quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Maratona Ghibli: "O Castelo no Céu" (1986)

No seguimento do artigo anterior aqui no blogue, hoje continuamos a nossa maratona de filmes do Studio Ghibli com O Castelo no Céu ou Tenkū no Shiro Rapyuta (1986), também realizado por Hayao Miyazaki. Desta vez, acompanhamos a jovem órfã Sheeta, que juntamente com o seu raptor, o coronel Muska, estão a voar para uma prisão militar quando a sua aeronave é atacada por um gangue de piratas aéreos liderados por Dola. Sheeta consegue escapar, através da magia de um colar com um cristal mágico que usa ao pescoço, e conhece o também órfão Pazu. Juntos descobrem os poderes do cristal de Sheeta e percebem que este pode revelar a verdadeira localização de Laputa, uma cidade flutuante que todos acreditavam não existir realmente. Entretanto, destinados a descobrir a cidade, acabam por ter de enfrentar vários obstáculos, ao serem perseguidos por Muska e pelos piratas, que querem encontrar o tesouro da cidade.


Como referi na análise de Nausicaä do Vale do Vento (1984), os filmes do Studio Ghibli costumam ser fortemente marcados por um tom de fantasia, que nos leva a viajar nos sonhos, quase como se fossemos uma criança perdida na sua imaginação. Em O Castelo no Céu temos a imaginação de Hayao Miyazaki a levar-nos por uma viagem repleta de pequenos detalhes no seu argumento, criando um filme verdadeiramente consistente na sua história, mas que também é visualmente incrível, com cenários que quase nos tiram o fôlego – especialmente quando temos as vistas áreas que o realizador tanto adora.

Novamente, voltamos a ter a protagonista heroína, e desta vez junta-se a ela um rapaz, com quem forma dupla. Esta é uma fórmula frequentemente usada nos filmes que se seguem, muitas vezes havendo um rapaz e uma rapariga no papel dos heróis – por exemplo, A Princesa Mononoke (1997) e A Viagem de Chihiro (2001). A grande diferença será talvez o facto de aqui ser mais acentuado que estamos perante uma dupla de crianças, que, simplesmente, partem numa aventura em conjunto. E esta é, aliás, uma aventura que os leva para além das suas rotinas. Note-se que Pazu é um jovem muito corajoso e ambicioso, mas é também um engenheiro, que vive uma vida rústica e simples numa cidade mineira; Sheeta para ele representa o revirar da sua vida, pois é com a sua chegada, quase como se fosse um anjo a cair do céu, que este sai do seu porto seguro. Apesar desta reviravolta na sua vida, sente-se que Pazu, e de um certo modo também Sheeta, lidam com tudo com uma grande naturalidade, como se soubessem que há esperança no fim – não existindo, então, o perigo que algumas das outras duplas do estúdio tiveram de enfrentar.


As personagens secundárias têm também elas uma certa graça, com destaque para os piratas liderados por Dola. Pessoalmente, acho engraçado o modo como os seus filhos recebem Sheeta, sentindo-se imediatamente atraídos por ela, o que a meu ver também ressalva a ideia de que esta parece ser quase um anjo pelos olhos dos outros, tanto pela sua beleza como pelo modo como surge nas vidas de todas as outras personagens.

Também aqui os problemas ambientais são protagonistas, especialmente à chegada a Laputa, com a tecnologia e o natural novamente a entrarem em confronto – mas um confronto saudável. Destaco o “robot jardineiro”, que inicialmente parece ser o único a estar vivo, que deposita flores nos seus “falecidos” companheiros, o que também nos leva a refletir na bondade destes seres enormes – a grandiosidade do robot, em comparação com a pequena flor. Aqui neste ponto, não podia deixar de referir que as pequenas raposas de Nausicaä do Vale do Vento (lembram-se de Teto?) também aparecem neste filme, ainda que apenas numa pequena referência!


O Castelo no Céu pode não ser uma das mais populares obras do Studio Ghibli e pode também não ser tão profundo na sua história como tantos outros, mas é mais um marco destacável na carreira de Hayao Miyazaki e é um filme que nos leva a sonhar e que nos tira os pés do chão, levando-nos numa aventura sem igual.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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