quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

"Soul" em análise

2020 foi um ano marcante para uma reviravolta no Cinema e no modo de ver as estreias. A impossibilidade, aliada à insegurança, de visitar as salas levou a uma maior adesão às plataformas de streaming, tornando estas nas maiores amigas em tempos de isolamento. Este foi também o ano em que a Disney+ chegou ao nosso país, com um catálogo repleto de clássicos e pronta para receber as maiores novidades do estúdio. Dito isto, é com uma certa pena que lamento que Soul não tenha chegado às salas e tenha somente tido a sua estreia na plataforma, que, apesar de trazer várias vantagens, tira o prazer de ver um filme no grande ecrã – e isso, muitas vezes, contribui também para que vejamos os filmes de um modo diferente. 


Soul é o resultado de mais uma parceria entre a Disney e a Pixar e traz o regresso de Pete Docter à realização. Este é um realizador que teve mão em muitos clássicos da nossa infância, como é o caso de Monstros e Companhia (2001) e Up - Altamente (2009), mas, mais recentemente, parece ter introduzido uma faceta mais adulta nos seus filmes. Em Divertida-Mente (2015) já parece ter pensado mais nos adultos do que propriamente nas crianças, ao introduzir elementos que nos levam a refletir – naquele caso as emoções. Agora, no entanto, esse objetivo de atingir um novo público parece tornar-se mais forte, visto que Soul pode ser considerado o filme mais maduro produzido pela Pixar

Em Soul somos apresentados a Joe Gardner, um músico de Jazz que procura a felicidade através da Música. No entanto, ao longo da sua vida limitou-se a dar voz à sua vocação, nunca tendo tido um emprego a tempo inteiro e não sendo capaz de se sustentar apenas com os seus lucros. Joe não é totalmente feliz, mas vai sobrevivendo, muitas vezes sem sequer prestar uma total atenção ao que o rodeia. E é precisamente por esse motivo que, depois de receber aquela que seria a grande notícia da sua vida, morre acidentalmente… apenas para depois tentar perceber o verdadeiro significado de viver. A partir desse momento, passamos para um cenário totalmente diferente: o pós-vida, uma espécie de limbo, visto que ainda existe ali a possibilidade de regressar à vida. É um cenário meio abstrato e minimalista, já que as personagens são todas semelhantes e simples nas suas aparências – sendo que as únicas que realmente se distinguem são Joe (que adquiriu as suas feições e o chapéu que usava em vida) e 22, uma alma que gosta da sua vida naquele espaço e que não quer ir para a Terra, precisamente por achar que isso seria o fim das suas rotinas. 


A noção de que existe algo depois da morte lança o mote para uma reflexão acerca do que é a vida; será que o nosso tempo na Terra está a ser bem aproveitado? Será que estamos realmente a prestar atenção ao que mais interessa e a viver o máximo e o melhor possível? No caso de Joe, este só percebe que a sua vida era “insignificante” depois da morte, já que não se apercebeu disso enquanto vivia. E essa é a lição que este filme da Pixar nos traz, mas, desta vez, mais direcionada para os adultos, que, tal como Joe, podem ter questões relacionadas com as suas vidas. 

Os momentos de alívio cómico aparecem aqui nas interações entre Joe e a rebelde 22, cuja personalidade por si só já tem uma certa graça. É interessante ver a amizade dos dois a crescer, à medida que partem numa busca de autoconhecimento e tentam compreender aquilo que os rodeia, dando aí também uma especial atenção à interação com os outros. Em contrapartida, existem também momentos de maior tensão, essencialmente por o filme lidar com o tema da morte, mas sem ser lamechas, motivo pelo qual, ao contrário de outros filmes da Disney/Pixar, este poderá não nos emocionar com tanta facilidade. E esta não é a primeira vez que a morte é tema nos filmes destes estúdios: podemos recuar até ao início deste ano, onde também Bora Lá o abordou (transmitindo a ideia de que poderá existir algo depois da morte) e, em Coco (2017) também já visitámos os mortos. Mas esta é a primeira vez que o tema da morte é apenas abordado para pensarmos sobre a vida, já que, neste caso, o grande objetivo do protagonista é conquistar uma nova oportunidade de voltar à Terra plena. 


O argumento não é um dos mais criativos de sempre, mas dá tempo suficiente ao espectador para sentir alguma empatia com o protagonista, já que nos leva a conhecer o seu dia-a-dia, assim como as suas grandes paixões. A meu ver, no entanto, o argumento perde-se um pouco quando aborda as “almas perdidas”, levando-nos para uma espécie de inferno das almas, mas do qual, aparentemente, é fácil escapar. Senti que os minutos neste espaço foram um tanto apressados (ao contrário do que aconteceu com o primeiro ato), assim como os momentos finais, num desfecho abrupto, ainda que faça todo o sentido. Sente-se que há um lado poético nesta longa-metragem, mas sinto que precisava de mais tempo para realmente me conquistar. 

Soul é uma obra criativa que imagina e anima conceitos abstratos, de modo a atingir variados tipos de público. Tem uma mensagem de esperança, mas deixa o alerta à reflexão. É uma mudança de caminho na Pixar, ao introduzir, de modo reinventado, temas para os mais crescidos. Ainda assim, sinto que perde um pouco da magia a que a Disney e a Pixar já nos habituaram, mas talvez isso se deva simplesmente ao facto de este filme querer ser mais real do que aqueles até agora feitos.

7/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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