quinta-feira, 10 de setembro de 2020

"Historia de lo Oculto" em análise

Se a política por si só já é perigosa, imagine-se quando esta surge associada a práticas de bruxaria. Esta é a premissa de Historia de lo Oculto, filme argentino realizado por Cristian Jesús Ponce, que até muito recentemente estava em pós-produção para depois merecer uma estreia na passada terça-feira no MOTELX - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. 


Cristian Ponce, que também escreveu o argumento, apresenta-nos um famoso programa chamado “60 Minutos para Medianoche”, que está prestes a acabar, por ser considerado uma farsa e ter perdido todos os seus apoios. Para última emissão, numa tentativa de conseguir o sucesso novamente, surge um caso no mínimo suspeito: Adrián Marcato, dono de uma das empresas mais importantes do país, é associado a rituais satânicos e suspeito de ter ensinado bruxaria ao presidente do governo. O programa, que avança esta informação em primeiro mão, procura apenas uma confirmação, mas para isso restam apenas sessenta minutos. 

O seu formato em 4:3 e o facto de ser filmado a preto e branco fazem com que quase atravesse a margem para o film noir, ainda que aqui isso sirva apenas como escolha estética. Sente-se uma certa ousadia logo por aí, pois o filme visualmente é muito interessante e diferente no seu estilo, mas em alguns momentos pode tornar-se mais confuso, nomeadamente quando há sequências que deixam de seguir essa escolha principal, tornando-se quase abstratas – o que é a intenção, mas, ainda assim, pode não ser bem recebido. 


A banda sonora restringe-se à sonoridade de anúncios e da abertura do programa “60 Minutos para Medianoche”, que consegue definir o ritmo da narrativa e surge em sintonia com alguns movimentos provocados pelos atores, nomeadamente portas a bater e objetos a cair. Há uma certa adrenalina cada vez que se ouve essa abertura, pois é de seguida que temos os diretos da entrevista a Adrián Marcato, a única personagem com a capacidade de atirar dados e mudar o rumo do jogo. 

Infelizmente, senti que a entrevista em si merecia mais tempo de antena. Talvez porque achei que os momentos do backstage se prolongavam demasiado, tirando todas as atenções à entrevista, que, a meu ver, é o mais interessante no filme, com afirmações que têm o poder de influenciar tudo o resto. Ainda assim, ressoa-se o medo e a incerteza de toda uma equipa que está dependente de algo que foge ao seu controlo. 


No elenco, destaco Germán Baudino, que interpreta nada menos que o próprio Marcato, que com grande serenidade consegue instaurar o pânico, e Nadia Lozano, que interpreta María, a produtora do programa, que tem um sentido de liderança perante a sua equipa e é quem está mais convicta de todas as pistas do caso, tendo estudado até ao mais ínfimo pormenor toda a questão da envolvência do governador em práticas de bruxaria. 

Admito que no final de Historia de lo Oculto senti-me frustrada, quase questionando o tempo que “perdi” a ver aquele filme. No entanto, esse é o objetivo: deixar o espectador inquieto e plenamente irritado, colocando-se assim quase no lugar de um dos membros da equipa por detrás daquele programa, estando sempre à espera de algo mais, de uma única afirmação que consiga mudar tudo. E se num primeiro momento a frustração ganhou, depois foi o sentido que me mostrou que este é um filme diferente e que está bem realizado para marcar essa diferença.

6/10

Historia de lo Oculto vai voltar a ser exibido no MOTELX no próximo sábado às 14:00h.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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