sexta-feira, 2 de outubro de 2020

"As Andorinhas de Cabul" em análise

O filme que deu início à competição de longas-metragens da MONSTRA foi o francófono As Andorinhas de Cabul, realizado por duas mulheres: Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec, e baseado na obra homónima de Yasmina Khadra. Aqui somos levados para um Afeganistão em ruínas, no Verão de 1988, ocupado pelos Talibã, que nos é apresentado através de uma animação que quase parece um bloco de viagens, onde as autoras desenharam detalhadamente as paisagens que estavam a ver.


O realismo das pinturas leva-nos a sentir cada pincelada, até que deparamos com as personagens mais salientes, com um estilo de animação já distinto, mais digital, mas que nem assim nos tira a emoção de ver os planos de fundo, que ainda que não sejam muito dinâmicos conseguem entregar uma beleza única e, já por aí, tornar-se num destaque neste filme, que todo ele soa invulgar. 

O argumento apresenta-nos dois casais: por um lado temos Atiq e a sua esposa Mussarat e por outro temos Mohsen e Zunaira. Atiq é o guarda prisional de uma prisão de mulheres e Mussarat está gravemente doente, com um cancro sem cura; por sua vez, Mohsen e Zunaira são um casal jovem, com o sonho de conquistar a liberdade e de voltar a viver como anteriormente. No entanto, é depois de, a certo dia, Mohsen se ter deparado com uma execução em praça pública de uma mulher que as coisas entre si e Zunaira começam a alterar-se, já que esta é uma mulher que tenta conquistar os seus direitos e não concorda com as novas regras da Xaria. Inicialmente será difícil prever em que ponto o caminho destes dois casais tão distintos se cruzará e é uma longa caminhada até que isso aconteça. Temos muitos acontecimentos inesperados, que mudam por completo o rumo da narrativa, até que esse objetivo se cumpra, de uma maneira que nos quebra o coração por completo, apenas para no final o reconstruir. 


Existe frequentemente um preconceito que dita que os filmes de animação são destinados a um público infantil e por vezes aparecem alguns que pretendem comprovar o contrário. É o caso deste, que mostra rapidamente que aborda temas sérios e que os adultos são o seu alvo. Na verdade, até esquecemos que é um filme de animação, assim que passamos pela sequência de apedrejamento de uma mulher e vemos várias personagens de armas na mão, a causar o caos. O que temos é uma representação do Oriente a que muitas vezes fechamos os olhos. Só que aqui não temos coragem de o fazer, pois queremos acompanhar os nossos protagonistas e, acima de tudo, ter fé de que estes sobrevivam a todos os obstáculos. 

As ruas de Cabul são apresentadas de um modo que até poderia ser considerado poético, especialmente quando as vemos pelos olhos de Zunaira, quando esta sai à rua de burka, mostrando o seu claro desagrado – já que nem tinha uma burka própria e mesmo nesse dia em que sai de casa insiste em usar sapatos brancos, que são proibidos. Vemos tudo aos quadradinhos, com uma visão pouco ampla e menos nítida, que nos faz sentir de perto as emoções de Zunaira e toda a sua raiva interior por não conseguir ser livre e por os homens a considerarem inferior apenas por ser mulher. É na sequência destes acontecimentos que a vemos a passar odiar todos os homens, inclusive o marido, porque ser mulher naquela sociedade traz exigências que não compreende. 


As Andorinhas de Cabul é um filme que nos quebra e que nos deixa a pensar. É uma animação, mas é especialmente um drama, muito forte, com uma história triste, mas que consegue encontrar a esperança no meio da destruição, ainda que esta possa vir a ser passageira. Posso dizer que foi uma surpresa chocante, mas muito agradável, e será um filme que recomendarei a toda a gente.

8/10

As Andorinhas de Cabul vai voltar a ser exibido na MONSTRA no dia 6 de Outubro, às 21:30h, no Cinema City Alvalade (Lisboa).
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

Sem comentários:

Publicar um comentário