quarta-feira, 7 de outubro de 2020

"A Famosa Invasão da Sicília pelos Ursos" em análise

Numa competição que tem vindo a ficar marcada por filmes de animação que abordam temas sérios, pelo meio da MONSTRA surge este A Famosa Invasão da Sicília pelos Ursos, baseado no livro homónimo de Dino Buzzati, e que só pelo nome apresenta logo um certo grau de originalidade. Este filme, realizado por Lorenzo Mattotti, apresenta-nos dois contadores de histórias que têm um encontro inesperado com um urso numa caverna e decidem fazer um espetáculo sob pressão, em que recordam o dia em que os ursos invadiram a Sicília, numa demanda pela busca do filho do Rei Urso, que tinha sido levado pelos humanos que habitavam naquela cidade. 


Este é um filme na sua maioria divertido, especialmente quando os ursos fazem alguma conquista e a banda sonora, composta por René Aubry, explode em sons alegres, com ritmos idênticos aos que costumam soar nas feiras medievais, e que imediatamente deixam o espectador com vontade também ele de começar a dançar e de se juntar à celebração dos ursos. No entanto, no meio da animação, existe uma explícita crítica às relações interpessoais e à ganância do ser humano, neste caso também transmitida pelos ursos. 

Os protagonistas sempre viveram isolados, longe da civilização, mas felizes. É depois do rapto do filho do Rei que estes interagem com os humanos pela primeira vez, levando logo a um conflito entre espécies, em grande parte devido a mal-entendidos: os humanos pensavam que os ursos eram maus, e os ursos que só iam em paz acabaram por alinhar na guerra, depois de acharem que eram mal recebidos pelos humanos. É após esta fase inicial que humanos e ursos passam a viver em harmonia, pelo menos até ao momento em que os próprios ursos começam a ser consumidos pela riqueza daquela terra, tornando-se também eles quase humanos, chegando a esquecer as suas origens (inclusive, perdem os seus hábitos, como pescar salmão). 


A lei da vida dita que queremos sempre conquistar mais e mais, porque somos ambiciosos. E neste caso é isso que acabamos por ter, com uma das personagens a fazer todos os possíveis por atingir o máximo do poder, mesmo que isso signifique mentir e prejudicar outrem. Curiosamente, a construção das personagens impede que o espectador consiga definir logo quem é bom ou mau, chegando até mesmo a enganar: se em alguns momentos pensamos que o vilão é X, depois afinal é Y. Na verdade, todas as personagens acabam por sofrer grandes alterações ao longo da narrativa, o que mostra o que a ganância consegue fazer, até àqueles que viviam bem com pouco.

A brincar, com um tom maioritariamente alegre, este A Famosa Invasão da Sicília pelos Ursos consegue explorar temas sérios e transmiti-los de forma acessível para miúdos e graúdos, sem que nenhum destes distintos públicos sinta que o filme não lhes é destinado. Existem várias personagens com que facilmente criamos empatia e que queremos ver evoluir ao longo da narrativa, que tem várias surpresas reservadas até ao fim.

7/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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