sábado, 12 de setembro de 2020

"My Heart Can't Beat Unless You Tell It To" em análise

Quando decidi que queria ver My Heart Can't Beat Unless You Tell It To no MOTELX, admito que o que me chamou logo à atenção foi o seu título. Apenas minutos antes da sessão fiquei a saber que era um filme de vampiros, por muito vago que isso possa parecer. Eu não tinha feito o trabalho de casa, não vi o trailer ou li a sinopse, simplesmente ia à sessão pelo título. Por um lado, ia completamente às escuras, sem saber o que esperar. Mas por outro lado, sinto que já apanhei boas surpresas ao ver filmes assim, sem conhecer um mínimo sobre eles. E desta vez foi mais um desses casos. 


My Heart Can't Beat Unless You Tell It To é a primeira longa-metragem realizada por Jonathan Cuartas. E depois de o ter visto percebi que mesmo se tivesse feito alguma pesquisa, pouco ia encontrar, pois ainda nem poster tem. Ora, o argumento, também escrito por Cuartas, apresenta-nos três irmãos: Dwight, Jessie e Thomas, o mais novo, que está doente e para melhorar precisa de beber sangue, o seu único alimento. Os irmãos mais velhos tentam, assim, diariamente ajudar o irmão, através de “caças” a pessoas mais vulneráveis e cuja falta não ia ser notada por ninguém. 

O primeiro destaque vai precisamente para a crítica subtil que o filme faz ao introduzir sem-abrigos e prostitutas neste grupo de pessoas, mostrando que a sociedade não se importa com eles, quase como se fossem parasitas. A maioria destas personagens são apresentadas rapidamente, pois a sua existência na narrativa serve somente para se tornarem num alimento. É esse o seu fim. No entanto, há algumas que marcam presença por mais tempo, como é o caso do sem-abrigo emigrante Eduardo, que simplesmente chegou ali em busca de uma vida melhor, apenas para depois ser enganado e passar a viver nas ruas. O que faz com que estas pessoas sejam um isco tão fácil? É precisamente o facto de estarem sozinhas no mundo. Vejamos: vale a pena matar várias pessoas apenas para salvar uma vida, neste caso a de Thomas? Para os irmãos de Thomas é essa a prioridade, manter o irmão vivo, mesmo que para isso tenham de roubar outras vidas. Isto porque para eles iria ser difícil viver sem o irmão. É tudo uma questão de proximidade. Uma morte só nos afeta quando somos próximos de alguém. 


Quando pensamos em filmes sobre vampiros, há uma tendência em pensarmos nestes ou como algo assustador ou como algo cómico, ou ambos. Filmes de culto como Nosferatu (1922) ou até Drácula de Bram Stoker (1992) instalaram esses sentimentos; outros como a The Twilight Saga (2008 - 2012), independentemente das opiniões que esta gera, também marcaram o conceito de vampiro num significado diferente; o icónico O Que Fazemos nas Sombras (2014) trouxe ainda outra ideia. Mesmo assim, este filme consegue ampliar a palavra “vampiro” a outros cenários ao apresentar Thomas, cujo problema nem é revelado. Achamos que é um vampiro pela sua pele extremamente pálida, sensibilidade à luz e, claro, pelo facto de se alimentar com sangue. Só que este é um vampiro amigável que simplesmente nem suspeita do que os irmãos têm de fazer para o manter vivo. Perdoem-me o que vou dizer, mas Thomas é como uma pessoa que come carne e assiste a um matadouro que a deixa traumatizada, levando ao veganismo. Talvez pelo modo como é apresentado, isolado da sociedade, sempre fechado naquela casa a ser educado pela irmã, mas com uma grande vontade de sair, ainda que ciente das consequências, faz com que sintamos empatia e pena por ele, o que no final é essencial para nos sentirmos emocionados com o seu ato de valentia. 

O filme é filmado num formato 4:3, que, de um certo modo, contribui para espelhar os sentimentos de Thomas. Há uma sensação de claustrofobia, como se o formato de imagem fizesse com que nos sintamos mais fechados, como se estivéssemos encaixados naquele sítio pequeno. Ou seja, entendemos a vontade de sair do pequeno vampiro, pois, como até aprendemos nos últimos meses, é difícil ficarmos impedidos de sair de casa por muito tempo. Pelo contrário, os seus irmãos saem de casa, mas quase com a única finalidade de o sustentar. O irmão Dwight tem mesmo essa única tarefa de encontrar uma presa. Jessie, por sua vez, assume esse papel quando Dwight falha, mostrando também uma personalidade mais forte e resistente à ideia de manter Thomas vivo, independentemente dos sacrifícios necessários para concretizar isso. 


O elenco (Patrick Fugit no papel de Dwight, Ingrid Sophie Schram como Jessie e Owen Campbell como Thomas) consegue entregar prestações memoráveis que nos chegam ao coração, tal é a sua credibilidade. O modo como se relacionam no filme é tão real que é como se fossem realmente irmãos também na vida real e estivessem a viver aquela situação. E é nos momentos de maior agonia e incerteza que estes transmitem uma maior força nas suas representações, capaz de no final deixar o espectador emocionado. 

Se no início desconhecia por completo este My Heart Can't Beat Unless You Tell It To, agora posso dizer que, até ao momento (a dois dias do fim) este foi o meu filme favorito a passar pelo MOTELX este ano. O seu argumento consegue entregar um tom completamente fresco ao tema dos vampiros, ao mostrar um paradigma distinto de tudo o que anteriormente foi mostrado, e apesar de ter um pacing lento nunca perdemos a vontade de acompanhar esta história. Foi uma muito agradável surpresa.

9/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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