domingo, 20 de setembro de 2020

"Verão de 85" em análise

No seu novo filme, François Ozon leva-nos para plena Normandia à beira-mar e apresenta-nos uma história de fugacidade e incertezas. Em Verão de 85, que chega aos cinemas no dia 24 de Setembro, conhecemos dois jovens, Alexis Robin (interpretado por Félix Lefebvre) e David Gorman (Benjamin Voison), que vivem uma relação intensa, numa década em que a homossexualidade ainda era totalmente olhada de lado. Mas este é um clima de romance um tanto instável, marcado pela dúvida e também pelos desejos mórbidos do protagonista, que logo no início nos explica que esta é uma história onde haverá um cadáver, revelando o seu final. 


Verão de 85 tem sido bastante equiparado ao sucesso de Luca Guadagnino, Chama-me Pelo Teu Nome, de 2017. Existem, de facto, várias semelhanças, nomeadamente no que toca à relação homossexual dos protagonistas, ou, neste caso, até mais homoerótica. Assim como nesse, percebe-se que há um certo interesse à primeira vista, o que realça a importância do físico e não tanto da personalidade. A partir daí, a narrativa desenvolve-se em grande velocidade, o que pode até soar estranho ao olhar do espectador. Em escassas horas, o jovem Alexis conhece a mãe de David, com quem, aliás, até vive um momento bizarro, em que esta o despe e admite que faz o mesmo com os amigos do filho, não evitando lançar um comentário de que este é um belo rapaz. Na casa de David vive-se um ambiente desconfortável, o que não é transmitido pelo ator Félix Lefebvre, que interpreta tudo com uma grande descontração, pelo menos nessas sequências – não se entenda que é um mau ator, pois neste filme traz também outros momentos em que revela um interessante dramatismo, entregando uma excelente prestação. 

Depois dos momentos iniciais, que podem soar bizarros ao espectador, começamos a viver um romance adolescente, com tudo o que estes normalmente têm: uma paixão intensa, dependência, ciúme e saudade. É apenas quando chegamos ao terceiro ato que a relação começa a descambar, levando ao inevitável desfecho que anteriormente já tinha sido revelado, mas cujos motivos continuavam desconhecidos até então. A partir daí, esta revela ser uma história de culpa e irresponsabilidade, enquanto faz uma crítica a uma sociedade homofóbica – destaco a sequência em que Alexis tem de se vestir de mulher, pois de outro modo a sua relação com David não seria aceite. 


O argumento deixa-nos ainda uma questão: quem é que nós amamos? A pessoa em si ou a imagem que criámos dela? E aqui fica a resposta de que para Alexis era tudo apenas a pessoa dos seus sonhos, que depois vem a revelar não ser quem este realmente queria que fosse. Para atingir este fim, são usadas personagens secundárias, como é o caso da estrangeira Kate (Philippine Velge), que aparece como força de discórdia entre ambos, mas também como um futuro apoio para Alexis, comprovando a importância de desabafar nos nossos momentos mais frágeis. 

Por fim, a banda sonora é também um elemento importante para compreender melhor esta relação, que partiu de um “quase naufrágio”. A música “Sailing” de Rod Stewart faz-se soar várias vezes e é aquela que marca o amor entre Alexis e David, depois de o segundo, numa discoteca, entregar os fones a Alexis, que a ouve. É como se os versos iniciais dessem ainda um maior significado a esta história: “I am sailing/Stormy waters/To be near you/To be free”. E, de facto, é de notar que neste argumento a morte também é vista como um sinal de liberdade – novamente, realço que o protagonista tem um grande fascínio pela morte, tendo até estudado o modo como esta era aceite pelos egípcios (o que é mostrado pelas colagens que tem na parede do seu quarto). 


Verão de 85 resulta num filme que vive da intensidade de um primeiro amor, mostrando o modo como este se desenvolve ao longo de apenas seis semanas. Em alguns momentos soa demasiado apressado, não dando a oportunidade de as personagens se desenvolverem perante o olhar do espectador. Mas, talvez nessa sua rapidez, consiga ainda melhor relacionar-se com a vida real e com aquele sentimento instantâneo do amor à primeira vista. Só que aqui as coisas tornam-se negras a determinado momento, dando asas à originalidade de abordar temas como a morte num género que geralmente não aceita um tom assim tão pesado.

7/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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