecendo este representado pela personagem David Copperfield. 


Realizado por Armando Iannucci, A Vida Extraordinária de David Copperfield segue a vida e as aventuras de David Copperfield, interpretado por Dev Patel, com muitos momentos inesperados, oportunidades e, acima de tudo, muita cor. Aqui até as personagens secundárias acabam por influenciar o protagonista, sendo retomadas várias vezes, dando um novo significado a todos aqueles que de outro modo estariam apenas de passagem. Com um elenco como o que este filme tem também não seria para menos, até porque a Dev Patel, ator que por si só já tem bastante impacto por já ter entrado em várias longas-metragens reconhecidas – como é o caso de Quem Quer Ser Bilionário? (2008) – e até ter sido nomeado a um Óscar pela sua prestação em Lion - A Longa Estrada para Casa (2016), juntam-se também a camaleónica Tilda Swinton, Hugh Laurie e Peter Capaldi. 

A determinado momento percebemos que o casting tem o objetivo de personificar atitudes. Veja-se o caso de Gwendoline Christie e Darren Boyd, com as suas aparências distintas, que interpretam os “vilões”, os irmãos Murdstone. Cada vez que entram em cena é como se as suas figuras altivas, e ainda por cima vestidos de negro, cortassem o ambiente e impusessem imediatamente o respeito. Estas são duas das personagens que passam pela vida de David Copperfield, mas que lhe deixam um impacto negativo por quererem educá-lo de uma maneira demasiado rígida a que não estava habituado. Num lado oposto, destaco que as personagens que lhe trazem alegria e contribuem para o seu sucesso (seja de que modo for) vestem sempre roupas coloridas, muitas vezes compostas por trapos, como acontece com os Micawber. Os figurinos tornam-se, assim, numa maneira de definir o bem e o mal, e revelam também a importância da visualidade e das aparências neste filme. 


Esta é uma longa-metragem que no geral se vê com grande diversão, com muitas transições cómicas e cenários que nos deixam com um sorriso. Infelizmente, para mim, um dos problemas que encontrei relaciona-se com argumento, mais precisamente com a personagem Steerforth, interpretado por Aneurin Barnard (ator de Dunkirk). Apesar de este se tornar o melhor amigo de David Copperfield e estabelecerem desde cedo uma certa cumplicidade, que leva o protagonista a conhecer novos sítios e novas pessoas, sente-se que a determinada altura os focos se viram demasiado para Steerforth e para o seu suposto “interesse amoroso”, esquecendo um pouco o rumo da narrativa e levando, consequentemente, a minutos extra de filme, que o tornam extremamente longo, desnecessariamente. Ou seja, durante o segundo ato dei por mim a sentir um certo aborrecimento, porque não desenvolvi um mínimo de interesse por esta personagem, que me pareceu apenas sempre fora de contexto. 

Por fim, gostava de destacar a criatividade da edição, com sequências com projeções que nos mostram o que se está a passar com as personagens que não estão em cena, e também com outros momentos que quase parecem teatrais, o que leva o público a sentir uma maior proximidade com o que está a ver. 


Apesar de ser um filme com um argumento leve, com excelentes prestações (o que seria de esperar de um elenco tão bom e diverso) e com um resultado final original, admito que acho que daqui a uns meses já não me lembrarei deste A Vida Extraordinária de David Copperfield. Infelizmente, como disse no parágrafo anterior, senti-me aborrecida em muitas sequências, o que talvez mostre um certo desequilíbrio no argumento, talvez por querer que todos os atores presentes brilhem, acabando por esquecer que há um protagonista. Ainda assim, acredito que muitas pessoas vão desfrutá-lo. 

6/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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