quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Maratona Ghibli: "Nausicaä do Vale do Vento" (1984)

Com a chegada de mais um confinamento, e depois da experiência do primeiro, sei o quão importante é não nos desligarmos nunca da Cultura e, no meu caso, do Cinema. Em 2020, como já admiti numa outra publicação, o número de filmes que vi comparado com o dos outros anos foi muito menor, em grande parte porque durante a quarentena me afastei muito do setor cinematográfico. Infelizmente, com a falta de novos filmes para ver, as poucas vezes em que recorri aos mais antigos foram insuficientes, resultando num ano para esquecer também nesse sentido. Agora, perante uma situação idêntica, decidi não cair no mesmo erro e escolhi regressar a filmes que me fazem sentir segura e confortável. Foi, então, nesse sentido, que disse a mim mesma: “vou aproveitar este confinamento para ver todos as longas-metragens do Studio Ghibli”. Na verdade, já tinha visto a maioria, existindo até alguns que já vi vezes e vezes sem conta. Mas lá pelo meio das duas dezenas de obras deste estúdio havia também algumas pérolas que eu, vergonhosamente, ainda não tinha visto. E é o caso deste sobre o qual hoje escrevo, aquele que foi também o primeiro filme do dito Studio Ghibli: Nausicaä do Vale do Vento ou Kaze no tani no Naushika (1984), realizado por Hayao Miyazaki. 


Gostava, desde já, de notar que em algumas versões este filme aparece, atualmente, com um aviso inicial a informar que é sugerido pela WWF (World Wide Fund for Nature), tendo em conta o seu tema e a preocupação ambiental que apresenta. E isso é algo frequente no Studio Ghibli: o modo como tratam a natureza com respeito e também o facto de, na sua maioria, saírem do urbano em busca de uma maior ligação com a própria natureza. 

Em Nausicaä do Vale do Vento somos apresentados à princesa Nausicaä, uma rapariga guerreira, mas pacifista, que tenta impedir que duas nações entrem em guerra e se destruam, assim como ao planeta. Acabamos, então, por ter uma protagonista heroína, de um certo modo a tentar salvar a humanidade, enquanto a própria natureza (e tudo o que a envolve) também aparecem para persistir, também lutando contra a poluição e destruição. Curiosamente, as personagens vivem numa zona idêntica a um oásis e é de notar que aí o ar pode ser respirável, já que não necessitam de máscaras, ao contrário do que acontece no exterior. 


Visualmente, este filme viria a marcar muito o estilo de animação do Studio Ghibli, que não terá mudado muito deste então. Porém, apresenta-nos algo pouco frequente, que é o tom de ficção científica, mais forte aqui do que a fantasia, que geralmente marca uma maior presença nas longas-metragens do estúdio japonês. Temos jatos e navios voadores, reforçando a ideia de que num futuro distante a tecnologia terá evoluído o suficiente para que isso aconteça. Ainda assim, é inevitável pensar no confronto que existe entre o natural e a tecnologia, mas assume-se que toda a comunidade do vale, apesar de estar tão ligada às suas raízes, tenha consciência também da necessidade de evolução. 

Certamente, muitas das pessoas que nunca viram o filme, terão pelo menos uma vez na vida visto imagens de algumas criaturas que nele aparecem, como é o caso dos Ohmu, idênticos a vermes gigantes (comparáveis aos do Duna), que ficam com os olhos muito vermelhos quando se sentem ameaçados. Poderia pensar-se que estes seriam os “inimigos” de Nausicaä neste filme, tendo em conta o seu ar feroz. No entanto, Miyazaki sabe como transmitir desde cedo que nenhum animal terá esse papel, ao apresentar a protagonista a ser mordida por uma pequena raposa – espécie que também aparece no filme seguinte dos Ghibli, O Castelo no Céu (1986) – e a resistir à dor, até que o pequeno se habitue a ela, criando uma amizade ao ponto de ela lhe dar o nome Teto. Através de uma sequência simples, o realizador não só explicita quem não serão os inimigos, como também mostra a necessidade de termos paciência nos nossos atos e de não interpretarmos mal as mensagens que recebemos, evitando partir de imediato para a violência. 


Ao ver toda a filmografia do Studio Ghibli, é-me impossível não refletir na importância deste primeiro filme em todos os outros. Logo aqui é definido o estilo de personagem heroína que viria a ser tão frequente, assim como também as mensagens ambientais já referidas e as tentativas de evitar confrontos. É também de destacar as vistas áreas, já que Hayao Miyazaki adora aviões, como o próprio já admitiu, e parece ser incapaz de os prescindir nos seus filmes. O resultado é algo que dificilmente cai no esquecimento e que consegue marcar todos aqueles que o assistem.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

Sem comentários:

Publicar um comentário