sexta-feira, 16 de outubro de 2020

"O Assassino em Série" (1992) a rebobinar

Foi há precisamente vinte e oito anos que foi lançado, em estreia nos Estados Unidos (cá só chegou em Fevereiro do ano seguinte, e com estreia no Fantasporto), um filme que continua muito atual no que toca a apresentar um verdadeiro pesadelo relacionado com o racismo: Candyman (em português: O Assassino em Série), realizado por Bernard Rose e baseado na obra The Forbidden de Clive Barker. E seria também hoje, se o novo coronavírus não tivesse vindo alterar tantos planos, que ia chegar aos cinemas a sequela, entretanto adiada para 2021, realizada por Nia DaCosta.


Curiosamente, Candyman foi apresentado nesta edição do MOTELX, inserido na secção “Pesadelo Americano: O Racismo e o Cinema de Terror”, que se propôs a apresentar filmes de culto nos quais o tema principal é precisamente o racismo. Só que, neste caso, assim como nos outros apresentados, é possível acordar desse pesadelo, dessa ideia, do preconceito. 

Ora, em Candyman somos introduzidos a um mito relacionado com um homem que tem um gancho no lugar da mão e que mata “inocentes”, na maioria mulheres brancas. É com o objetivo de estudar este mito e de comprovar a sua farsa que a estudante Helen Lyle (interpretada por Virginia Madsen) acaba por provocar o regresso do assassino, tornando-se também no seu principal alvo, à medida que este vai matando outras pessoas e levando a própria Helen à loucura. 


Candyman surgiu numa década em que o cinema de Terror era marcado pelas típicas “scream queens”, protagonistas femininas que fugiam do vilão e que gritavam constantemente. Então, logo por aí temos uma grande diferença com o que se fazia no género, já que a protagonista é uma mulher madura, que não tem problemas em enfrentar os seus próprios medos, muitas vezes pisando os iscos apenas pela conquista de conhecimentos. É muito interessante seguir as pisadas de Helen, quase como se estivéssemos perante uma detetive, já que é através dos seus olhos (ou, melhor, através da objetiva da câmara que leva sempre consigo) que ficamos a conhecer o vilão, os seus motivos e o passado de injustiça que o incentiva a cometer os crimes. 

O racismo presente no filme é apresentado, essencialmente, pelo olhar de quem está fora do bairro onde a lenda do Candyman está mais presente. Nesse bairro vive uma população de negros, na maioria muito pobres e com más condições. Parecem estar afastados do resto da sociedade, que ignora por completo a existência daquele local, onde a construção de alguns prédios nem foi terminada, não dando oportunidades a quem lá habita. Só que ali parece não haver um aumento do medo do mito, ainda que o passado indique que o vilão lá tenha atuado, sendo esse o motivo que leva Helen a explorar aquele lugar, onde virá também a ser olhada de lado, simplesmente por não pertencer ali. 


Personagens como Anne-Marie (Vanessa Williams), uma jovem mãe que mora na casa ao lado de onde houve um assassinato, ganham uma grande força por representarem uma minoria que ganha, deste modo, uma voz. Os momentos em que vemos esta a interagir com Helen soam a estranheza, mas rapidamente sentimos que há empatia entre ambas, assim que Helen a ajuda a cuidar do seu filho – o que levará, mais tarde, a uma das sequências mais tensas do filme, quando a criança desaparece e Helen é responsabilizada e culpada pela sua presumível morte. 

Ao estabelecer o seu espaço num local real, ou seja, Chicago, mais precisamente Cabrini Green, somos facilmente envolvidos pelo seu ambiente de neglicência e com confrontos raciais constantes. O resultado é que apesar de ser ficção, sentimos que há uma componente verídica, também apresentada simbolicamente através do próprio Candyman. A combinar com Cabrini Green, temos também a banda sonora, composta por Philip Glass, que lhe consegue entregar um tom escuro, cheio de incerteza, mas com umas notas que inspiram coragem e esperança. 


O elenco deste filme é excecional, a começar por Virginia Madsen, que se torna icónica a interpretar Helen, uma personagem inesquecível pelo seu temperamento frio e por uma grande vontade de ser bem-sucedida nos seus estudos, mesmo que isso implique vários contratempos na sua vida social. Apesar de ser o centro das atenções sempre que entra em cena, não se sente que é a única personagem a ser desenvolvida no tempo da narrativa, já que também facilmente simpatizamos com Bernadette (interpretada por Kasi Lemmons), a sua fiel colega e amiga, e também sentimos repugnância pela seu marido, Trevor (Xander Berkeley), aprovando totalmente o seu fim. No entanto, a par com Virginia, é Tony Todd que também entrega uma das melhores performances neste filme, ao interpretar o próprio Candyman, que muitas vezes aparece apenas sonoramente, em formato de narração. Ver Candyman, que regressa à vida quase como um fantasma, e Helen Lyle em “combates” torna o filme numa experiência única, já que depois de conhecermos a história do assassino não sentimos que ele é mau, mas que apenas procura justiça, ainda que não da melhor maneira.

Candyman é um filme de terror que marca pela diferença ao afastar-se de elementos característicos do género, nomeadamente relativos a personagens clichés, e ao entregar uma história que nada tem de superficial e que nos consegue agarrar imediatamente precisamente pelo facto de nos levar a explorar juntamente com a sua protagonista. Vinte e oito anos depois, continua a ser um filme muito atual, agora até mais do que nunca.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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