domingo, 13 de setembro de 2020

"La Llorona" em análise

No ano passado foi lançado pela Warner Bros. o filme de terror A Maldição da Mulher que Chora que foi um fracasso, assim como muitos outros que já abordaram esta lenda. Todos tendem a tornar a Llorona num simples efeito de assustar e muito poucas vezes a vimos como um ser humano com uma história infeliz, que é o verdadeiro motivo pelo qual esta assombra as suas vítimas. Quando vi na programação do MOTELX este novo filme chamado La Llorona, realizado por Jayro Bustamante, novamente fiquei com interesse por me parecer que ia ter uma abordagem diferente desta figura mítica dos contos da América Latina. 


Jayro Bustamante e Lisandro Sanchez pegam na figura da Llorona e recontam a sua história, no entanto este é um filme onde temos uma maior presença de forças políticas do que propriamente do terror que poderia advir desta personagem. Só por aí, sentimos que temos algo diferente, até porque a Llorona não está presente apenas para assustar, mas sim para servir de fio condutor a uma história muito mais complexa. Na verdade, esta apenas marca presença a meio do filme, como um modo simbólico. 

O argumento apresenta-nos à família do General Enrique Monteverde, acusado de genocídio na Guatemala e absolvido em julgamento, o que leva à revolta do povo, que se reúne durante dias ao redor da sua casa, evitando que tanto este como a sua mulher, filha e neta possam sair, sentindo-se constantemente ameaçados. É, então, neste ambiente que é introduzida a Llorona, numa representação dos nativos que Monteverde terá morto. O facto de este sofrer de alzheimer faz com que o choro que ouve constantemente durante a noite não seja compreendido pela sua família, que julga que o que conta é apenas uma consequência da doença – pelo menos até ao momento em que têm de enfrentar todas as assombrações presentes. 

La Llorona traz-nos uma abordagem mais tradicional, no sentido em que mostra as origens da personagem, a perda dos seus dois filhos e o motivo pelo qual esta se quer vingar daquela pessoa em concreto. A Llorona começa por ser apenas uma nova criada na casa de Monteverde, mas a estranheza com que reage a tudo o que acontece faz com que rapidamente entendamos que não está ali com bons objetivos. É também de notar o facto de esta parecer não fazer parte daquele tempo, o que se realça no modo como a neta de Monteverde reage à sua aparência, com um longo cabelo, toda vestida de branco e uma cara extremamente trancada. 


O ritmo do filme é muito lento, mas ainda assim há momentos de grande adrenalina, nomeadamente quando assistimos às manifestações de perto. Por exemplo, quando Monteverde está a chegar ao tribunal, tememos pela vida não dele mas sim da mulher e filha, que apenas o acompanham, mesmo estando cientes dos crimes por ele cometidos – existem alguns momentos em que se nota uma certa incerteza neste assunto, mas no final fica tudo explícito. Nesta sequência em concreto, temos um grande foco em todos os rostos, fazendo com que não se tornem apenas numa passagem, mas que adquiram verdadeiros significados. Ainda neste sentido, também os momentos junto a janelas, depois de um pequeno jumpscare inicial (que não era esperado pelo facto de o filme se distanciar um pouco do género de terror – a mim pareceu-me mais um thriller dramático), adquirem estes significados ao apresentarem novamente os rostos com destaque, o que no final leva a um plot twist interessante, relacionado com o caso de que Monteverde é acusado. 

Por estes motivos, La Llorona consegue transformar a Mulher que Chora, não usando a sua figura apenas para assustar. Aqui ficamos a conhecer a sua vida, ainda que com recurso aos olhos de outra personagem, e sentimos que esta se torna numa defensora dos inocentes, que ainda continua a ter um lado humano (na amizade com a neta de Monteverde), por muito sinistro que este às vezes possa parecer. Pode não ser um filme memorável, mas consegue fazer um bom trabalho na humanização desta lenda e na sua crítica política.

7/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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