quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Os quinze anos de "As Crónicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa" (2005)

Há precisamente quinze anos, nos cinemas abriam-se as portas para um novo mundo mágico, cuja entrada se situava no local mais peculiar possível: um armário. E se no início da década já tínhamos passado por outros mundos fantásticos, como a Terra Média e Hogwarts, desta vez chegava, finalmente, a oportunidade de conhecermos Nárnia, o mundo criado por C.S. Lewis, amigo e rival de J. R. R. Tolkien, o autor de O Senhor dos Anéis. As Crónicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2005) seria, então, o início de uma aventura que duraria três filmes, e que com alguma esperança ainda nos vai abrir as portas novamente no futuro. E tudo começou com a pequena e curiosa Lucy Pevensie, a esconder-se durante um jogo de escondidas, a entrar num armário, que a levaria a conhecer o fauno Mr. Tumnus e toda a história de Nárnia… 


Em plena Segunda Guerra Mundial, depois de verem a sua casa a ser bombardeada e de viverem o horror da Guerra, os irmãos Pevensie – Peter, Susan, Edmund e Lucy – são enviados para o campo, para um local seguro, a casa do Professor Kirke, um homem que não lida bem com crianças, mas que decide abriga-las, desde que estas não o incomodem – como a Sra. Macready, a governanta, faz questão de realçar de imediato. No entanto, claro, os jovens, depois de já estarem muito aborrecidos, decidem divertir-se. Primeiramente, fazem o tal jogo das escondidas, que leva Lucy a encontrar Nárnia e a regressar apenas para todos duvidarem das suas palavras e da sua sanidade; de seguida, decidem jogar críquete e, acidentalmente, partem uma janela… Contrariando, assim, tudo o que a Sra. Macready lhes tinha dito que seria proibido. Em pânico, decidem esconder-se e não há melhor lugar do que o tal armário. O problema é que Edmund também já tinha estado em Nárnia, depois de seguir Lucy, e pelo caminho conheceu uma mulher encantadora, que se introduziu como Rainha de Nárnia. Mas esta não passa da vilã da história, Jadis, a Feiticeira Branca, que trouxe um Inverno eterno e morte àquela terra. 

Antes de mais, tenho de me desculpar se este artigo se tornar demasiado pessoal. Acontece que Nárnia sempre teve um lugar bem guardado no meu coração porque é dos poucos casos em que me lembro de ter ido ver o filme ao cinema e de viver toda a “loucura” quando este estreou, até com marcas de cereais, como os Chocapic, a oferecerem brindes relativos ao filme (hoje em dia isso parece quase inimaginável, mas em tempos os cereais ofereciam brindes, crianças!) – ainda hoje guardo na prateleira o meu pequeno Mr. Tumnus. Eu tinha apenas sete anos, prestes a fazer oito, e este foi o primeiro filme legendado que vi nos cinemas. Talvez até o primeiro com pessoas reais (ou, pelo menos, com alguns humanos). Recordo-me bem que havia sessões esgotadas por cá e na minha turma já muitos de nós o tínhamos visto, ao ponto de nos intervalos das aulas até nos termos tornado naqueles quatro reis e rainhas de Nárnia, em brincadeiras sem fim em que nos desviávamos de paus, que faziam de espadas, ao estilo do Peter, ou imaginávamos que erámos a Susan com o seu arco e flecha… Lembro-me até de imaginarmos toda a sequência do gelo a derreter e de jogarmos a uma espécie de macaca, mas totalmente alterada e com as nossas próprias regras. E foi esta a influência que Nárnia teve na minha infância, porque surgiu na altura perfeita. 


Acontece que o filme começa por nos apresentar quatro irmãos totalmente normais, mas que não estão a viver o melhor momento das suas vidas, depois de terem de fugir da guerra para um lugar onde inicialmente parecem não ser bem recebidos. É quando chegam a Nárnia que percebem o quanto importam e é também naquele lugar mágico que se conhecem, ganham força e crescem. Dito isto, não seria então difícil vermo-nos no lugar destas quatro personagens, já que começam por ser tão normais quanto todos nós, e, assim sendo, todo o seu crescimento é também um sinal de confiança para o espectador, que no final do filme recebe a perfeita mensagem de que todos somos diferentes mas especiais à nossa maneira. 

O universo de C.S. Lewis ganha aqui formas que até levaram o filme a ser criticado – pela positiva – pelo modo como enaltece elementos que faltavam na própria obra literária e como preenche Nárnia com criaturas que não tinham sido descritas e que foram criadas propositadamente para este mundo em formato cinematográfico. Não admira, então, que o filme tenha quase 2h30, já que foi muito para além da sua própria fonte e dedicou-se a introduzir o melhor possível Nárnia, de modo a garantir que os protagonistas não são os únicos a entrar pelo armário, mas que também o espectador fica a conhecer aquele novo mundo na sua totalidade. E aqui é de louvar o facto de a Disney ter “permitido” um filme tão longo, já que não deixava de ter as crianças como público-alvo. Se, por exemplo, a New Line Cinema tivesse dado a mesma criatividade a Chris Weitz com A Bússola Dourada (2007), poderíamos ter tido também a obra de Philip Pullman muito melhor representada no grande ecrã, mas nesse caso “o filme não podia ter mais de duas horas” e teve de ser tão encurtado que se sente cheio de pontas soltas, o que não acontece com os dois primeiros filmes de As Crónicas de Nárnia


Apesar de ganhar tantas novas adições, a voz de C.S. Lewis não deixa de ser ouvida e, assim como nos livros, podemos analisar o filme também de um ponto mais religioso. Sinto que não serei a melhor pessoa para o fazer, mas posso dizer que isto foi algo que me passou totalmente ao lado quando o vi em criança, mas agora quando o revejo é inevitável sentir essa mensagem, essencialmente na figura de Aslan, o leão que no nosso mundo “é conhecido por outro nome” (esta é uma citação apenas do terceiro filme). Assim sendo, este filme, assim como a obra do escritor, também recebeu algumas críticas por ser visto como um modo de “impor a religião cristã”, ainda que me pareça que o que faz é precisamente abrir portas para que todos nós possamos ter ou não fé em algo, dependendo do que pensamos e queremos, dando essa total liberdade. Toda a sequência da pedra e da “morte” de Aslan aparece, então, neste sentido de nos entregar um objeto que nos leva a pensar e a refletir – quando vemos o filme já em crescidos, porque em criança simplesmente ficamos a temer que aquele seja o fim do grande leão. 

Assim como criamos uma empatia com Aslan, o que nos leva a temer esta sequência acima referida, a verdade é que as personagens são todas apresentadas de modo a que as compreendamos com facilidade. Com destaque, posso referir Mr. Tumnus e os seus momentos iniciais com Lucy, em que se percebe que este de facto tinha poucas opções, mas a esperança foi o que o levou a agir de boa fé, pondo em risco a sua própria vida. A narrativa explora bem as personagens apresentadas, dando-lhes espaço para grandes desenvolvimentos, e isso é também algo que as torna tão icónicas. 


A banda sonora é também outro fator muito especial em As Crónicas de Nárnia. Apesar de este filme não ter tido tanto impacto quanto as entradas da trilogia de O Senhor dos Anéis ou da saga de Harry Potter, cujos temas se tornaram facilmente reconhecidos mundialmente, a verdade é que a banda sonora de Nárnia também nos fica facilmente na memória e é tão épica como essas duas. Desde a melodia do Mr. Tumnus ao acompanhamento da grande batalha, sente-se sempre um toque de esperança quando esta se faz soar com maior força. 

Por fim, não poderia, claro, deixar de referir a escolha do elenco. O grupo de jovens era refrescante, com caras novas: William Moseley como Peter, Anna Popplewell como Susan, Skandar Keynes como Edmund e Georgie Henley como Lucy. A interação entre os quatro tem química e realismo suficiente para nos fazer crer que poderiam até ser irmãos na vida real – e percebe-se que também houve uma certa preocupação em mantê-los minimamente idênticos, pelo que é fácil encontrar algumas semelhanças entre os quatro (no caso de Edmund e Lucy, a semelhança é mesmo o nariz, como diz o próprio Mr. Tumnus). Claro, também temos outros nomes mais fortes, já que estes eram pouco conhecidos até então e, infelizmente, depois de Nárnia pouco voltaram a fazer nas suas carreiras de atores (sendo que Skandar agora até é advogado). Tilda Swinton brilha como Jadis e James McAvoy, agora um ator bastante conhecido, poderá ter tido um dos momentos mais altos da sua carreira aqui a desempenhar Mr. Tumnus (ou, pelo menos, e verdade seja dita, esta continua a ser uma das personagens mais marcantes da sua carreira, que já vai longa e cheia de qualidade). Claro, é também de referir a presença de Liam Neeson, que entrega a sua poderosa voz a Aslan, o misterioso e mágico leão. Ah, e James Cosmo: fãs de Mundos Paralelos (2019-) e A Guerra dos Tronos (2011-2019), antes de ter sido Farder Coram e Jorah Mormont, respetivamente, James Cosmo foi o Pai Natal! Sim, porque este filme foi um dos filmes de Natal do ano de 2005 e a presença desta figura torna-o perfeito para ver nesta altura do ano. 


O tempo parece ter passado a correr, mas As Crónicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa já celebra quinze anos. Muita coisa mudou no Cinema, mas ainda hoje este filme mantém a qualidade que teve na altura, até no que toca aos seus efeitos especiais. Mesmo não sendo o mais popular do seu género, não deixa de ser sui generis, especialmente para aqueles que o viram no seu lançamento e continuam a querer regressar a casa, seja através de um armário ou de qualquer outro modo ainda mais inesperado.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

1 comentário:

  1. Nem acredito que já faz 15 anos! Vi o último filme durante a quarentena e amei tanto quanto os outros 2. Os melhores filmes que alguma vez vi na infância. Próximo passo: Ler os livros (leitura obrigatória para um futuro próximo)!!

    Beijinhos,
    Ella Morgan
    https://splitting-soul.blogspot.com/

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