domingo, 4 de outubro de 2020

25 anos de "Neon Genesis Evangelion"

4 de Outubro de 1995. Era um dia complemente normal no Japão. Era uma quarta-feira como qualquer outra. Mas, na TV local, havia algo diferente para ser transmitido durante a tarde. Um nome que baralhava um pouco a língua, com um título meio estranho mas apelativo e interessante. Era de uma propriedade completamente inexistente, ou seja, ninguém sabia do que se tratava ou o que era, se não para além de uma pequena sinopse que se possa ter lido algures num jornal ou revista na altura, ou até no velho teletexto, e isso já se estava a tornar meio incomum no que diz respeito a adaptações de séries no Japão, especialmente adaptações de mangas, pois era a maneira mais fácil de atrair audiência para ver animes. Mas alguém nos estúdios Gainax, apesar de um estado de espírito bastante deprimente, após saber de uma vaga por preencher naquele espaço-tempo televisivo, aproveitou a hipótese de poder fazer qualquer tipo de anime que desejasse, decidindo assim fazer um anime que, ao longo da sua duração, iria explorar, pelas suas personagens, os diferentes estados psicológicos que o criador havia passado até a altura, seja a nível pessoal ou criativo. Esse alguém chama-se Hideaki Anno, e, na altura, era um nome pouco conhecido, mas tinha feito já trabalhos peculiares o suficiente para ser tema de conversa entre outros animadores, e, o anime que este “zé-ninguém” estaria prestes a estrear seria agora conhecido como um dos melhores animes alguma vez feitos, graças aos seus temas explorados, complexidade das personagens, e originalidade, o que levou a uma vaga de procura de novos animes com propriedades originais e não baseados em histórias já escritas ou desenvolvidas noutros formatos. Esse anime é Shin Seiki Evangelion, ou Neon Genesis Evangelion


Ouve-se, então, num ecrã escuro, mas com ar aguado e com um feixe de luz azul, um som angelical... Seguido logo de uma upbeat pop song, que se tornou um ícone das aberturas de animes, sendo uma das músicas mais cantadas ainda hoje em karaokes no Japão, e usada também em vários memes. E, então, começa o primeiro episódio, demonstrando o estado do Japão no ano de 2015. Um cenário completamente desolado e coberto por oceano. E, no meio das águas, uma figura negra emerge, e os tanques e outras armadas do Japão começam a fazer chover chumbo acima. Aquela sombra negra podia ser simplesmente chamada de Kaiju, como qualquer outro monstro que saia da média japonesa, mas tem o nome de Anjo. E, sem falar muito do que é um Anjo, ou o que se está realmente a passar pelo mundo, a escrita e animação deixam a audiência em pulgas e sobre excitação, por não saber o que se está a passar, e por se sentir simplesmente atirado para o meio da ação sem qualquer tipo de contexto. E é exatamente assim que se sente a primeira personagem que é introduzida: Shinji, o protagonista. 

E assim começa uma derradeira aventura que não só coloca em risco todas as personagens à sua volta, seja fisicamente ou psicologicamente, e até ao próprio expectador, pois não haverá muitos animes que afetem uma audiência tanto quanto Evangelion. À medida que vai avançando, este vai-se tornar cada vez mais pesado, a história torna-se mais complexa, as personagens ficam mais miseráveis, a qualidade de animação começa “a piorar”, pois chegou a um ponto em que a produtora teve de cortar no budget drasticamente devido ao conteúdo de alguns episódios que já tinham sido exibidos serem muito perturbadores, levando até a um final indesejado do criador, e o expectador não consegue fazer nada para impedir esta progressão – tirando aqueles que ficaram chateados com o final psicadélico, que tiveram direito a outro final no formato de The End of Evangelion (1997).


Eu não tenho medo nenhum em dizer que Neon Genesis Evangelion é o meu anime favorito, considerando até um dos melhores animes já feitos. Este está cheio de personagens marcantes, desde o protagonista emo que muitos gostam de falar mal por dizerem “ele é irritante, só 'foge' e chora, está sempre deprimido”, quando, na realidade, se levarem a sua história a fundo, perceberiam que a sua maneira de ser até faz sentido; as duas waifus que ainda hoje levam uma discussão atrás de qual a melhor, a Rei e a Asuka, que são literalmente um frio e um quente de personalidades, mas, a melhor waifu de todas, a Misato, está sempre presente para colocar tudo em ordem, mesmo que seja desajeitada quando está em modo de descontraída, o pai de Shinji, que torna tudo sempre mais impiedoso e misterioso... e muitas outras, que levam a história em toda a sua força a um final completamente inesperado e emocionante, ajudando também a perceber de onde vinha o criador e como este se sentia antes e durante a produção, e com a sua vida. 

A animação, como disse, começa por ser excelente, apesar de ter óbvias maneiras de fazer poupar dinheiro de produção, como, por exemplo, tapando a boca das personagens com objetos como livros ou as mãos à frente da cara de maneira a não terem de animar de várias maneiras as bocas a mexerem, poupando até trabalho na dobragem caso esta tivesse de ser feita de novo devido a alterações no argumento, algo que aconteceu imensas vezes no último terço do anime já que, graças aos cortes de orçamento, teve de se arranjar maneira de contornar a falta de dinheiro para animar o final pretendido. Mesmo assim, as animações referentes às batalhas gigantes entre Evas e Angels mantém sempre a sua estabilidade de animação, sempre fluída e rápida, e bastante gráfica por vezes. 


A história então, pode ser o que pode levar muitos a deixar de ver o anime rapidamente – se não graças ao próprio Shinji – pois está estruturada de uma maneira pouco linear, e às vezes torna a narrativa meio confusa – o que o espectador estará muitas vezes ao longo, e até mesmo no fim, do anime. Esta esconde muitos elementos que, só fazendo longas e duradouras horas de pesquisa aprofundada, é que, possivelmente, terá algum tipo de resposta. Mas, falando por mim, valeu a pena. Mas isto não implica que só se irá perceber a história apenas olhando para o que é apresentado, porque o que está a superfície entende-se a certo ponto, vale é a pena ir até ao fundo da matéria, pois há teorias que vale a pena explorar.

A banda sonora é outro excelente elemento que favorece o anime. Já mencionei a clássica abertura, mas não se pode esquecer a música que toca no fim de todos os episódios, mas de maneira diferente, a bela música “Fly Me To The Moon”. As músicas foram todas compostas por Shiro Sagisu, que ficou um longo colaborador de Hideaki Anno após Evangelion, e a sua música ficou tão icónica que até foi colocada no mais recente filme live action japonês de Godzilla (realizado, também, por Anno). Para além de contar com temas originais memoráveis, como a música “Thanatos” e “Decisive Battle” , esta incluiu vários temas de música clássica, desde a já muito usada 9ª de Beethoven a “Il Air”. 

Esta é uma parte da minha coleção relativa a este meu vício. Podem encontrar mais fotos no projeto Companhia Colecionadora!

Neon Genesis Evangelion, então, estreou-se há 25 anos, e continua tão fresca e original como quando saiu na altura. Continua igualmente controversa? Talvez. Muitos animes, após Evangelion, ficaram com coragem de tomar decisões mais difíceis invés de seguirem um caminho simples e fácil de agradar, por isso dificilmente se vai continuar a achar o mesmo nível de controvérsia que antes, mas uma coisa que continua a distinguir Evangelion de muitos animes é o seu leque de personagens realistas com o qual qualquer pessoa facilmente se identifica. Mesmo com os seus altos e baixos, Anno manteve a sua ideia em curso durante a sua realização, e, estas personagens, quase um reflexo do seu consciente depressivo, são únicas na média de animação. E é por isso mesmo que adoro Evangelion, pela maneira que eu próprio me consigo identificar não só com os vários “pseudónimos” de Anno, mas também com ele mesmo, compreendendo de onde este vem, e sabendo como se sente, levando-o a mostrar esses sentimentos na história deste anime, que se disfarça comercialmente como um anime de ação de robôs gigantes, mas transmite algo mais para além disso.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Apreciador e colecionador de jogos e, principalmente, filmes desde a minha infância, possivelmente tendo começado o louvor de cinéfilo depois de repetir quinhentas vezes a VHS alugada no Videorama do filme Spider-Man (2002) de Sam Raimi.

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