terça-feira, 6 de outubro de 2020

"Buñuel no Labirinto das Tartarugas" em análise

A cinematografia de Luis Buñuel tem tanto de peculiar como de criativa, ainda que este muitas vezes tenha sido acusado de copiar o seu (ex-)amigo Salvador Dali. Verdadeiro mestre do surrealismo, e considerado um dos melhores realizadores de sempre, depois da sua morte já inspirou diversas longas-metragens e desta vez é o tema do filme de animação Buñuel no Labirinto das Tartarugas, realizado por Salvador Simó, que segue a criação de As Hurdes: Terra Sem Pão (1933), depois do fracasso da sua estreia. Este é mais um dos filmes em competição na MONSTRA - Festival de Animação de Lisboa


Em género de animação documental, o que ultimamente tem vindo a ser destaque com muitos filmes de animação a servirem de homenagem a personalidades, aqui seguimos as peripécias de Buñuel, depois de o seu amigo Ramón Acín ter apostado na lotaria e ter ganho, cumprindo assim a promessa de que se ganhasse ajudaria o realizador na criação de um novo filme, financiando o projeto. Seguimos tudo isto, desde o momento da aposta até a viagem às Hurdes, onde vemos a equipa do projeto (os próprios Luis Buñuel e Ramón Acín e também Pierre Unik e Eli Lotar) a tentar encontrar um objeto para filmar, já que, aparentemente, o que encontraram não era bem o que esperavam, quase levando a um novo fracasso, que, porém, com as ideias surrealistas e incompreendidas do protagonista acabou por se tornar num retrato daquela terra e, acima de tudo, das gentes que lá viviam. 

Este é um filme que acompanha a viagem até às Hurdes, contendo até referências visuais desse mesmo filme, mas como seria de esperar contém também elementos ainda mais surrealistas, como sonhos e pensamentos do protagonista, que muitas vezes imagina coisas que não existem, derivado a traumas de infância. Assim sendo, o filme contém uma grande palete de cores que se torna ainda mais colorida nesses momentos, com especial destaque para quando este se encontra em Paris, antes da viagem, e imagina elefantes típicos de Dalí a passar pelas ruas, por exemplo, como também uma recorrente memória de como o pai o tratava, a adicionar aos minutos iniciais do filme em que recuámos até à sua infância, para conhecer os tratamentos rígidos e a educação que lhe foi dada e que contrasta com a arte que produz. 


O estilo de animação é um 2D muito simples, com um traço que até pode ser considerado um tanto grotesco e simplista, mas que entrega um tom muito próprio e maduro. Como referi anteriormente, existem algumas referências ao próprio As Hurdes: Terra Sem Pão, o que também contribui para quem não conheça a obra ter uma ideia do resultado real de tudo o que esta animação apresenta. Ou seja, esta animação documental pode também funcionar como um behind the scenes, visto que apresenta factos reais das filmagens, e contribui para que ainda conheçamos o modo de vida dos Hurdanos mais a fundo, ao seguirmos os protagonistas para aquele local, que fica longe de tudo e que, na altura, ainda nem tinha uma estrada por perto. A animação foca-se nas pessoas que lá moram, retratando a pobreza em que vivem, em contraste com as personagens principais, que demoram a habituar-se àquele lugar. Veja-se, por exemplo, quando estes filmam o interior da casa de um homem e expressam repulsa pelas condições em que este vive, ou também todas as sequências que envolvem a menina doente caída no meio da rua. Acaba por tratar-se também de um filme que explora a situação precária em que as pessoas moravam, apenas por estarem distantes dos centros urbanos. 

Novamente, este filme, assim como outros na competição deste ano, nega o preconceito de que os filmes de animação são destinados a crianças. Aqui temos um caso que, certamente, não despertaria o interesse de um público infantil, mas que consegue entreter os adultos, com uma história interessante e bem contada e que contém uma balança equilibrada entre comédia (com algumas piadas e um humor negro) e drama, que inclui muitas mortes de animais e também de pessoas, seja pela doença ou por um mero capricho de realizador. É, sem dúvida alguma, um filme que se destaca pela diferença, por não haver muitos que tenham a capacidade de documentar algo ou alguém tão a fundo, especialmente no género de animação.

7/10

Buñuel no Labirinto das Tartarugas vai voltar a ser exibido na MONSTRA amanhã, às 21:30h, no Cinema City Alvalade (Lisboa).
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

Sem comentários:

Publicar um comentário