quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

"Mulher-Maravilha 1984" em análise

Passou mais de um ano desde que começaram a ser divulgadas as imagens da sequela ao sucesso de 2017 Mulher-Maravilha. Com tantos adiamentos resultados da pandemia, o filme acabou por ser adiado, mas, por sorte, o seu último grande adiamento sofreu um recuo e ainda conseguimos tê-lo no grande ecrã em 2020, como se fosse uma prenda de Natal antecipada. Patty Jenkins regressa à cadeira de realizadora para trazer mais uma história sobre a sua heroína favorita da DC Comics e o resultado é Mulher-Maravilha 1984, que traz também o regresso de Gal Gadot ao papel da protagonista e de Chris Pine, a desempenhar o par amoroso, Steve Trevor. A eles juntam-se agora Pedro Pascal, como o megalómano Maxwell Lord e Kristen Wiig como Barbara Minerva/Cheetah. 


A história tem lugar, assim como o nome indica, em 1984 (ainda que pudesse ser em qualquer outro ano). E depois dos acontecimentos do filme anterior, Diana Prince (Gal Gadot) já vive no nosso mundo, na nossa sociedade, há várias décadas, tendo-se integrado e mantendo um emprego num Museu. Apenas há algo que lamenta: a morte de Steve (Chris Pine) – um dos acontecimentos do filme anterior – e o facto de não ter estado tanto tempo com ele quanto queria. De resto, é uma mulher bem-sucedida, que nas horas vagas se dedica a salvar a cidade do crime – tal Cavaleiro das Trevas –, evitando acidentes e assaltos. Barbara Minerva é a recém-chegada ao Museu; uma mulher inteligente, mas desastrada, que sente uma certa inveja de Diana Prince. Maxwell Lord é um homem de negócios que está a passar por uma grave crise financeira e vê a sua empresa de petróleo na falência. É também uma celebridade, que aparece com frequência em anúncios de televisão, onde apela às pessoas para se juntarem a ele. 

Estes são os três grandes protagonistas desta história, que se divide em três linhas narrativas distintas que acabam, a determinado momento, por se unir. À partida estas são três personagens que poderiam não ter nada em comum, mas têm: uma pedra que concede desejos e à qual os três recorrem. A grande premissa do filme ronda este tema: o desejo, desejar algo que não se tem, mas que se quer ter. No entanto, como já se viu em muitos outros filmes, este tipo de desejos nem sempre tem um final feliz e é aí que entra a nossa Mulher-Maravilha para salvar o mundo (literalmente). 


A longa-metragem inicia-se com uma sequência que regressa à infância de Diana e onde somos apresentados ao intenso treino das Amazonas – algo que já tínhamos visto em 2017. É uma sequência bela, mas que não se sente necessária no decorrer da história, já que serve apenas para, mais tarde, a protagonista dizer em voz alta uma frase que lhe foi dita quando era mais jovem. É uma frase que poderia ter sido naturalmente dita pela Mulher-Maravilha, sem recorrer a toda esta sequência em Themyscira. Parece que tudo serve apenas para dar mais uma oportunidade a Robin Wright e a Connie Nielsen de aparecerem no universo da heroína, pois de resto não vi grande utilidade neste início – apesar de, volto a referir, ser belo e dar mais uma imagem da famosa Ilha Paraíso. 

O grande vilão desta história é Max Lord, no entanto isso gera um grande problema: este não é uma personagem com quem a nossa protagonista poderia ter um combate corpo a corpo. Infelizmente, sente-se que a presença de Cheetah (popular personagem nas bandas desenhadas) serve apenas para colmatar esse problema. A meu ver, e tendo em conta que o filme parece, a determinado momento, estar a prolongar-se demasiado nas introduções dos dois vilões, a apresentação da Cheetah poderia ter sido guardada para uma próxima entrada da DCEU, tendo este filme somente apresentado Max Lord, que seria um vilão mais do que suficiente para garantir a funcionalidade da história. Dito isto, não quero dizer que a prestação de Kristen Wiig não foi boa. Longe disso! Aliás, as prestações de todos os atores envolvidos estão impecáveis (com destaque para Gal Gadot, pois se já estava incrível no filme anterior, aqui consegue estar ainda melhor no seu papel). No entanto, senti que houve uma certa construção até chegar ao momento do frente a frente entre a Mulher-Maravilha e a Cheetah, apenas para depois termos uma luta com CGI fraco e, para piorar, de noite. Ou seja, tanta antecipação e depois não há sequer tempo para ver a Cheetah já na sua forma final, pois para além de ser uma luta no escuro dura apenas meros minutos. 


Passada uma hora e meia, admito que comecei a sentir um certo aborrecimento. Há muita coisa a acontecer: primeiro temos a Mulher-Maravilha com Steve e essa é uma dupla que funciona (foi um dos pontos de destaque do primeiro filme), mas alguns dos seus momentos são tão cheesy que me fizeram rodar os olhos e até sentir um certo embaraço e pensar em como é que algumas das falas referidas por eles chegaram sequer ao argumento final; depois temos Barbara Minerva, antes de se assumir enquanto Cheetah, e admito que gostei bastante das suas sequências, nomeadamente quando esta passa de uma pessoa inocente a uma mulher com uma confiança extrema; e, por fim, há Max Lord, que é também uma personagem que cresce muito aos nossos olhos e que vemos a atingir o fundo do poço à medida que se torna cada vez mais forte. Entendo que o facto de o argumento levar o seu tempo a explorar cada uma destas personagens faz com que consigamos sentir alguma empatia com todos eles (o que é fundamental aqui), no entanto não consegui evitar pensar que estava tudo a demorar demasiado tempo, até quando o tempo era precioso – por exemplo, a sequência do fogo-de-artificio no avião: linda de se ver, mas uma total perda de tempo para a situação que as personagens estavam a viver. 

No primeiro filme houve um grande problema: o CGI no terceiro ato. Infelizmente, neste aqui não é só no terceiro ato, mas em quase todas as sequências em que a nossa Mulher-Maravilha tira os pés do chão, seja para correr ou saltar. Eu sei, é uma super-heroína e a alta velocidade é um dos seus poderes, mas os movimentos pareciam pouco naturais, como aconteceu na sequência dos carros, já previamente divulgada nos trailers. Verdade seja dita, essa sequência teria de tudo para ser épica (até a banda sonora), mas não foi, talvez também por haver um certo medo a usar os efeitos especiais, já que se torna repetitiva e também demasiado prolongada. 


A banda sonora de Mulher-Maravilha já era muito interessante e desta vez temos Hans Zimmer no cargo de compositor. O tema principal torna-se mais intenso, mas como acabei de referir acabou por ser mal utilizado em algumas sequências, em que o que estava a ver parecia não combinar totalmente com as músicas. De resto, admito que gostei das alterações feitas, ainda que o som da guitarra e do baixo, tão característico desde o Batman v Superman: O Despertar da Justiça (2016), tenha sido quase anulado. 

Neste momento pode estar a parecer que detestei o filme, mas não. Não é bem assim. Admito que sou uma grande fã da personagem e adoro de coração o filme de 2017 e, talvez por isso, as minhas expectativas elevadíssimas aliadas à demora da estreia talvez tenham feito com que a minha antecipação me tenha levado à desilusão. Admito também que esperava uma história totalmente diferente, não tão focada nas guerras da sociedade e no intriguismo face à esperança e à compaixão. Sei que vários dos valores defendidos pela Mulher-Maravilha foram aqui apresentados e que este se distingue de outros filmes de super-heróis por não seguir a já tão usada fórmula de lutas entre herói e vilão, mas, ainda assim, isto leva-me ainda mais a repensar na necessidade (ou falta de) de incluir uma personagem como a Cheetah nesta história, sendo que, novamente, a poderiam ter apresentado em melhores condições. 


Mulher-Maravilha 1984 não é um filme mau, atenção! Sente-se que foi até bastante bem pensado e que tem nele muito amor por parte de toda a gente envolvida. Ainda assim, não me conquistou, seja pelas minhas expectativas ou, simplesmente, pela sua história que, para mim, tem elementos em demasia, que poderiam ter sido deixados de lado para uma próxima oportunidade de regresso ao grande ecrã. É um filme que está visto, mas que daqui a alguns anos talvez esquecerei, ao contrário do que aconteceu com o anterior.

Por fim, não posso apenas deixar de recomendar que todos os verdadeiros fãs da Mulher-Maravilha esperem um pouco até ao fim dos créditos, pois lá para o meio há uma cena deliciosa que, certamente, deixará muitos com um sorriso na cara – foi o meu caso.

6/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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