sexta-feira, 4 de setembro de 2020

"Radioativo" em análise

Marie Curie já foi referida algumas vezes no grande ecrã, mas em nenhuma se tinha destacado tanto quanto no novo filme Radioativo, totalmente baseado na sua vida, através dos factos explorados no livro Radioactive: Marie & Pierre Curie: A Tale of Love and Fallout de Lauren Redniss. No papel da protagonista temos uma determinada Rosamund Pike, atriz que já é conhecida pelas suas personagens cheias de garra e que aqui volta a marcar presença ao interpretar Curie como uma mulher invulgar, de uma inteligência sem igual e até com alguma arrogância, que passaria despercebida se fosse um homem naquela época, mas que sendo mulher até parece ousadia. Este é um filme sobre ciência, mas acima de tudo sobre ambição e o modo como o amor e o ódio vivem em paralelo. 


O filme é realizado por Marjane Satrapi, a autora do essencial Persépolis, que deixa presente em tudo o que toca uma ideia de empoderamento feminino. Então, claro, nada melhor do que ir buscar a própria Marie Curie, personagem histórica que tanto se destacou no meio dos homens, e enaltecer aqui a sua vida e carreira, sem haver necessidade de muita ficção, mas com alguns efeitos à mistura, que tornam esta experiência cinematográfica interessante visualmente. 

Aqui a história conta-se de frente para trás, começando com Curie na fase final da sua vida, a recordar a sua carreira à medida que avança num corredor em direção “à luz”. Conhecemos a sua vida matrimonial com o cientista Pierre Curie e o modo como juntos desvendaram os segredos da radioatividade. Acompanhamos o desenvolvimento de cada um deles no mundo da ciência, até chegarmos à morte de Pierre e a uma outra fase em que a viúva Curie passa de bestial a besta e vê-se quase obrigada a mudar-se, acabando por ir parar à Primeira Guerra Mundial, onde juntamente com a filha salvou milhares de homens. 


O argumento tenta explorar um pouco de tudo na vida de Curie e consegue aprofundar suficientemente bem o modo como esta foi lidando com as suas descobertas e a sua vontade de progredir, de estudar e de criar, quase até ao fim da sua vida. Um dos pontos negativos que encontrei acaba por ir ao encontro desta ideia de tentar mostrar um pouco de tudo, pois a determinado momento Curie deixa de ser o centro das atenções, passando a ser a própria radioatividade. Isto, claro, faz sentido, eu bem sei que é o nome do filme. No entanto, com uma cronologia pouco linear, acaba-se por, sem querer (ou assim espero), sugerir que Curie está diretamente ligada a acontecimentos menos felizes da história, como o desastre de Chernobyl, ao introduzir acontecimentos do futuro no presente da personagem, tendo esta a passar junto de personagens que marcam esses momentos. A ideia de que a radioatividade pode ser mal-usada por algumas mãos, com fins destrutivos, é transmitida desde cedo através de uma fala de Pierre, no entanto a cronologia devia ter sido mais bem tratada de modo a evitar a culpabilização de Curie por catástrofes que aconteceram anos depois da sua morte. No final do filme há uma quase redenção, com a própria a reconhecer os “erros” da sua descoberta que também não ajuda muito neste sentido. Sente-se que temos mais aspetos negativos a ser referidos do que positivos, havendo aí apenas referências à quimioterapia e radioterapia. 

Visualmente, temos alguns momentos que usam a radioatividade quase como um efeito. Com destaque para sequências de dança, ou o momento a solo de Curie após a morte do marido, em que o jogo de luzes consegue entregar um tom quase sobrenatural ao filme, mas não caindo no exagero. Também através destes efeitos, ganhamos um acesso limitado ao consciente da protagonista e muitas vezes vemos alusões aos seus pensamentos e desejos, que também a tornam mais humana e sensível, desconstruindo um pouco a persona quase indestrutível que apresenta sempre. Por sua vez, também a banda sonora, em alguns momentos até arranhada e arrepiante, consegue transmitir sensações de insegurança e sofrimento, servindo de contraste. É uma maneira de a conhecermos melhor para além do seu físico.


O elenco faz um excelente trabalho, mas inevitavelmente é Rosamund Pike que rouba todas as atenções. O modo como interpreta Curie é louvável, com uma grande capacidade de reconstruir a pessoa através dos poucos factos que se conhecem da sua personalidade. Arrisco-me a dizer que a sua prestação está digna de uma nomeação aos Óscares, mas a ver vamos. É ainda de referir que Rosamund também se transforma visualmente em Marie Curie devido a um excelente trabalho de maquilhagem e figurinos estudados para recriar a data em que o filme toma lugar.

Radioativo pode falhar ao introduzir alguns momentos da vida de Curie e cair no erro de querer apresentar o elemento da radioatividade em excesso, indo para além do espaço temporal em que a protagonista se insere, no entanto tem a capacidade de apresentar uma boa porção da sua vida e da sua carreira, sempre com um grande respeito, mesmo quando esta se torna alvo do ódio de muitos daqueles que a rodeiam. É um filme equilibrado, que vale a pena ver, essencialmente para conhecer melhor a vida de Marie Curie.

7/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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