terça-feira, 8 de setembro de 2020

"O 3° Andar: Terror na Rua Malasaña" em análise

O MOTELX - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa já se instalou ontem no Cinema São Jorge e para sessão de abertura foi escolhido o espanhol O 3° Andar: Terror na Rua Malasaña (no nome original, simplesmente, Malasaña 32), filme baseado em factos verídicos de paranormal (muito na onda do Poltergeist, The Conjuring e outros do género) e, em poucas palavras, de casas assombradas, realizado por Albert Pintó. 


O argumento apresenta-nos uma família de fazendeiros nos anos setenta, em busca da felicidade na capital do país vizinho, onde há uma maior oferta de empregos do que na aldeia onde anteriormente residiam. Mudam-se para uma casa, depois de muitos esforços financeiros, iludidos, a pensar que é o lar perfeito. No entanto, rapidamente o sonho vira um pesadelo, quando coisas estranhas começam a acontecer, especialmente ao rapaz mais novo da família. 

Nos primeiros minutos temos uma breve introdução da entidade que assombrará a casa e que é descrita como “uma velhinha”. Da sua aparência temos pouca informação, pois esta aparece em relances rápidos, sendo a sua maior referência uma fotografia presa numa das paredes. É assim dado um contexto: temos a casa e a pessoa que a “governa”. Imediatamente dá-se um avanço no tempo, brilhantemente transmitido através do foco num objeto (um telefone, que descobriremos ter mais significados) a ganhar pó em velocidade acelerada, e passados quatro anos desde os acontecimentos de introdução vemos, finalmente, os protagonistas a chegar.


O facto de termos uma introdução tão pouco nítida, faz com que no final recebamos um twist interessante, e, apesar de o filme se situar nos anos setenta, sente-se que a sua história é bastante atual. Recebe-se esse twist com uma agradável surpresa, pois soa inesperado, mas coerente com os acontecimentos mostrados ao longo da narrativa. Na verdade, o argumento, ainda que tenha um toque moderno, é muito coerente. Se a determinado momento podemos pensar que ficarão pontas soltas, no final tudo é atado, não havendo plot holes. Ainda assim, sente-se que a história podia ser mais aprofundada. Uma melhor apresentação dos membros da família iria fazer com que o público se preocupasse mais com cada um deles, o que não acontece. Sente-se, até, que algumas personagens existem apenas para ser um isco e algumas sequências acabam por tornar-se repetitivas por seguirem sempre a mesma fórmula para atingir o objetivo.

O terror do filme é essencialmente apresentado através dos típicos jumpscares e, felizmente, estes resultam sempre, deixando o espectador inquieto e sempre em alerta. Farão, certamente, o delírio daqueles que adoram um bom susto, mas para os que não são assim tão fãs irá, certamente, parecer excessivo. Ainda assim, estes parecem fugir aos clichés, na medida em que surgem de formas muito distintas e criativas. Não sendo um terror psicológico, e não chegando sequer a meter medo (especialmente depois de conhecermos os motivos da entidade sobrenatural), este Malasaña 32 torna-se memorável pela sua capacidade de levar o público a saltar na cadeira, tornando-se ideal para quem gosta de apanhar alguns sustos e não sente vergonha disso. 


Os sustos, claro, também resultam porque houve um excelente trabalho de edição de som. Até nas mudanças de cena é inevitável sentirmos um certo calafrio. Por exemplo, podemos ter uma cena silenciosa e depois na mudança termos o barulho incessante de uma máquina de costurar. A nossa mente não está preparada para uma mudança tão drástica, não é verdade?

O 3° Andar: Terror na Rua Malasaña surpreendeu-me pela positiva por conseguir entregar um argumento razoável com muitos sustos à mistura, conseguindo até criar um ambiente de terror, o que nos últimos tempos tem sido um tanto raro. Longe de ser um dos melhores filmes do género, e até sem entregar nada de novo, não deixou de ser uma excelente abertura para a edição deste ano do festival.

7/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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