sábado, 21 de novembro de 2020

"Falling" em análise (LEFFEST 2020)

Viggo Mortensen é um ator que já foi visto em vários géneros, a interpretar as mais diversas personagens. Agora, na sua já longa carreira, junta-se mais um papel: o de realizador. Sim, Mortensen, que durante mais de três décadas ficou sempre à frente das câmaras, estreia-se finalmente atrás delas com Falling, filme que também é por ele protagonizado. A longa-metragem teve a sua antestreia nacional esta sexta-feira no Lisbon & Sintra Film Festival, com a presença do próprio Viggo, que explicitou que este era um filme que já tinha planeado há algum tempo e no qual as coisas parecem simplesmente fluir, sem ser necessário dar grandes explicações.


Falling apresenta-nos uma família: o pai Willis (interpretado por Lance Henriksen, enquanto idoso, e por Sverrir Gudnason, numa fase mais jovem), a mãe Gwen (Hannah Gross) e o filho John (numa fase adulta interpretado pelo próprio Viggo). Esta é uma família em que o pai é a figura soberana, transmitindo sempre uma masculinidade tóxica, ensinando o filho a caçar, enquanto a mãe fica em casa a fazer as tarefas domésticas. Na primeira sequência em que vemos pai e filho juntos sentimos que têm uma ligação forte, com o pai a sentir orgulho pelo filho, na primeira vez que este mata um pato com um tiro (ainda que pareça apenas sorte); no entanto, à medida que a narrativa evolui sente-se que esta ligação começa a deteriorar-se, especialmente porque o pai começa a perceber que o filho não vai ser tão “masculino” quanto ele, já que a criança, desde cedo, sente vontade de ajudar a mãe – por exemplo, a preparar o pato para cozinhá-lo. Esta família separa-se, o que também demonstra a grande força da mãe, tendo em conta que o momento da separação situa-se nos anos sessenta ou setenta, o que na altura era dificilmente aceite pela sociedade e pelo homem, levando a casamentos que duravam anos, mas que o casal vivia insatisfeito, muitas vezes com violência à mistura. 

Neste filme são apresentadas realidades que pretendem quebrar preconceitos, mas que são constantemente questionadas e criticadas pela figura de Willis. O facto de a narrativa ser alternada entre passado e presente dá a hipótese ao espectador de conhecer melhor esta personagem, de conhecer as suas intenções e maneira de ser. E é caso para dizer que não mudou, desde os tempos em que Gwen se afastou por se sentir rebaixada, só e infeliz, até um presente em que este é apenas um homem só e também ele descontente com a vida que leva, mas incapaz de se aproximar dos filhos, apesar de estes criarem várias tentativas de aproximação. É, então, pouco de admirar que uma personagem que vive de ideologias antiquadas veja com maus olhos a relação homossexual do seu filho. E se por um lado temos momentos de grande tensão derivados desta falta de aceitação, por outro lado temos também alguns momentos que conseguem ser cómicos, ainda que cheios de preconceitos tolos, como a ida ao médico (que traz um cameo de David Cronenberg). 


Para um estreante, Viggo Mortensen mostra já uma boa precisão na realização, com uma confiança que certamente foi aprofundada ao longo dos anos em que foi pensando no que realmente queria fazer com o guião de Falling – que inicialmente foi pensado para um livro, mas que rapidamente se percebeu servir melhor para um filme. Talvez por já ter trabalhado tão de perto com realizadores como o próprio David Cronenberg, sente-se uma certa influência no estilo, mas não deixa de se sentir que é uma realização muito pessoal e que certamente será melhorada em próximas apostas. Para além da realização, é de notar que Viggo também produziu o filme (lançado pela sua produtora independente Perceval Pictures) e compôs a banda sonora, o que mostra o quão multifacetado é. Ou seja, o resultado é um filme que Viggo cria quase na sua totalidade, dando asas à sua própria imaginação. 

Falling é consegue mexer com os nossos sentimentos, seja através do argumento, dos cenários ou da música. Adicionalmente, é de referir que também o elenco consegue despertar em nós emoções, pois todos os atores presentes entregam desempenhos memoráveis. Lance Henriksen entrega-nos uma personagem crua, que domina as cenas sempre que está presente; Viggo Mortensen pode parecer um tanto apagado, mas no final “explode”, numa sequência repleta de tensão e de grande representação. Destaco ainda o facto de ter havido uma certa preocupação em ter um elenco coerente. Ou seja, as personagens aparecem em várias idades, com diferentes atores, mas nota-se que todos foram escolhidos de modo a existirem semelhanças entre eles, mantendo um certo realismo.

7/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

1 comentário:

  1. Joana,
    Viggo Peter Mortensen, todos se lembram dele na trilogia “O Senhor dos Anéis”. Mas, além de ator, é roteirista, poeta e ainda tenta uns acordes na música. Ele diz ser ativo em suas fotografias e pinturas... Mas, isso aí, são outros quinhentos. Deixemos o nobre Viggo na 7ª arte mesmo. ㋡
    Gostei do novo design do teu blog (ツ)ᕤᕦ(ツ)
    Beijos e cuide-se!!!

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