terça-feira, 15 de setembro de 2020

"Antebellum - A Escolhida" em análise

Um dos muitos filmes que sofreram com a pandemia foi Antebellum - A Escolhida, que acabou por ter a sua data de lançamento adiada, acabando por, sem saber, provavelmente chegar numa altura em que fará ainda mais sentido. Seguindo as pisadas do terror de Jordan Peele (realizador de Get Out e Nós), este pega no tema do racismo e expõe-no sem dó nem piedade, recuperando os tempos de escravatura e os ideais de supremacismo branco. Realizado por Gerard Bush e Christopher Renz, e com data de lançamento marcada para 24 de Setembro nos cinemas nacionais, teve no passado sábado a sua grande estreia no MOTELX, para um público que se encontrou entre as primeiras pessoas a vê-lo. 


Sem querer revelar muito, vou limitar-me a referir o que nos foi apresentado no trailer. Aqui somos apresentados a Éden, uma mulher negra que juntamente com muitos outros escravos trabalha numa plantação conduzida por um grupo de brancos. Ao mesmo tempo, temos Verónica, uma mulher na atualidade, escritora bastante conhecida pelas suas palestras de empoderamento. O que têm ambas em comum? São a mesma pessoa. 

Bem sei que esta descrição deixará dúvidas, como aliás a sinopse e o trailer deixaram, ao ponto de o filme estar fortemente a ser criticado porque as pessoas se sentiram enganadas ao vê-lo. Através das apresentações, diria-se que estamos a lidar com uma situação de tempos paralelos ou até mesmo algo mais sobrenatural como ser assombrado por um antepassado. Esqueça-se tudo isso, pois este é muito atual e não há aqui fantasmas nenhuns a assombrar a nossa protagonista, a não ser algo ainda mais assustador: o racismo de que é alvo constantemente. 


O que aconselho é mesmo esquecer sequer que existe um trailer que até tem glitches que não fazem parte do filme e que claramente só foi lançado para chamar a atenção dos fãs de cinema de terror. Este filme é um drama apenas, não mete medo, a não ser psicologicamente. E a partir do momento em que entramos no seu jogo, é impossível não nos sentirmos curiosos com o seu desfecho, que é um plot twist guardado a sete chaves. 

Antes de mais, quero dizer que este filme traz uma das melhores sequências de abertura que eu já vi no Cinema. Com um plano-sequência ficamos a conhecer todo o local da plantação e as práticas de tortura que as pessoas que lá estão sofrem, simplesmente por quererem resistir. Tudo isto é acompanhado por uma banda sonora brilhantemente arrepiante composta por Nate Wonder e Roman GianArthur Irvin. E aqui acredito que mesmo alguém que não goste do filme será incapaz de negar a grandeza da banda sonora, com os seus violinos arranhados que às vezes até parecem dizer-nos “shhh”. Também no final, assim como acontece no início, voltamos a ter um grande plano-sequência em que, novamente, a união entre o visual e o sonoro têm a capacidade de emocionar o espectador. 


A narrativa do filme não é linear e, infelizmente, a meio senti que estava a começar a afastar-se do seu foco. Entendo que determinadas sequências, nomeadamente com as amigas da protagonista, existem como alívio cómico, mas também para mostrar como o racismo ainda existe na atualidade (por exemplo, quando a protagonista se queixa que o seu quarto não foi limpo e a sua amiga caucasiana diz prontamente que o seu tem estado sempre impecável). Infelizmente senti que algumas cenas demoravam demasiado tempo, como a do restaurante, quebrando o ritmo da narrativa, apenas para depois regressarmos ao “início”. 

Janelle Monaé entrega uma performance cheia de força e memorável, ao interpretar uma personagem que está constantemente a ser posta à prova e que tem de se “adaptar” rapidamente a diferentes realidades muito distintas. Acredito que a sua carreira vai ficar marcada por muitas cenas icónicas neste filme, com destaque para o momento em que esta decide vingar-se com fogo e para toda a sequência final em câmara lenta. 


Antebellum - A Escolhida pode não ser exatamente o que prometia, mas o seu resultado é um filme que nos deixa entusiasmados, chocados e apreensivos, ansiosos por descobrir os motivos de tudo o que está a acontecer. Consegue expor o tema do racismo na atualidade e deixar o alerta de que algumas pessoas, se tivessem a oportunidade, voltariam aos tempos da escravatura, ressalvando que há muitos loucos por aí. É um tanto cru no modo como apresenta tudo isto, concretizando o seu objetivo de apelar para este problema que ainda é tão atual.

8/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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