quarta-feira, 18 de novembro de 2020

"Hóspede Indesejado" em análise

Os nossos fantasmas e o nosso passado perseguem-nos. É esta a premissa de Hóspede Indesejado (ou His House, no nome original), realizado por Remi Weekes, um filme recentemente adicionado ao catálogo da plataforma de streaming Netflix. Aqui acompanhamos um casal de refugiados, interpretado por Sope Dirisu e Wunmi Mosaku, que foge do Sudão do Sul, devastado pela guerra, em busca de asilo em Inglaterra. Procuram uma nova vida, mas são constantemente atormentados por uma força sinistra que ao que tudo indica habita na sua nova casa. 


Este é um thriller que fica essencialmente marcado pelo trauma dos protagonistas, representativo de uma realidade a que muitos optam por fechar os olhos, ainda que aqui tenha, claro, a adição de elementos quase sobrenaturais, de modo a enfatizar os traços de terror que o filme também pretende transmitir. E esse terror passa por mexer com o psicológico dos protagonistas à medida que também vai pregando alguns sustos ao espectador, com jumpscares bem criados à mistura. Ainda assim, é um terror muito assente na vida dos refugiados que tentam recuperar os seus direitos e recomeçar a viver, num país com culturas e hábitos totalmente diferentes. 

A narrativa inicia-se precisamente com o momento em que este casal recebe a nova casa, descrita como sendo espaçosa, de modo a mostrar que estes simplesmente não a poderiam recusar, já que para eles seria um “luxo”. No entanto, a casa começa logo por transmitir uma sensação estranha, quase como se ela própria fosse uma personagem, ainda que rapidamente se entenda que não é ela que tem “vida própria”, mas sim os fantasmas que seguiram os protagonistas até lá – ou que, na verdade, nunca os abandonaram. É, então, muito curioso assistir ao modo como o casal vai enfrentar os seus traumas, muitas vezes quase se rendendo a esses “espíritos malignos”, numa tentativa de os vencerem. 

Só no terceiro ato é que somos totalmente apresentados às raízes dos protagonistas, com um recuo do tempo que nos leva diretamente para o Sudão do Sul e que apresenta a sua fuga e o motivo pelo qual estes se culpabilizam. Aí ficamos, finalmente, a conhecer os fantasmas que os perseguem e o porquê de o fazerem, à medida que, como já referi, somos também apresentados a uma realidade que ainda existe atualmente, mas que é muitas vezes esquecida: a crise dos refugiados e as guerras nos países de onde vêm. 


Hóspede Indesejado faz ainda um excelente trabalho a captar as emoções e reações dos atores, especialmente nos momentos em que reagem a algo que está fora de cena. É o caso da sequência em que Rial observa vários cadáveres, mas o espectador não sabe isso até a câmara mudar de plano. Assim sendo, há sempre este fator mistério, que acentua o suspense e a tensão, levando a uma longa-metragem diferente, tanto no seu tema como no modo como apresenta os seus horrores. 

Este será um filme que provavelmente vai cair no esquecimento, mas consegue despertar o público para temas que não são abordados no género com frequência, entregando assim um tom fresco, enquanto apresenta uma história original que, porém, poderá não atingir as expectativas daqueles que aguardavam o lançamento do filme.

6/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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