quarta-feira, 28 de outubro de 2020

"As Bruxas de Roald Dahl" em análise

Robert Zemeckis regressa à realização com um remake de As Bruxas, filme de 1990 realizado por Nicolas Roeg, baseado no clássico da literatura homónimo de Roald Dahl. A nova longa-metragem, logo pelo seu trailer, prometia muitas diferenças, a começar por um casting totalmente renovado e muito distinto do anterior: nomes como Anne Hathaway, Octavia Spencer e Stanley Tucci são alguns dos que entregam um ar fresco a As Bruxas de Roald Dahl, que estreia esta quinta-feira nas salas de cinema nacionais.


A premissa do filme mantém-se a mesma: temos uma avó que conta ao neto (o protagonista da história) que existem bruxas e que estas odeiam crianças, ao ponto de as quererem matar. Depois, claro, dá-se um encontro com uma comunidade de bruxas. Na verdade, em termos gerais a história não se altera muito em comparação com o filme de 1990, mas alguns elementos que foram fortemente criticados foram suavizados, como é o caso de alguns momentos originalmente aterradores. 

A primeira diferença surge logo nos minutos iniciais, com a exclusão de uma sequência memorável: o “castigo” da menina que fica presa num quadro numa parede, depois de conhecer uma bruxa. Desta vez, esse momento que tinha o poder de nos deixar um pouco arrepiados – e que para as crianças era a melhor lição possível de que não se deve falar com estranhos – foi transformado em algo mais cómico, mas que consegue atingir o mesmo fim. E assim acontece também com outras sequências que marcaram muito o filme de 1990, como também é o caso da transformação horrenda da bruxa soberana (aí interpretada por Anjelica Huston), que aqui é mais simples, mas não deixa de recorrer aos avanços tecnológicos, com CGI excessivo a tomar o lugar das caracterizações com recurso a maquilhagem. 


Ora, se no primeiro filme era notável o facto de muitas vezes se recorrer a marionetas e outros acessórios de modo a conseguir uma melhoria dos “efeitos”, aqui a edição a computador é quem comanda. Com destaque para os ratos, muito mais realistas, mas menos carismáticos e interessantes que os outros – já que no outro filme até houve uso de ratos reais, para determinadas sequências que não necessitavam de mostrar as feições de um rato a falar. Infelizmente, e entendendo a necessidade de mudança, senti que este filme perdeu muita da magia que o outro tinha, talvez por terem sido criados tantos projetos para o concretizar, em vez de ter sido tudo somente feito a computador. 

O elenco, apesar de muito distinto, consegue dar um toque de elegância ao filme, especialmente Anne Hathaway, que até a desempenhar uma bruxa malvada não deixa de espalhar o seu charme. Por sua vez, Octavia Spencer também se destaca nas suas sequências com o jovem Jahzir Bruno, formando um par de avó e neto mais moderno e fluído, com uma relação de confiança e proximidade que é perfeitamente transmitida ao espectador. Infelizmente, e ao contrário do que aconteceu com Rowan Atkinson no primeiro filme, que foi o protagonista de algumas sequências cómicas, senti que Stanley Tucci não teve tempo para brilhar, parecendo sempre demasiado sério ou ofuscado quando entrava em cena. 


Não posso dizer que este novo remake não trouxe algumas renovações positivas, no entanto senti várias das suas alterações desnecessárias, até porque provocaram um aumento na duração, com um total de 1h50m, contra a 1h27m do filme original. Ambos contam praticamente a mesma história e tendo em conta que o seu público-alvo são as crianças penso que um filme mais curto consegue conquistá-las com uma maior facilidade, até porque o que este tem em excesso pode causar algum aborrecimento ao espectador. 

Para terminar, não posso deixar de recomendar As Bruxas de Roald Dahl a quem viu o primeiro filme e gostou. No entanto, é um filme que facilmente vai ser esquecido, o que acaba por ser um problema comum aos remakes feitos recentemente, especialmente aos que não conseguem superar os originais.

5/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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