domingo, 4 de outubro de 2020

"A Viagem do Príncipe" em análise

Depois de assistir à masterclass “Música e Animação” de Christophe Héral durante a MONSTRA em Casa, admito que um dos filmes que maior interesse me tinha despertado na competição de longas-metragens do festival era A Viagem do Príncipe, realizado por Jean-François Laguionie e Xavier Picard. Aqui acompanhamos um velho príncipe, que, inanimado, dá à costa de um novo país e é descoberto por um rapaz, cujos pais têm um laboratório, para onde levam o príncipe, para que este seja examinado. 


A sensação de não-pertença ao local é constante, com o príncipe a ser alvo de experiências, apesar de ser um macaco como todos os que o rodeiam. Naquele local, tudo parece ter evoluído, com exceção das pessoas, que se tornaram frias e rotineiras. Através dos olhos do protagonista ficamos a conhecer uma sociedade que vive para o trabalho, onde a boa educação parece ter sido esquecida. Por exemplo, todos reagem com estranheza a um “bom dia”, “com licença”, como se a imprevisibilidade de tais cumprimentos afetasse as suas rotinas e os levasse a um desvio do seu rumo. Neste sentido, há uma sequência interessante em que Tom e o Príncipe embarcam num elétrico, onde as pessoas se mantêm instáveis, parecendo claro que só se encontram ali porque faz parte daquilo que são obrigados a fazer. 

A difícil adaptação do príncipe não é só acentuada por isso, mas também pelo modo como falam dele, como se não estivesse presente e fosse apenas uma “ideia” de alguém, algo que não existe, pertencente ao imaginário. Sente-se um certo racismo, ainda que aparentemente sejam todos macacos iguais. O argumento faz um excelente trabalho ao mostrar a ideia do forasteiro, não integrado na sociedade, acrescentado até a hipérbole de que este é um monstro – aqui apresentado num sentido literal, servindo a sua figura para assustar. 


A determinado momento da narrativa acedemos a uma feira em que o tema é o medo e parece ser o único momento em que aquela sociedade se diverte, com um cenário carnavalesco, assustador, mas onde estes parecem sentir-se mais livres do que nas suas rotinas. De facto, os tons do filme alteram-se em cada sequência e, por triste que pareça, é quando vemos as personagens no seu dia-a-dia que temos uma coloração mais acinzentada, que contrasta com os momentos passados nas florestas, na canópia e também nesta feira, onde reinam tons avermelhados, mas luminosos. É como se o facto de as personagens sentirem medo as mantivesse vivas! 

Inevitavelmente, a determinado momento começamos a sentir que o filme tem muitas críticas por fazer. Se inicialmente foi criticado o modo como vivemos em sociedade, enquanto nos isolamos cada vez mais, já no final começamos a sentir que a verdadeira crítica a ser feita é ao modo como interagimos com a natureza e com tudo o que esta nos dá. O propósito é bem conseguido, no entanto sente-se um tanto excessivo. 


Por fim, e de um certo modo regressando ao início, não poderia deixar de referir a banda sonora composta por Christophe Héral, que se altera consoando todos os cenários apresentados, sendo, por isso, muito variada. Será curioso referir que o seu tom na chegada do príncipe ao “laboratório” não se distancia muito do momento da Feira do Medo, deixando, então, esse sinal de receio por parte do protagonista que está a descobrir aquele novo lugar. 

Este é um filme que, através de personagens com quem facilmente criamos empatia, podemos aprender algumas lições, também enquanto adultos, que muitas vezes nos afastamos de quem nos rodeia ou olhamos com estranheza quem pode parecer diferente, por ter outros costumes. É um filme muito humano que traz uma grande busca pela felicidade e, acima de tudo, um sentimento de liberdade.

7/10

A Viagem do Príncipe vai voltar a ser exibido na MONSTRA hoje, às 19:30h, no Cinema City Alvalade (Lisboa).
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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