sábado, 19 de setembro de 2020

"Scream, Queen! My Nightmare on Elm Street" em análise

Depois do sucesso do primeiro Pesadelo em Elm Street, em 1984, uma continuação era inevitável, para esta que atualmente é uma das mais populares franquias de terror. No entanto, assim que estreou, Pesadelo em Elm Street II (ou, no original, A Nightmare on Elm Street Part 2: Freddy's Revenge) foi completamente arrasado não apenas pela crítica, mas, essencialmente, pelos fãs. O que havia de tão errado com este filme? Ao contrário do que acontecia até então, este não era protagonizado por uma rapariga indefesa que tinha de lidar com o vilão. Pelo oposto, o seu protagonista era um rapaz, Jesse, interpretado por Mark Patton. Acontece que a performance de Patton apresentava todos os elementos que as protagonistas femininas dos filmes deste género tinham: uma certa ingenuidade e uma capacidade de gritar que para os homens seria difícil de alcançar. Ora, com o passar dos anos, Mark Patton passou a ser considerado uma “Scream Queen”. Aliás, este viria a ser o primeiro “Scream Queen” depois da sua prestação neste filme que é agora considerado um dos melhores filmes de terror gay de todos os tempos.


Scream, Queen! My Nightmare on Elm Street é um documentário que vai buscar este tema e explora o modo como Mark Patton lidou com a crítica e com o facto de ter sido apelidado de “Scream Queen”. Mark Patton é gay assumido e foi depois do lançamento do filme que revelou a sua orientação sexual, já que através da sua performance começaram a ser levantadas suspeitas, especialmente com a sequência em que este dança. Infelizmente, depois do fracasso, Patton foi acusado de ter transformado o argumento numa história homossexual e este novo documentário pretende esclarecer isso. 

Temos um claro objetivo ao longo da narrativa, que é a confissão por parte do argumentista David Chaskin de que a história tinha, de facto, sinais de relações homossexuais e de que isso não tinha saído da mente de Mark, que apenas interpretou o que lhe tinha sido pedido. Ou seja, a declaração de Chaskin é o destino deste documentário, que antes de aí chegar apresenta a vida de Patton: desde os seus relacionamentos, a doenças e afastamento da carreira no Cinema. Ficamos a conhecer o ator, as suas rotinas e o reconhecimento dos fãs, mostrado através de momentos deliciosos em convenções, nas quais Pesadelo em Elm Street II é celebrado pela sua originalidade. 

Discute-se também neste documentário o subtexto do argumento, concluindo-se que este não é subtexto, mas apenas texto, pois tudo está explícito, ainda que muitos dos envolvidos na sua produção neguem ter conhecido os sinais quando filmaram – por estranho que pareça, o próprio realizador Jack Sholder diz não ter apanhado as referências homossexuais, nem nas sequências em que Freddy acaricia o rosto de Jesse. Soa tudo um tanto estranho: como puderam estes sinais tão explícitos ter escapado a tanta gente? 


Scream, Queen! My Nightmare on Elm Street, que foi exibido no último dia do MOTELX - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa na secção Doc Terror, torna-se num documentário de redenção que é agradável de se ver por todo o percurso que faz até chegar ao seu clímax com um frente a frente entre Mark Patton e o homem que o culpa de ter tornado o filme em algo gay, o argumentista David Chaskin. É uma viagem agradável, especialmente pelo modo como nos apresenta o ator e todos os problemas com que teve de lidar, encontrando sempre uma saída. Não é tanto acerca de Pesadelo em Elm Street II, mas mais sobre o modo como um filme considerado mau (na altura em que foi lançado, pois agora é considerado um filme de culto, especialmente para a comunidade LGBT) pode prejudicar a carreira e a vida de uma pessoa. É um documentário que recomendo a quem quiser descobrir mais sobre esta história.

7/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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