sexta-feira, 11 de setembro de 2020

"The Trouble With Being Born" em análise

O tema da inteligência artificial tem vindo a causar opiniões ambíguas ao longo dos anos e vários são os filmes e séries que o abordam, mostrando um lado positivo e negativo, que na maioria das vezes provem do modo como o próprio ser humano interage com a tecnologia. Em The Trouble With Being Born, filme realizado por Sandra Wollner e estreado em solo nacional na passada terça-feira no MOTELX, é precisamente a comunicação entre um android e vários seres humanos que apela o espectador, sendo também apresentados vários pontos de vista que constroem uma história chocante e sensível de perda e tentativa de reposição. 


Existe um episódio da segunda temporada de Black Mirror (“Volto Já” - T02E01) em que vemos também uma mulher a tentar preencher o vazio deixado pela morte do marido através de inteligência artificial. Aí vemos o apego, o amor, quase como se fosse concretizável trazer alguém dos mortos. A ideia, por si só, de manter uma relação amorosa (em qualquer sentido) com um robot é assustadora, mas, como referi, é o modo como nós reagimos que mais assusta e não tanto o objeto em si. E isto já vem desde os temos do Pinóquio. 

Em The Trouble With Being Born temos duas histórias distintas que são conectadas através de um android facilmente editável para se adaptar a novas memórias. O que têm em comum é o facto de os seus proprietários (se assim podemos chamar) simplesmente não quererem largar o passado. Primeiro, esta é Elli, a filha de um homem que alegadamente terá perdido a família. Depois, é o irmão falecido há sessenta anos de uma mulher que se tem culpabilizado desde a sua morte. O que ambas as histórias têm em comum é o facto de as outras personagens interagirem com o android como se este fosse a pessoa que conheceram, esquecendo que é uma máquina. 


No caso da primeira, temos uma relação repugnante em que o pai trata a “filha” como um objeto sexual. E é talvez aí que temos os momentos mais chocantes da longa-metragem, que noutros locais fizeram os espectadores abandonar a sala. Não havendo uma imagética explícita, no final não restam dúvidas das práticas cometidas e o facto de termos também um ponto de vista do “robot” faz com que percebamos também uma certa obsessão, que não lhe foi implementada no sistema, sugerindo uma capacidade de pensar própria, quase como se o próprio também tivesse adquirido uma consciência. 

A segunda história, depois desta primeira, torna-se mais leve, mas mesmo assim é sinistra o suficiente para que o filme possa ter sido exibido num festival de terror. É um terror muito psicológico e no final deixa-nos a pensar, sendo até capaz de nos deixar num certo estado de ansiedade e sofrimento, ao ver o quão fugaz cada uma daquelas histórias é. A narrativa é linear, mas através de memórias regressamos ao passado e é apenas assim que compreendemos o estado em que as personagens vivem e os seus motivos para interagir de tal maneira com o android, que recupera todos os traços físicos das pessoas que perderam. 


De destacar é também o facto de num determinado momento Elli ser levada por um motorista que reconhece com facilidade que ela é um android, o que sugere que naquele presente (talvez um futuro próximo?) é algo comum na sociedade. Terá o ser humano perdido a sua capacidade de superação? Existe um claro sentimento de perda e tristeza ao longo de toda a narrativa.

Este é um filme provocador logo a partir dos seus primeiros minutos em que temos imagens abstratas, antes de ouvirmos a voz de Elli pela primeira vez a situar-nos no contexto e a introduzir-nos o seu “papá”. Inicialmente poderíamos nem perceber do que se trata, pelo menos até a personagem ficar afogada na piscina e percebermos o seu processo de reativação. O argumento provoca o espectador ao não anunciar tudo rapidamente, fazendo com que o seu público tenha de estar atento a agarrar todas as pistas que vão sendo dadas para no final tirar as suas próprias conclusões.

7/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

1 comentário:

  1. Hmm... terei de espreitar

    Estou de volta com novo blog e venho convidar te a passar por lá. Beijinhos https://endlessfeelingsoficial.blogspot.com

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