quarta-feira, 16 de setembro de 2020

"Lovecraft Country" - Episódio 5 ("Strange Case") em análise

O novo episódio de Lovecraft Country, intitulado “Strange Case” e realizado por Cheryl Dunye, trouxe algumas respostas a questões que tinha levantado na análise anterior e também uma maior conexão entre acontecimentos, assegurando uma narrativa mais contínua. Neste episódio, porém, o protagonismo mudou-se para uma personagem que até então continuava a servir apenas de apoio, ainda que já tivesse mostrado toda a sua garra: Ruby Baptiste, a irmã de Letitia.


Em “A History Of Violence”, Ruby recebeu uma proposta irrecusável e neste episódio vêmo-la a acordar para um pesadelo, que rapidamente para ela se transforma num sonho: acorda na pele de uma mulher branca e percebe que assim tem muitas novas oportunidades, numa crítica ao modo como na altura o tom de pele era um fator avaliativo, por exemplo, numa contratação para um emprego. Infelizmente, isto é algo que ainda hoje é verídico, o que mostra a atualidade da série e o modo como as mentalidades não mudaram assim tanto. 

É no corpo desta nova mulher, que lhe foi “entregue” através da magia de William – que neste episódio também se revelou muito –, que Ruby assiste a cenas que a levam a revoltar-se, levando a um diálogo excelente em que esta afirma: “I don’t know what is more difficult – being colored being a woman. Most days I’m happy to be both, but the world keeps interrupting. And I am sick of being interrupted”. E a determinado momento, mesmo na sua própria pele, Ruby deixa de ser interrompida, ao vingar-se de uma personagem que está presente apenas para personificar o racismo, numa cena deliciosamente violenta ao som de uma música de Cardi B. 


Como referi na análise do quarto episódio, andava a começar a achar que havia algo de muito estranho entre Christina Braithwhite e William e agora as suspeitas foram confirmadas. Se “Strange Case” foi todo acerca de viver na pele de outra pessoa, foi, claramente, o momento ideial para a confirmação de que William era, de facto, Christina em busca de novas oportunidades, no corpo de um homem, já que estas lhe eram negadas apenas por ser mulher. Agora, claro, fica também a questão da sua orientação sexual e se terá realmente algum interesse amoroso em Ruby, que agora sabe que William era apenas um produto idealizado por outra pessoa. 

O tema da orientação sexual foi, aliás, marcado neste episódio também através de Montrose, que entrou num ambiente de drag queens, do qual saiu sem dúvidas em relação ao amor. No entanto, como referi anteriormente, continua a parecer que algo de muito errado se passa com esta personagem, quase como se estivesse completamente alterado – e uma sequência com Atticus comprova isso. 


Este foi um episódio marcado por sequências de transformações, um tanto viscerais, mas realmente bem concebidas. Vimos Ruby a rebentar pelo corpo de uma mulher branca, deixando restos de peles por todo o lado, numa grande mixórdia de carne e sangue, não aconselhada aos mais sensíveis. Foi um episódio muito visual nesse sentido de nos deixar com alguma repudia. Tendo em conta alguns maus efeitos que já tínhamos visto nesta série, é de glorificar o excelente trabalho feito na concretização destes momentos, para os quais terá sido certamente necessário muito tempo de maquilhagem e caracterização. 

O quinto episódio de Lovecraft Country optou, assim, por nos mostrar melhor a vida de Ruby, uma personagem que até então apenas tinha aparecido por meros minutos. Desta vez, Letitia e Atticus tiveram pouco tempo de antena, mas a performance extraordinária de Wunmi Mosaku não nos fez sentir a sua falta.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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