domingo, 8 de novembro de 2020

"We Are Who We Are" - Temporada em análise

Luca Guadagnino é um realizador que tem vindo a alcançar uma grande popularidade entre as camadas mais jovens no último par de anos, depois do sucesso da sua longa-metragem Chama-me Pelo Teu Nome (2017). Agora regressa à realização, mas com uma série, ou, mais precisamente uma minissérie. Em We Are Who We Are, da HBO Portugal, somos levados para uma pequena base militar americana em Itália, no entanto sente-se que a história que se conta podia passar-se em qualquer outro local do planeta – só que ali está tudo à mão, resultando numa pequena representação do mundo em miniatura.


A série é protagonizada por Jack Dylan Grazer, que interpreta Fraser, e Jordan Seamon, que tem aqui a sua estreia enquanto atriz a interpretar Caitlin. Assim como outros jovens que moram na base, estes dois apenas lá vivem porque as suas famílias têm membros do exército e por isso levam o seu tempo a acostumar-se ao local, muitas vezes sentindo revolta por terem de se mudar tantas vezes. 

Logo no primeiro episódio somos apresentado à mãe de Fraser, Sarah (Chloë Sevigny), e à sua companheira, Maggie (Alice Braga), que acaba por se tornar numa figura materna mais fidedigna para Fraser do que a própria Sarah, com quem o jovem mantem constantes conflitos, muitas vezes declarando guerra à própria mãe. Percebemos pelos primeiros minutos que esta é uma família conturbada, onde não se sentem grandes elos ou mostras de afeto. 


Assim como num primeiro dia numa nova escola, Fraser começa por ser recebido com alguma estranheza, até porque tem uma maneira de vestir e uma atitude diferente, destacando-se facilmente num grupo. Inicialmente não é bem recebido, até porque alguns o veem como uma ameaça, especialmente por ser filho da nova general. No entanto, Fraser cria uma amizade especial com Caitlin, especialmente depois de descobrir o segredo da rapariga: ela disfarça-se de homem, para falar com outras raparigas. 

Rapidamente se percebe o título da série, já que aqui as personagens partem numa aventura de auto-conhecimento, nesta que é uma história de coming of age. As personagens tentam descobrir-se, encontrar aquilo que gostam de fazer, o que as deixa feliz. E esta é uma longa jornada, já que muitos acreditam que querem algo, mas depois percebem que não é bem o que queriam. Neste sentido, a personagem de Jordan Seamon é quem faz a viagem mais complexa, visto que demonstra desde cedo não se sentir bem na sua pele, até mesmo no seu género. No entanto, já com o apoio de Fraser, também percebe que consegue ser feliz sendo ela mesma, com as suas ideias e experiências de vida, muitas vezes mal vista pela sociedade. 


A série apresenta-nos cenários diferentes, já que é toda ela muito explicita e aberta, dando total liberdade às suas personagens para viverem, sem terem o fardo de pensar nas consequências. Por este motivo, existem sequências que podem soar estranhas e até um tanto constrangedoras para o público, como é o caso da grande festa do episódio 4, que a uma primeira impressão até pode parecer fora de contexto, mas que mais tarde se revela de grande importância – pois ali as personagens estavam simplesmente a viver, como se fosse o último dia das suas vidas. 

Assim como aconteceu em Chama-me Pelo Teu Nome, aqui Luca Guadagnino também dá tempo às coisas para acontecerem. Ou seja, muitas vezes parece que as sequências se estão a prolongar por demasiado tempo e com pouco a acontecer. No entanto, é nestes momentos que a série se torna mais realista, pois não apressa os seus acontecimentos, simplesmente mostrando a vida destas personagens peculiares, quase como se de um documentário se tratasse. Dito isto, é uma série que não recomendaria a quem procurasse ação, pois aqui pouco acontece para além de meia dúzia de adolescentes descobrirem quem são – o que na minha opinião é delicioso. 


Luca Guadagnino também volta a provar a sua atenção aos pormenores captados pelas câmaras, com enquadramentos fotográficos com uma estética quase provocadora e de uma beleza única. Destaco o último frame de toda a série, que consegue, depois de toda a história contada, fazer-nos sentir pequenos e mostrar que devemos ser quem somos, porque estamos apenas de passagem. Visualmente, é uma série de beleza única, que também lembra outras obras do realizador. 

Já quase a terminar, seria inevitável referir a banda sonora, composta por muitos clássicos, como, por exemplo, êxitos de David Bowie – ao som de quem partimos na última aventura, no oitavo episódio da série, com a música “Absolute Beginners”. De referir também é que a série apresenta algumas composições originais que entregam um tom incerto aos acontecimentos. 


Por fim, não menos importante do que tudo o que referi anteriormente são as prestações de todo o elenco. Claro, destaca-se Jack Dylan Grazer e Jordan Seamon, que interpretam os dois protagonistas e partilham de uma grande empatia. Sente-se uma grande química em todo o elenco, o que contribui para, novamente, tornar a série mais realista, como se os atores fossem mesmo as pessoas que habitam naquele pequeno lugar do mundo. 

We Are Who We Are é uma série que não é para todos os gostos, tendo em conta o seu pacing lento. No entanto, é também uma daquelas séries que nos cativa instantaneamente, ao apresentar uma história diferente que no final é tão real. Com uma excelente realização e personagens muito bem criadas, esta resulta numa série inesquecível para quem lhe der uma oportunidade.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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